Desistir é mais fácil que esperar!

Raramente eu ligo a TV, mas quando esse acidente acontece eu noto que o SBT ainda está reprisando A gangue dos Dobermans (dublado) e que o Pica-pau comprou a TV Record.

Nesse momento acabo sendo coagido a procurar outras obras de arte e acabo sintonizado em reportagens teatrais com helicópteros e 20 camburões no melhor estilo fuga do O. J. Simpson.

Nesta vida sem sentido eu me deparei com o pitoresco caso do rapaz que matou a avó, cortou em pedaços, levou “os tocos” em um saco de lixo até uma caçamba na rua e ateou fogo. O pai dele, filho da vovó, chorava como criança inconformada. Quando interrogado, o garoto assumiu o crime e apenas limitou-se a dizer que fez aquilo porque tinha fumado maconha.

Eu pensei, se essa criatura tivesse se aplicado um lisérgico 25 ou tivesse passado pelo “episódio do tigrinho”, que o mundo saísse da frente dele.

A essa altura da leitura, como qualquer pessoa educada, vocês devem estar se perguntando: Mas que cazzo de tigrinho é esse??

Pois bem, senta que ai, coloca o mordedor anti-bruxismo que lá vem a história.

Capítulo 2 – A precoce perda de esperança na espécie humana.

Minha mãe sempre costurou e, parafraseando Glauber Rocha, com uma máquina de costura e uma idéia na cabeça ela fazia qualquer coisa. Eu tinha apenas 4 anos e estava brincando ao lado dela no chão sobre um tapete com meu Forte Apache. Aquele saudoso, sádico e instrutivo brinquedo onde a gente se divertia fuzilando com rifles Winchester índios desarmados e imitando som de tiros que escapava saliva para todos os lados. Como dizia Tarantino, índio bom é índio morto! Num certo momento eu vi uma agulha e tive a brilhante idéia de colocá-la estrategicamente de baixo para cima e em pé no tapete para quem passasse ali levasse uma picadinha no pé. Mal eu sabia como essa brincadeira iria terminar. Ouvi a campainha e achei que fosse meu pai chegando do serviço, corri para atender e não era ele; na volta correndo, me esqueci e pisei na maldita agulha que eu mesmo plantei.

Vi estrelas e comecei a chorar desesperado, pois doía muito e meus dedos não se mexiam. Minha mãe veio me acudir, eu contei o que tinha feito e, como sempre digo, pior que morder um lanche e achar uma barata é achar meia.

Bingo! Achamos a metade traseira da agulha no chão, mas e a outra metade? Quem descobrir onde está ganha um Velotrol.

Dentro do pé do pequeno Fabinho, cravada entre os nervos dos dedos.

Minha mãe correu comigo para a rua para achar um táxi. Se alguém aqui tiver mais de 120 anos deve lembrar que naquele tempo a maioria dos táxis era Fusquinhas, sem o banco do passageiro para facilitar a entrada do cliente, poder acomodar alguma mala, e a porta era fechada pelo motorista por uma cordinha que ele puxava.

Minha mãe falou: vamos para o Leão XIII. Ela se referiu ao hospital e maternidade onde nasci e tudo se resolvia. Pensei: Leão XIII! Acho que ela vai me devolver lá por ser tão burro e inconsequente.

Logo no início do percurso eu olhei o retrovisor interno e tinha um Tigre mascote do Posto Esso super legal, de uns 10 cm, pendurado e balançando. Eu não conseguia tirar os olhos dele e resolvi perguntar. Moço, onde você conseguiu esse tigre? Ele disse no posto onde abasteço. Cada vez que encho o tanque eu ganho um. Você gostou dele? Sim, eu queria um, e piamente acreditando na bondade humana, achava que ele tiraria dali e me daria para aliviar a minha dor e o pé enrolado numa faixa ensopada de sangue. Ele prontamente respondeu, eu levo um na sua casa pra você.

Hoje já calejado eu calmamente pensaria: que maldito lazarento, vai morrer com a boca cheia de formigas!

Na época inocente, porém não inconsequente, eu apenas questionei, mas você não sabe onde eu moro. Ele rebateu, sei sim, eu não te peguei na sua porta?

No final da corrida eu sai mancando, ainda olhei o tigrinho e emendei então você leva, né? Simmmmmmm.

Fui operado. Na hora que me colocaram a força aquele inalador cor de rosa da anestesia, a última coisa que me lembro era do tigrinho antes de apagar geral. Fui pra casa e repousei por uns 4 dias. Cada vez que tocava a campainha pensava que era ele. Ledo engano; era algum parente que veio ver o menininho que um dia teve um coração e acreditou na humanidade.

54 anos se passaram e até hoje eu não esqueci. Cada Fusca que dobrava esquina eu pensava, é ele. Tive fé até pararem de fabricar os Fuscas nos anos 80.

Avalio como o inferno deve estar cheio de mal agradecidos que mentem para crianças! Quantos seriais killers nasceram de experiências assim?

Pior é que depois passei por mais promessas descumpridas. Houve outras marcantes, a com o Circo do sabão em pó Rinso, a ida ao Makro e o carrinho de autorama do Tio Gino.

Aguardem: isso fica para a próxima sessão de terapia. He-hê.

Abril de 2022

2 Comentários para “Desistir é mais fácil que esperar!”

  1. Parabéns ao autor com sua crônica leve, mista de poesia e ironia mas muito agradável de se ler embora com a decepção estampada de uma criança de não ter recebido algo prometido, que perdura anos e anos até hoje.

  2. Sensacional meu amigo,
    Me recordo do tigre pendurado no retrovisor dos carros .
    E me recordo tbm do tapete vermelho da sua sala de TV.
    Bons tempos…
    Abraços

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