Carrocinha de cachorro

Nos tempos em que se amarrava cachorro com linguiça, assim dizia antiga expressão, a carrocinha de pegar cães de rua recolheu um cãozinho branco, pequenino e muito peludo. Havia escapado de sua casa, por alguns momentos. Seu dono, quando se deu conta do que acontecia, entrou em desespero. Um menino de seis anos que amava Pirulito, assim chamado o bichinho.

Pirulito estava trancafiado com seis cães, na jaula que não era mais a traseira de uma carroça, agora de um caminhão. Um vizinho, seu Antonio, viu o que acontecia e tentou conversar com o funcionário laçador. Diálogo:

– Você não pode fazer isso, o cachorrinho tem dono, é daquele menino.

– Não quero saber, tá na rua eu laço mesmo. A lei é para todos.

O motorista do caminhão desceu e foi falar com seu Antonio. Explicou que o laçador oficial adoecera, e o substituto era vigilante na repartição, estava “quebrando um galho”. “Não posso fazer nada”, desculpou-se. O menino sentou na calçada, com as mãos tampando o rosto, em prantos.

Por acaso, naquele momento, Rodolfão saiu de uma travessa e viu que algo incomum acontecia. Rodolfão tinha quase dois metros de altura. Aproximou-se. Seu Antonio contou-lhe o que se passava. Ao ver que o grandalhão vinha em sua direção, o laçador tirou a chave do cadeado da jaula, e a colocou em um bolso da camisa.

E antes que aquele dissesse algo, avisou:

– Não quero saber de conversa e ninguém vai me fazer mudar de ideia.

Aconteceu, então, um fato impressionante. Rodolfão agarrou o laçador pelo cangote, com uma mão; com a outra, pegou uma perna. Virou o sujeito de pernas para o ar e… a chave caiu na rua.

O menino correu e pegou-a. Entregou-a ao gigante. Este abriu o cadeado, agarrou Pirulito e o passou para seu dono. Então escancarou a porta e os outros cães escaparam correndo pela rua. O laçador, por prudência, achou melhor não abrir a boca.

E a paz voltou à rua de casas singelas, com jardins floridos. O menino sentou-se no degrau de seu portão, feliz, com Pirulito no colo. Rodolfão, ainda chocado com o que acontecera, sentou-se ao lado dele. Então, o garoto disse “Obrigado”, e lançou-se num abraço apertado ao salvador de seu cãozinho. Rodolfão se emocionou, furtiva lágrima escorreu por seu rosto.

Esta crônica foi originalmente publicada no blog Vivendo e Escrevendo, em  setembro de 2022.

 

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