A força das imagens, a força das palavras

O mapa é uma daquelas imagens fortíssimas, virulentas, chocantes. Diz tudo – ou, vá lá, quase tudo. É uma daquelas que justificam o velho conceito de que uma imagem vale mais que mil palavras.

Um conceito que tem carradas de razão – mas que me incomoda um tanto, já que afinal de contas foram as palavras, e não as imagens, que permitiram que eu pagasse as contas, ao longo desta minha vida já bem longa. E então, logo que vi o mapa, na página da Márcia Zoé Ramos do Facebook, compartilhei-o na minha página, com estas palavras:

Não, a culpa não se divide igualmente entre os dois presidentes. A responsabilidade é de um só. O que invadiu o país do outro.

O que é de um país um pouquinho maior que o do outro.

Fazia menção, obviamente, ao que Luiz Inácio Lula da Silva havia dito à revista Time:

“Às vezes fico vendo o presidente da Ucrânia na televisão como se estivesse festejando, sendo aplaudido em pé por todos os parlamentos, sabe? Esse cara é tão responsável quanto o Putin.”

Em outro ponto da entrevista, a repórter afirmou que Zelensky não quis a guerra, que a guerra foi até ele. E então Lula respondeu:

“Ele (Zelensky) quis a guerra. Se ele não quisesse a guerra, ele teria negociado um pouco mais. É assim. Eu fiz uma crítica ao Putin quando estava na Cidade do México, dizendo que foi errado invadir. Mas eu acho que ninguém está procurando contribuir para ter paz. As pessoas estão estimulando o ódio contra o Putin. Isso não vai resolver. É preciso estimular um acordo.”

Como disse, com extraordinário bom humor e toda razão do mundo, o editorial de O Estado de S. Paulo da quinta-feira, 5/5, “Lula calado é um poeta”. “A julgar por suas declarações nas últimas semanas, parece que o ex-presidente Lula da Silva tem uma cota de besteiras para dizer até a eleição. É impressionante.”

E mais adiante:

“Lula trata como simétricas as posições da vítima e do agressor, o autocrata russo Vladimir Putin, um despautério que não tem o respaldo de nenhum líder democrático no mundo.

“Lula, que não sabe o que é uma guerra, ainda teve o desplante de censurar o comportamento de Zelensky, dando a entender que seu passado como ator o faria buscar mais os holofotes do que a diplomacia. ‘O comportamento dele é um pouco esquisito, porque parece que ele faz parte de um espetáculo. Ele aparece na televisão de manhã, de tarde e de noite (…) como se estivesse em campanha. Ele deveria estar mais preocupado com a mesa de negociação.’

“A incrível insensibilidade de Lula em relação ao líder de um país que tem de confortar seus concidadãos em meio às agruras de uma guerra só perde para seu cinismo – afinal, se alguém busca os holofotes todo o tempo e transforma cada gesto seu em peça de campanha, este é, inequivocamente, Lula da Silva.

“Chega a ser embaraçoso para alguém que se arvora em líder de uma notável ‘frente ampla’ pela democracia e contra o autoritarismo no Brasil dar amparo a um evidente ato de violência injustificada perpetrado contra um país soberano, sobretudo em entrevista à imprensa estrangeira. Ao fim e ao cabo, Lula se junta ao presidente Jair Bolsonaro na condescendência com que trata os crimes de guerra cometidos por Putin contra o povo ucraniano.”

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Boas palavras, muito boas palavras, estas do editorial do Estadão. Valem tanto quanto a imagem que mostra o tamanho da Rússia e o tamanho da Ucrânia. Como se houvesse comparação possível entre a força do lobo e a do cordeiro.

Hoje acordei pensando em fazer uma adaptação da fábula do lobo e do cordeiro à situação de Rússia e Ucrânia. Mas seria necessariamente uma coisa meio próxima da bobagem – por culpa minha, da minha falta de maestria para tentar fazer graça, não por culpa da realidade ou da fábula. O bom-senso prevaleceu, e deixei de lado a idéia.

Mas logo no café da manhã me deparei com a beleza do artigo de Carlos Alberto Sardenberg no Globo deste sábado, 7/5, sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia. Ah, que maravilha. As palavras valem, sim, tanto quanto as imagens. O texto de Sardenberg é como o mapa que roubartilhei da Márcia Zoé Ramos. Roubartilho também o texto.

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Só ditadores estabelecidos ou aspirantes estão com Putin

Por Carlos Alberto Sardenberg, O Globo, 7/5/2022

Pouco antes da invasão à Ucrânia, com o ambiente geopolítico já bastante tenso, setores da esquerda e da direita sustentavam que era tudo culpa dos Estados Unidos. A tese: como líder da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), os EUA levaram essa aliança militar a avançar sobre o Leste Europeu, como que ocupando países que haviam estado na órbita soviética. Esse movimento ameaça a integridade territorial da Rússia, aqui vista como a sucessora da União Soviética.

Lula partilha essa tese, como deixou claro na entrevista à revista Time. Para ele, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, também é responsável pela guerra por não ter adiado a discussão sobre a entrada na Otan. Ou seja, Putin é responsável pela invasão, mas… e cabe um monte de coisa nessa adversativa, cujo fim é jogar a culpa nos EUA, na União Europeia e em Zelensky.

Um festival de equívocos. Começa que a Rússia não é a sucessora da União Soviética. Esta tinha uma doutrina, partilhada por partidos comunistas de muitos países. Deu errado, é verdade, mas o regime funcionou por quase 50 anos.

A Rússia de hoje é o quê? Uma ditadura, como na era soviética, mas sem nenhuma doutrina a não ser a reverência a Putin e o assalto ao Estado promovido por ele e por seus aliados. Putin fala nos valores da Grande Rússia, em oposição aos “valores decadentes” do Ocidente.

Os valores do Ocidente são a democracia, a liberdade individual, a liberdade de imprensa e o capitalismo com predominância do empreendedor privado. Não estão decadentes, como se viu com a formidável reação ocidental à invasão e às barbaridades praticadas por Putin.

A população da Ucrânia praticou esses valores com a eleição de Zelensky e a decisão, também tomada no voto, de entrar na União Europeia e na Otan. Exatamente como fizeram outros países do Leste. Não foi a aliança militar que avançou sobre o Leste. Os países que escaparam da órbita soviética tomaram decisões soberanas de se juntar ao lado ocidental. Reparem: a Otan não deu um tiro sequer quando caiu o Muro de Berlim. E não fez nenhuma ameaça aos países ex-soviéticos.

Essas nações fizeram aquele movimento por dois motivos principais. Primeiro, partilhar o progresso e o desenvolvimento econômico e social da União Europeia. Segundo, obter a proteção da Otan justamente contra as ameaças do imperialismo russo.

Como se vê agora, tinham razão. A Ucrânia deu azar. Levou tempo para se livrar de uma ditadura, de modo que o governo democrático de Zelensky não teve prazo para consolidar a aliança com o Ocidente. Putin antecipou a invasão.

Hoje, quem está ao lado de Putin? Ditadores já estabelecidos no poder e aspirantes a ditador, como o presidente Bolsonaro.

Por que a esquerda, se não apoia Putin, é tão tolerante com ele, a ponto de achar que a vítima, a Ucrânia, também é responsável pela guerra? Trata-se de uma posição infantil anti-EUA e anti-Europa Ocidental, como se ainda fosse tempo da Guerra Fria. Cobram de Zelensky que abra mão da União Europeia e da Otan — que derrube decisões soberanas tomadas pela população. Cobram de Zelensky uma abertura às negociações. Mas quem não negocia é Putin, cuja exigência é transformar a Ucrânia em satélite russo. A resistência das tropas e da população ucranianas mostra bem que essa não é uma opção.

Não se sabe como terminará a guerra. A Rússia limitou suas operações, e a Ucrânia, ao contrário, reforçou sua capacidade de resistência com armas recebidas de países da Otan. Já não se considera impossível que as tropas ucranianas ponham as russas em retirada.

De todo modo, não se trata de uma disputa entre capitalismo e socialismo. Nem se trata de uma guerra por petróleo. São valores que estão em jogo. Ditaduras de um lado, democracias de outro.

7/5/2022

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