Vento em popa

A mistureba de política com religião e vice-versa vai de vento em popa. Os aproveitadores, claro, aproveitam. Perdi a conta dos livros, teses e artigos que li sobre esse fenômeno nos últimos 30/40 anos. Ele coincide com a retirada de restrições à filiação política que havia antes da Constituição Federal de 1988.

Até ali não era permitida a eleição de clérigos no Brasil. Tinham que renunciar à vida religiosa, se quisessem concorrer a cargo eletivo. Com a porta aberta em 88, os neo-evangélicos e pentecostais começaram a se lançar na política. Utilizaram para isso partidos tradicionais, mas logo criaram os seus, embalados também pelas liberdades concedidas na nova Constituição.

E foi para o vinagre o dístico constitucional que declara o Brasil um país politicamente laico e independente de credo religioso. Prova disso é o crucifixo pendurado nas paredes oficiais dos três Poderes, um anacronismo mantido, à época, por pressão da Igreja Católica Apostólica Romana. Um mau presságio. Somente credos cristãos usam esse símbolo aparente de tortura e morte. As outras religiões passam longe disso.

Digo “aparente” porque o significado da cruz na tradição mística não é de sofrimento ou castigo e muito menos de morte. A cruz significa a inserção do Espírito na Matéria, e desta inserção resulta a Vida. Justo o contrário, portanto. Está presente em cultos muito antigos, praticados séculos antes do cristianismo e em locais tão distantes quanto o Egito e o Extremo Oriente. Foi adotada, com significado oposto, pela Igreja Cristã muito depois da morte de Jesus. Aliás, a Igreja só passou a ter existência institucional séculos após a morte do palestino de Nazaré, com o primeiro concílio de Nicéia, em 325 d.C.

Acho bom lembrar, no mês em que os cristãos comemoram seu nascimento, que Jesus era palestino. Não era branco, loiro e de olhos azuis, como nos filmes de Hollywood e na maioria das pinturas da Idade Média. Era moreno, de cabelo escuro e olhos castanhos ou negros – como todo palestino. E, também como eles, não aceitava nenhuma forma de dominação militar ou religiosa. Era hábito usarem barba e cabelos compridos, e Jesus devia ser assim mesmo, moreno, barbudo e cabeludo. Sua mãe não era branca de olhos azuis, devia ser morena e de cabelos e olhos escuros. Seu pai não parece ter passado pelo tratamento branqueador, pois a imagem do carpinteiro José sempre foi a de um velhote moreno de importância secundária – em total discordância com a cultura patriarcal da época.

Isto posto, voltemos à vaca fria. Meu ídolo de infância Leonel Brizola dizia, quando governador do Rio de Janeiro, lá se vão 40 anos, que a maior desgraça política de nosso país aconteceria quando os neopentecostais assumissem um papel de protagonismo no processo político. O passo da história já caminhava nessa direção. E chegamos lá.

Mas o que eles querem? Tudo! Poder, dinheiro, liberdade sem restrições e, quando for o caso, impunidade. A cúpula evangélica movimenta bilhões de dólares ao redor do mundo. Pastores angolanos revoltados estão contando aos quatro ventos quanto e como a cúpula brasileira faz isso. A cúpula nega, evidentemente, e acusa os pastores angolanos de lhe darem um golpe. Os pastores revidam contando em detalhes a movimentação de dinheiro no eixo Angola-Jerusalém-S.Paulo e o papel da emissora de TV. O pau comeu feio: os pastores brasileiros foram expulsos do país pelo governo angolano e a emissora de TV é comandada agora totalmente pelos angolanos.

O porquê da degringolada ainda não é totalmente conhecido. Mas, com certeza, alguma coisa falhou no esquema Poder/Impunidade. A liberdade era total, pastores e dirigentes brasileiros iam e vinham como bem entendiam, entre Angola, África do Sul, Israel e Brasil. Imunidade diplomática e imunidade religiosa se confundiam. O poder era imenso, com papel preponderante da televisão.

Uma revolta interna desandou o pudim.

O caso demonstra quão necessário é ter uma bancada parlamentar unida e numericamente forte. Isso inexistia em Angola. E sobra no Brasil. Que logo mais dará posse no STF ao terrivelmente evangélico prometido há tempos por quem acaba de subir ao altar, em pompa e glória, com um dos ícones do mensalão do PT.

Nelson Merlin é jornalista aposentado, desocupado e estupefato. 

Dezembro de 2021

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