Uma arma apontada para minha cara

Brasília não é uma cidade violenta e eu não tinha nenhuma experiência como vítima de assalto.

Com um revólver pressionando minha têmpora, levantei as mãos, disse que não estava armado e que não iria reagir. Minha mulher estava dentro de casa, assistindo ao último capítulo de um seriado na TV. E quatro dos assaltantes queriam entrar.

Eu concluí rapidamente que seríamos mortos se eles entrassem na casa. Resolvi dificultar um pouco o assalto: disse que estava muito nervoso e não conseguia encontrar a chave da casa dentro do meu carro. Depois que um deles achou e me entregou, deixei-a cair propositalmente, para quebrar o controle remoto do portão, impedindo-o de fechar, na esperança de chamar a atenção dos vizinhos.

O resultado foi levar uma coronhada de revólver na cabeça. Jorrou sangue para todo lado. Adrenalina lá no alto, não senti dor.

Um vizinho passou de carro, olhou, mas não percebeu nada.

Sempre imaginei que ficaria com as pernas tremendo em um assalto. Por precaução, há 20 anos não vou à minha cidade natal, o violento Rio de Janeiro. Contudo, por incrível que pareça, permaneci inexplicavelmente calmo e racional. Talvez por já ter passado por muitas situações estressantes quando trabalhei na imprensa e no setor de combate ao contrabando da Receita Federal.

Então, estabeleci como objetivo atrasar ao máximo a entrada deles e fazer minha mulher perceber o perigo. Ao reclamarem por eu estar falando alto, menti que não havia ninguém dentro da casa.

Levei chutes e murros por continuar falando alto e demorar demais a abrir a porta de entrada da área de serviço. Novamente sem nenhuma dor. Soube depois que os vizinhos ouviram, mas não imaginaram tratar-se de um assalto, por ser algo não muito comum em Brasília. Mais chutes e murros ao deixar cair duas vezes as chaves e demorar a abrir a segunda porta, que dava acesso à cozinha. Mas notei que três deles não usavam máscaras.

Foi aí que, olhando sempre para o chão, nunca para eles, arrisquei uma proposta que não esperava ser aceita: “Vocês não querem ser reconhecidos. E eu sei que vão me matar se eu olhar para o rosto de vocês. Não é melhor apagarmos as luzes?”

Inesperadamente, o mascarado que comandava o assalto apagou a luz da cozinha. Eu tinha lido em algum lugar que luzes apagadas deixam assaltantes desorientados dentro de uma casa desconhecida, situação na qual o morador fica com alguma vantagem.

Chegando à sala, o chefe do bando, que usava uma máscara igual à do filme V de Vingança, perguntou por dólares e armas. Quando eu trabalhava na Receita Federal, tinha porte de armas e fazia treinamentos, mas nunca quis ter uma arma em casa. E de nada adiantaria contra cinco bandidos; não era filme americano. Respondi que não tinha armas e nem dólares, falando bem alto para minha mulher ouvir.

Mas a casa é grande, e ela estava interessada no último capítulo.

O mascarado, com o revólver na minha cabeça, ordenou então que eu me deitasse no chão. Me recusei. Não por ser corajoso, mas por já estar conformado de que não havia nenhuma chance de sair vivo daquele assalto. Eu tinha que avisar minha mulher, enquanto estava vivo.

Disse ao mascarado que estava obedecendo a tudo que ele pedia e que não iria me deitar para ser executado com um tiro na nuca. Pela segunda vez, um outro assaltante, um sujeito muito chato, armado com faca, sugeriu ao chefe: “Mata logo ele! Estoura a cabeça dele!”. Mas eu sabia que era só para me assustar e me tornar obediente. A resposta do mascarado me deu alguma esperança: “Então, abra aquela porta!”.

Ora, no escuro, ele não percebera que estava apontando para a porta de entrada da casa. Se fosse aberta, encontraríamos apenas uma varanda, um lavabo e a saída para a rua. Era o caminho inverso da sala de TV.

Eu não estava com a chave da porta da sala, pois sempre entrava pela cozinha. Mas fingi por algum tempo tentar abri-la, para ganhar tempo. Mais murros nas costas; nenhuma dor. Quase gritando, disse que eles estavam assaltando a casa errada, que encontrariam dólares, nem armas e nada de valor, porque eu estava quebrado, cheio de dívidas.

No mesmo momento, outro assaltante quase me matou de medo, caminhando em direção a uma porta grande, envidraçada, do outro lado da sala. Ela estava coberta por uma persiana e, se ele a abrisse e olhasse para a direita, veria a luz da TV piscando na sala onde estava minha mulher. Perguntou o que havia ali, e eu respondi que não tinha nada, que era apenas a saída para churrasqueira e a piscina. Foi uma das poucas vezes que eu disse a verdade. Por incrível que pareça, o sujeito acreditou e voltou sem abrir a persiana.

Para convencê-los a ir embora, entreguei meu telefone celular, minha carteira, dizendo o que tinha de dinheiro e cartões, e o cartão usado para ligar o meu carro. E comecei a argumentar que levar esses itens e o meu carro já era um bom negócio, pois não teria como levarem móveis, geladeira ou aparelhos de TV.

Foi o “Levem meu carro, pô!”, dito bem alto e com raiva, que a minha mulher finalmente ouviu.

Para o meu terror, vi a porta da sala de televisão abrindo. Por nem imaginar a hipótese de assalto, em vez de chamar a polícia imediatamente, ela abriu a porta e tentou ver o que estava acontecendo. No escuro, não me viu, mas deparou-se com o sujeito de máscara branca e arma na mão, acompanhado de mais três comparsas.

Sorte que a distância era grande e ela reagiu rápido. Eles estavam junto à porta da sala que eu fingia tentar abrir, a uns 8 metros da porta da sala de TV. Na penumbra, vi minha mulher recuar e ouvi o barulho da chave girando duas vezes na fechadura. Um dos assaltantes alcançou a porta com segundos de atraso e fez ameaças para que ela abrisse. Ela me contou depois que tinha se trancado num banheiro, mas, na pressa, não havia levado o celular para ligar para a polícia.

Somente derrubando três portas eles conseguiriam encontrá-la agora. Fiquei aliviado, por saber que ela teria diversos locais para se esconder, gritar por socorro, ou ligar para a polícia. E me preparei para morrer.

Eu tinha certeza que chegara a hora de levar meus bem merecidos tiros, ou facadas, por ter mentido que não havia ninguém mais em casa e ter falado sempre tão alto. Incrível como encarei isto com naturalidade.

Mas o sujeito com a máscara do filme V de Vingança, que aliás falava português corretamente, deu uma voz de comando. Em seguida, todos saíram correndo em direção ao carro deles, que ficara atrás do meu, com outro assaltante ao volante.

Pensei comigo mesmo: “E eu não morri!”

Minutos depois chegaram alguns carros de polícia, que chamaram uma ambulância para dar pontos na minha cabeça. Minha mulher tinha sido corajosa: ainda com os assaltantes lá dentro, ela resolveu voltar até a sala de TV. Conseguiu puxar para dentro do quarto o telefone fixo, que tinha um fio longo, e ligou para a polícia.

No dia seguinte fiz os exames da minha checagem anual, marcados anteriormente com o cardiologista. Todos os índices saíram muito alterados pelo stress. O cardiologista disse que o meu autocontrole na hora do assalto custou caro ao meu organismo. Estava com arritmia cardíaca e até diabetes.

O médico disse sorrindo que eu teria que refazer os exames sem ter sido assaltado e sem ter comido um pudim inteiro com Coca-Cola, os presentes que eu havia comprei para mim no supermercado 24 horas, na volta da Delegacia de Polícia. Imaginem a cara dos funcionários, ao verem, de madrugada, um cliente com a cabeça e a camisa manchadas de sangue, comprando um pudim enorme.

Somente após passar quase três anos morando num apartamento na Asa Norte de Brasília, consegui finalmente convencer minha mulher a retornar para a casa no Lago Norte. Mas ao custo de despesas com câmeras de segurança, cerca elétrica com alarme e portas reforçadas. Também coloquei um motor que fecha o portão com o dobro da velocidade anterior.

Apesar de tudo, Brasília não é uma cidade insegura. Durante 30 anos morando na mesma casa, eu nunca tinha ouvido falar de acontecimento semelhante no meu bairro. Segundo a polícia, naquela época houve uma onda repentina de assaltos na região, mas fizeram algumas prisões e logo a situação foi controlada.

Os vizinhos montaram um sistema de vigilância, com câmeras por todo lado, sob orientação constante da Polícia Militar. Cada um se encarrega de vigiar as outras casas, e também a rua, que não tem saída e termina num lago. Passamos a fazer parte de um grupo de comunicação via Whatsapp, integrado também pela Polícia Militar, e agora existente em quase todas as ruas do bairro.

Ah, sim!, algumas semanas depois do fracassado assalto, prenderam um bando chefiado por um sujeito com máscara do filme V de Vingança.

Bem feito!

Nota do administrador: Meu amigo Luiz Carlos Toledo Pereira escreveu este texto para o site de perguntas e respostas Quora, do qual é colaborador. A pergunta era “Qual é a sensação de ter uma arma apontada para sua cara?”

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