Tinhorão

Grande Tinhorão.
 
Tinhorão era um xiita, um radical, um fanático da música brasileira pura, de raiz.

Passou a vida numa jihad contra a influência estrangeira na música brasileira.
 
Por exemplo: sempre achou a bossa nova um lixo, um horror, coisa americanizada.
 
Elis Regina promoveu passeata contra as guitarras na música brasileira, ali por 1967. Nara, com sua sensibilidade sem fim, suas poderosas antenas para o mundo ligadas, via aquilo com espanto e tristeza. Não me lembro se Tinhorão se pronunciou sobre aquela asneira, mas muito provavelmente apoiou.
 
O que penso sobre música popular é exatamente o oposto, o contrário, o antípoda da visão, da postura, da ideologia de Tinhorão.
 
Pra mim, em música, em qualquer área da cultura, em qualquer área do pensamento, assim como na questão da cor da pele, da “etnia”, quanto mais mistura melhor.
 
Quanto mais influência do jazz, do rock, da guarânia, do fox trote, do tango, da valsa, melhor.
 
Quanto mais miscigenação, ou mixturação, pra usar o termo do Walter Franco, melhor.
 
Mas é preciso respeitar Tinhorão.
 
Era um pesquisador sério, um estudioso abnegado. Um dos maiores nomes dos que levam música popular a sério.
 
Que Donga, Sinhô, Lamartine, Noel, a moçada toda o receba muito bem.
 
João, quando der, toque um Caymmi, um Geraldo Pereira pra ele daquele jeito que só você sabe. Veja se consegue derreter o preconceito que o cara tem contra você, agora que ele virou anjo também.
3/8/2021, o dia em que José Ramos Tinhorão descansou, após 93 anos. 
A foto é de Paulo Pinto/Estadão Conteúdo. 

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