Só Pensa Naquiiilo!

Quem não conhece esse bordão da dona Bela, a pudica e virginal aluna do professor Raimundo: “Ele só pensa naquiiilo”?

Toda e qualquer pergunta feita pelo professor era uma ofensa aos ouvidos castos da donzela pura e nada bela.

“Dona Bela, o que são Gimnospermas e Angiospermas?, pergunta o mestre.

“Isso são palavras pra dizer pra tua família, seu tarado”, responde a ensandecida pupila se jogando ao chão, fingindo um desmaio.

Ela fazia parte de um grupo de personagens engraçados da fictícia Escolinha do Professor Raimundo. Mas, como a arte imita a vida, o contrário também acontece. E o que antes era ficção acaba se tornando realidade.

Ultimamente tem aparecido um monte de donas Bela por aí, desencavadas pelo governo Bolsonaro.

Começou com a ministra da pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves, que, do alto da goiabeira, enxerga sexo em tudo que está ao seu redor. Deixou bem claro que meninos não se misturam com meninas nas escolas para que não caiam em tentação, e que, além do azul e do rosa, não existem nuances. É pau-pau (talvez fosse melhor usar outra expressão para não provocar um ataque histérico nessa senhora), pedra-pedra. Sexo só pra reprodução e olhe lá.

Na última terça-feira (25/5), a dona Bela da vez nas redes sociais foi a secretária da Gestão de Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro.

Enquanto estava sendo interrogada pela CPI, o senador Randolfe Rodrigues exibiu um vídeo de 2019 em que a “Capitã Cloroquina”, como é conhecida na rodinha, descia o pau na Fundação Oswaldo Cruz: “Tudo deles envolve LGTB+, eles têm um pênis na porta da Fiocruz”.

Isso causou espanto até ao presidente da CPI, Omar Aziz. Ele achou que podia ter ouvido errado, dado o tamanho da sandice e perguntou: Tênis, né? E ela respondeu: “Não, falei pênis mesmo. Tinha um pênis na porta da Fiocruz”.

Como se não bastasse só pensar naquiiilo, a doutora Mayra segue adiante no vídeo enxergando nos tapetes da porta da instituição a imagem do Che Guevara. (Seguindo sua linha de pensamento fértil, provavelmente ela viu um Che Que Vara).

O que mais impressiona nessa história toda é que essa senhora é uma médica e, portanto, teve acesso a conhecimentos que a maioria do povo não teve e não terá. E como tal ela deveria dar um exemplo de civilidade, enaltecendo um instituto científico de grande credibilidade, ou, no mínimo, guardar pra si esses pensamentos sodomentos e gomorrentos, pra não passar vergonha em público.

Por essas e mais outras até o Papa Francisco está tirando onda com a cara da gente. Dois brasileiros que o visitaram recentemente pediram: “Santo padre, reze pelos brasileiros”. Ele sorriu e disse: “Vocês não têm salvação”, e, gargalhando, continuou: “É muita cachaça e pouca oração”.

É claro que ele estava brincando, e em seguida disse que reza sempre por nós.

Mas uma coisa é certa: Do jeito que estamos indo vamos precisar mesmo de muita, mas muita oração.

E de cachaça, claro, que ninguém é de ferro!

Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 28/5/2021.

 

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