Uma bela obra no lugar errado

Ninguém negará que Paulo Mendes da Rocha foi um dos mais expressivos nomes de nossa arquitetura, com excelência reconhecida em todo o mundo. Seu falecimento, há poucos dias, representou sem dúvida uma grande perda. Diante disso, como um jornalista, um repórter, desses que correm atrás de notícias cotidianas, fará para apresentar um senão a uma das obras dele?

Estou falando do pórtico sobre a entrada para a galeria Prestes Maia, na Praça do Patriarca, Centro Histórico da cidade, inaugurado em 2002. Belíssima obra, de linhas modernas, mas por isso mesmo, na minha opinião, fora de lugar. De tal modo impõe-se na praça centenária, que, vista de certos ângulos, quase esconde a igreja de Santo Antônio, construída como ermida em 1592. O templo chegou a ser a matriz de São Paulo (1603) e em alguns momentos correu o risco de ruir. O zelo de tradicionais famílias paulistanas cuidou de recuperá-la, de tal modo que hoje é uma bem frequentada relíquia de expressão singela.

Fica na praça também, na esquina com a Rua São Bento, o edifício onde se instalou, em 1924, a Casa Fretin. Ela vinha de outro ponto dessa mesma rua, onde havia sido fundada em 1895. Era uma relojoaria, mas também importava óculos, pince-nez e monóculos, não fabricados no País. Uma vez na nova sede, diversificou as vendas para equipamentos que atendiam a medicina, como os de laboratório e radiologia. Manteve a tradição de casa prestigiada, até fechar as portas, em 2001.

Na mesma Praça do Patriarca, existiu a memorável loja de departamentos Mappin, que apresentava uma novidade. Roupas expostas em vitrines abertas para a rua. A loja surgiu em 1919, na Rua Quinze de Novembro, e desde logo atraiu a elite paulistana, que buscava roupas finas e frequentava o salão de chá. O chá das cinco tornou-se famoso na cidade.

Em 1922, poucos anos depois de sua mudança para a praça, o Mappin foi destruído por um incêndio. Com as mercadorias que sobraram, anunciou a liquidação dos Salvados do Incêndio, que atraiu uma multidão. Logo reabriu as portas, mas agora em um prédio da Praça Ramos de Azevedo, em frente ao Teatro Municipal.  Por pouco não chegou ao nosso século. Fechou em 1999.

O pórtico de Paulo Mendes da Rocha cobriu a entrada para a Galeria Prestes Maia, construída em 1940. Com três andares, e escadas rolantes, a galeria leva da Praça do Patriarca ao Vale do Anhangabaú. Na praça está a estátua de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência. Ficava próxima à entrada da galeria, mas, Rocha mudou-a de lugar.

Agora acha-se em uma ponta da praça, na esquina das concorridas ruas Direita e São Bento. O arquiteto achou que, ali, ganharia mais visibilidade.

N,.doA. : Para minha surpresa, o noticiário do Estadão sobre a morte de Paulo Mendes da Rocha registra que a intervenção na Praça do Patriarca desagradou muitas pessoas. Só com esse respaldo tive a petulância de redigir este artigo.

Maio de 2021

 

 

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