Pílulas de Memoriol!

É verdade que essa pandemia tem mexido com as cabeças de todos nós. Todo mundo reclamando que tem se perdido no calendário, acorda e não sabe se já é fim de semana ou se ela está apenas começando. Esquece de pagar boletos no dia do vencimento, não se lembra onde deixou o celular, a chave do carro, o cartão de crédito, e por aí vai.

Tanto é verdade que já são quase oito da noite de uma quinta-feira, horário em que meu texto já deveria estar pronto e devidamente revisado para mandar pro forno na manhã do dia seguinte, e só agora me lembrei de que ainda não tinha escrito nada.

Mas não é só a pandemia que está deixando a gente tantã. Essa série que tem passado na TV três vezes por semana, com o nome de Comissão Parlamentar de Inquérito, tem atrapalhado um pouco a vida dos aficionados pelo tema. Protagonizada pelo veterano ator Omar Aziz tem despertado o interesse tanto dos telespectadores que torcem pelo mocinho quanto pelos que torcem pelo bandido.

A história se passa no plenário do Senado, por onde desfilam depoentes inquiridos pelos senadores governistas e não governistas. Começou com o intuito de esclarecer por que o presidente Jair Bolsonaro não comprou as vacinas em seu devido tempo, e em vez disso torrou uma baita grana comprando cloroquina e ivermectina que não servem e que jamais serviram para combater a Covid-19.

Mas, conversa vai, conversa vem, esse tema acabou ficando em segundo plano, depois que surgiu um rumoroso caso de corrupção na compra da vacina Covaxin pelo governo federal.

O primeiro fio do novela, digo, novelo foi puxado pelo servidor do Ministério da Saúde Luís Ricardo Miranda, que acompanhado de seu irmão, o deputado Luís Cláudio Miranda, foi bater na porta do presidente para denunciar possível corrupção envolvendo a compra da tal vacina.

Daí pra frente só teve merda jogada no ventilador se espalhando por todos os cantos. O chefe da Nação, em vez de mandar apurar, resolveu virar o jogo e acusar os irmãos de mentirosos e de fazerem parte de um plano para derrubá-lo.

Isso levantou as suspeitas dos investigadores da CPI de que o próprio presidente estaria envolvido no caso. Sabendo da desconfiança, ele, Jair Bolsonaro, tratou logo de rolar a bola pro seu cãozinho de estimação que atende pelo nome de Eduardo Pazuello.

Só que, no desenrolar da trama, novos personagens vão aparecendo e novas denúncias de corrupção vão surgindo. Uma outra denúncia de propina sobre a vacina de Oxford apimentou mais ainda a série. Quem levantou essa lebre primeiro na Folha de S. Paulo e logo em seguida na CPI foi um cabo da Polícia Militar de Minas Gerais, que, nas horas vagas, trabalha como representante da Davati Medical Supply, uma empresa americana que até pouco tempo se dedicava ao ramo da construção civil e que recentemente foi transformada em uma empresa de distribuição de suplementos médicos. Segundo ele, a Davati estaria oferecendo 400 milhões de doses da vacina produzida pelo AstraZeneca ao Ministério da Saúde, e aí o diretor de logística do Ministério pediu para o preço subir um dólar por dose, como “comissão” para ele e seus amigos.

O cabo da PM Luiz Paulo Dominguetti, tentando claramente tirar o seu e o do presidente da reta, faz acusações e se enrola tanto a ponto de perder totalmente a memória.

Quando indagado pelo senador Fabiano Contarato se ele já tinha sido preso, titubeou e, depois de buscar com os olhos seu advogado, respondeu: “Não me lembro”.

Como mencionei antes, a pandemia tem afetado a memória de muita gente, mas não lembrar de ter sido preso um dia aí já é meio demais, nénão?

Afinal, seu Dominguetti, prisão é que nem o primeiro sutiã: a gente nunca esquece!

Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 2/7/2021. 

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