Detector de mentiras no Brasil

A empresa Verdade Verdadeira lançou no mercado um revolucionário detector de mentiras. Aqui no País, a reação dos que mentem porque não podem falar a verdade (sob risco de serem presos) foi de deboche. “A mentira prevalecerá! Ah, ah”. Para provar a excelência do produto, o primeiro teste seria feito com o acusado da compra superfaturada do detector.

É verdade que as leis brasileiras não aceitam, como prova, as confissões obtidas com detectores de mentira.  Mas não impedem que seja usado, e o resultado pode ser útil para a formação da culpa. O detector analisa reações dos suspeitos durante o interrogatório. Se diante de uma pergunta as batidas do coração aumentam, a respiração se acelera, é porque está mentindo.

Na delegacia, o autor do superfaturamento é preparado para o interrogatório.  Os elétrodos do aparelho são grudados ao seu corpo. Tudo pronto, o delegado vai direto ao ponto.

– O senhor confirma que pagou R$ 20 milhões pelo equipamento, mas recebeu da empresa vendedora um recibo de R$ 25 milhões. E se apropriou da diferença?

Vem a resposta:

– Nim.

O delegado se abespinha.

– O que é isso!?

– Bem, doutor, sei que o senhor está bem abastecido de provas. Mas eu não me julgo culpado de tudo. Assim, o n da minha resposta é parte da palavra não. E o im, parte de sim.  Acho que o detector deve ter a capacidade de registrar as duas situações, o que reduzirá a pena a que eu vier a ser condenado pela metade.

O delegado olhou para o perito que aplicava o aparelho. Este estava atônito, sentindo seu próprio coração bater mais forte. Não via o que fazer diante do impasse. Por fim, a autoridade determinou:

– Levem essa engenhoca daqui!

Com isso, o jeitinho brasileiro conseguiu fraudar um invento criado no século passado e usado com sucesso como auxiliar para a formação da prova em países pelo mundo.

Julho de 2021

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