Palavras ao Vento!

Se as eleições fossem hoje e tivéssemos que escolher um candidato à Presidência da República pelo que andaram dizendo por aí, ia ser difícil lacrar um número nas urnas eletrônicas. Vamos conferir.

Candidato um:

Jair Bolsonaro esteve visitando ditadores da direita no tour que fez ao Oriente Médio e se encantou com tudo que viu. Ele, que devia achar que Sheik não passava de leite batido com sorvete, se extasiou com o comportamento dos príncipes de contos de fadas que encontrou.

Em Dubai foi logo ficando amigo íntimo do Mohammed Bin Rashid (opa! Rashid lembra rachadinha. Tamo junto, mano, deve ter pensado Flávio). Adepto de métodos pouco convencionais para conseguir seus intentos, esse Sheik mandou sequestrar e levar de volta para os Emirados Árabes duas de suas filhas (ele também fraquejou) que tentavam escapar dos maus tratos a que sempre foram submetidas. (Segundo a Human Rights Watch, as princesas estão detidas e sofrem maus tratos até hoje.)

Encontrou-se ainda com mais três ditadores homofóbicos, que não respeitam os direitos humanos, com os quais se identificou de cara. Segundo Edu Bananinha, “pareciam velhos amigos”.

Já de volta ao Brasil, Edu disse numa live, com a anuência do pai, que a falta de democracia em países do Oriente Médio é “diferente” de Cuba ou Venezuela.

Então, quem concorda que ditadura de direita é o caminho já tem seu candidato.

Candidato dois:

Lulalá na Europa se travestiu de homem sério e conversou com todos os líderes que abriram as portas para ele. Fez e aconteceu na França, na Alemanha, na Espanha.

Foi ganhando cada vez mais confiança em si mesmo e afirmou ser “o melhor presidente da História do Brasil”. Mas a fantasia de candidato honesto que ia endireitar o país acabou sendo rasgada por duas jornalistas espanholas que tocaram castanholas, pegaram o touro a unha com fé e vontade e fizeram com que ele mostrasse seu verdadeiro lado, o de adorador das ditaduras de esquerda a ponto de questionar por que Daniel Ortega não podia passar mais tempo no poder e Angela Merkel podia. As jornalistas viraram dançarinas de flamenco nesse momento e deram um olé no touro com a seguinte resposta: ela nunca mandou prender, torturar ou matar seus adversários.

Fica aqui a dica de voto para quem também acha que Ortega é um bom presidente para o povo nicaraguense ou que Fidel ficou foi pouco no comando de Cuba.

Candidato três:

Já assumindo com toda a pompa e circunstância a candidatura à Presidência da República, o ex-juiz Sérgio Moro apareceu ao lado de Álvaro Dias do Podemos esta semana, para dar uma pincelada sobre suas prioridades como presidente: acabar com a corrupção, claro, e resolver os problemas da Economia. Certamente não terá dificuldade, pois já que sabe exatamente quais são as causas da pobreza: “Pode ser simples, uma falta de emprego, uma oportunidade de ensino”.

Para quem aposta em soluções simplistas para erguer o país, eis aqui o candidato adequado.

Quase candidato quatro:

O atual governador Eduardo Leite apeou na convenção do PSDB no último domingo com fúria de um vaqueiro decidido a ser o dono da arena. Ficou emputecido com a interrupção forçada das votações porque possui a mais “absoluta confiança de que vencerá as prévias”.

Portanto, quem está à procura de um bagal corcoveador para presidente vai ter de torcer para que o calça apertada seja derrotado na convenção.

Quase candidato cinco:

Rodrigo Pacheco, o presidente do Senado, também deu o ar da graça para dizer que se sente honrado com o convite do Kassab para sair candidato pelo PSD. Mesmo ainda sem ter dado o sim já fez um discursinho de pré-candidato. Bem articulado, soltando frases de efeito que têm aquela sonoridade que os eleitores gostam de ouvir mas que logo viram puns, diluídos no éter (palavras ao vento), assim que o candidato se elege, deu seu recado.

Quem está pensando em votar num candidato que estará “de corpo, alma, mente (não podemos afirmar sem provas) e coração a serviço do partido e a serviço do Brasil”, está aqui o Pacheco vendendo esse peixe.

O leque está aberto. É só chegar na encruzilhada e escolher a via que se quer seguir. Da minha parte, ainda estou percorrendo uma trilha no mato, esperando encontrar uma fonte com águas limpas e transparentes. Será que tem?

Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 26/11/2021. 

 

 

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