O Filhote – Capítulos XVI a XVIII

CAPÍTULO XVI – RELEMBRANÇAS

— Ô di casa!

O rosto de “Mão-de-gancho” surgiu na porta do rancho. “Mestre” respondeu com um convite:

—  Vamo entrá, cumpadi.

“Mão” tirou o chapéu de palha mostrando os cabelos desalinhados que poucas vezes haviam sido tocados por um pente. Trazia às costas uma espingarda e, na cintura, uma cartucheira de couro, carregada. Ia à caça, sem dúvida.

O paletó de brim, cobrindo uma camisa xadrez, não conseguia esconder as manchas de suor que se espalhavam pelo peito largo. “Mestre” cuidava de acender o pavio do lampião quando “Mão” indagou:

— O sinhô vem co’a gente?

A chama tênue, ainda fraca, iluminou o que pôde alcançar no espaço da cozinha, mas fez acentuar ainda mais as gotas de suor que brotavam do rosto dos dois. Sem encarar o companheiro “Mestre” interrogou?

— Onde?

“Mão” não sabia ao certo aonde iria, mas sabia o que buscar:

— Vamo atrais da mãe i du outro fioti, si é que “Dodô” falô a verdade.

— Ele é homem de palavra, “Mão”, não faltaria farta com a verdade para nós. Ademais, encontrei uma pata da onça grande, decepada pela “Estreitinha”.

— Como é que nóis num viu?

— Foi depois que vocês saíram. Fiquei jogando paciência com o vento e daí eu a encontrei. Está lá, se bicho não carregou.

— Eu acredito, “Mestre”. Num careço di duvidá di sua palavra, home!

— Quem vai?

— Si acompanha a genti, somo seis:u sinhô, eu e mais “nhô Bá”, “Dito” Nunes, “Derfino” e Pedro Sobrinho.

Os melhores caçadores que Guatapará e todo o vale do Mogi Guaçu já conheceram.

— Com cachorro?

— Ni’um, não sinhô. “Nhô Bá” disistiu di levá. Diz que “Matero” é capivarero. Num dá pra otras coisa, quanto mais prá onça.

— Sem cachorro a gente não vai achar nada – respondeu “Mestre Cilão”, indo até uma prateleira, onde apanhou uma garrafa de cachaça “Providência”, destampou-a e despejou uma dose na caneca de ágata que levava na mão.

— “Mão” bebe um golinho?

O amigo fez um gesto recusando e tratou de responder ao comentário anterior:

— Quar’u quê, “Mestre”. As bicha tão nu triango i si a mãe tá maneta num chegaro mais longi. É só acercá. Cum toda essa seca capim tá ralo. Farolete bão a genti tem. Incontrô, sigura nu chumbu.

“Mestre” concordou:

— Está bem. É o tempo de eu comer a gororoba e arrumar a tralha. O compadre aceita?

— Sem disfazê da sua cortesia, aceito não. Óia – bateu na barriga –, tô até impanzinado du cuzido que a véia feiz prá janta. Sastifeito assim, nem qui fosse um cadinho só num dava.

— Si der e o coumpadre aceitar, se sirva. Tem arroz com pequi na panela e traíra frita na frigideira.

— Gradicido, “Mestre”. Sou doido por arroz com pequi e u sinhô sabe qui num sô di luxo. Aceitaria com o maió prazê.  Intão, vô isperá u restu du pessoar lá na boca da estrada. Vão si junta mais nóis no rumo da ponte véia.

E lá se foi “Mão-de-gancho”, espingarda pendurada no ombro, plóquete-plóquete, as alpargatas batendo chão.

O olhar de “Mestre Cilão” acompanhou a figura do amigo, companheiro fiel de muitas aventuras, compadres que se tornaram na cerimônia de pular fogueira de São João, e lhe veio à memória uma tragédia da qual ele e “Mão” foram testemunhas há poucos anos. Enquanto se preparava para a janta, pegou mais um gole de cachaça e se pôs a lembrar. As relembranças tocaram mais ume vez seu coração e amargurou sua alma…

 

CAPÍTULO XVII – O SEQUESTRADOR DE PERIQUITOS

Rio baixo, o Mogi Guaçu estava com as águas sem peixes grandes, como curimbatás, piaparas, dourados e piracanjubas, os mais requisitados pelos compradores. Naquela época de baixa, nadavam por ali, entre a boca do córrego, mais acima, e o poção na curva da ponte velha, mais abaixo, apenas lambaris, piabinhas, mandis e alguns bagres e cascudos, perseguidos por traíras, todos sem valor comercial e, por isso, desprezados.

Essa situação, que se repetia todo ano, deixava sem trabalho muitos dos pescadores que faziam da captura e venda para Jorge Sakamoto, um nissei que se transformara no único atravessador e atacadista de pescado em Guatapará, o principal meio de sobrevivência para muita gente. Era ele quem financiava os ribeirinhos locais e com o que eles lhe entregavam, abastecia uma das bancas do mercado municipal de Ribeirão Preto.

Na época de seca, entre maio e setembro, quando só então os cardumes davam os primeiros sinais da piracema, ele trazia da cidade algumas espécies do mar, vendidas a uma parte da população local, aquela parcela com algum poder aquisitivo. Seu principal vendedor era o cunhado Nelson Cardoso, filho de seu Antônio, o guarda-pontes. Acompanhado de um amigo de infância, que apesar da deficiência em ambas as pernas era bom de conversa, de escrita e de contas, apregoava com voz forte as ofertas ao conduzir uma charrete de fazenda em fazenda para oferecer quase tão-somente sardinhas.

Quem não podia pagar à vista tinha sua compra anotada numa caderneta por “Quinzinho”, afilhado de “Mestre Cilão”. Assim, todo final de mês, quando saia o pagamento dos ordenados, os dois passavam cobrando. Muitas vezes, sem dinheiro suficiente para saldar as dívidas, as mulheres lhes entregavam em paga galinhas, patos, perus e até leitoas e leitões. A presença dele vendendo peixes nas fazendas tornou-se de tal forma popular que ele passou a ser chamado de Nelson “Sardinha”.

Com as atividades de pesca suspensas restavam aquelas de fins de tarde, em que muitos iam para a beira do rio, boca de córregos e até mesmo nas lagoas das redondezas. Munidos de vara de taquara, linha, chumbada, anzol e isca, quase sempre massa de pão e minhocas, fisgavam pequenos exemplares que eram depois servidos como mistura no jantar. No resto do tempo, alguns deles, como “Mestre Cilão, se dedicavam a outra atividade, a de machadeiro, derrubando árvores que depois se transformavam em moirões de cerca pelos fazendeiros da região e em madeiramento usado nas construções. As galhadas restantes eram vendidas às olarias como lenha para alimentar os fornos de queima de tijolos.

Nesses meses, quase sempre bem antes de o sol nascer, “Mestre Cilão” subia remando sua “Corredeira”, de imponente figura piracicabana, singrando as águas do Mogi-Guaçu para além de uma volta conhecida por Nakayama. Denominação que nasceu por causa do rancho de pesca construído por um japonês na margem esquerda e cujo sobrenome acabou batizando o lugar há muitos anos atrás.

Nessa região, em terras da ainda Fazenda Guatapará, propriedade da Refinadora Paulista S. A., pertencente à família Morganti, havia extensos capões de madeira de lei, povoados por espécimes como cedro, peroba, jacarandá, jequitibá e copaíba. Havia, no entanto, algumas regras impostas pela dona das terras: só podiam ser derrubadas as árvores “maduras”, ou seja, as mais altas e por isso mesmo as mais antigas. Assim, elas abriam espaços para que as mais novas pudessem crescer e tomar seus lugares, renovando permanentemente a vegetação florestal.

Todavia, nem sempre essas regras eram obedecidas ao pé da letra. Havia quem, como Jurandir Matos, o “Jura”, companheiro mais assíduo de “Mestre Cilão” nessas empreitadas, que muitas vezes, por causa de um motivo ou outro, botava abaixo árvores de médio porte. Principalmente quando algumas delas tivessem em suas forquilhas um cupinzeiro desocupado. É que, escavados pelos pássaros, se transformavam em ninhos de papagaios, maritacas e periquitos. Fazendo da captura dos filhotes um negócio paralelo, isso lhe rendia algum dinheiro na venda a compradores vindos de fora ou que tinham rancho de pesca montado nas margens do Mogi, nas cercanias da vila de Guatapará.

 

CAPÍTULO XVIII – “DORVINHA’”, A FILHA DE “CHICO BISPO”

Numa tarde fria de agosto, quando já se preparava para descer o rio no rumo de casa, “Mestre Cilão” deu pela falta de “Jura”. Pouco depois ele apareceu com um filhote de periquito de poucos dias, de olhos fechados, ainda sem penas, coberto apenas pelas penugens brancas. Em meio a reprimendas, às quais não deu qualquer atenção, contou que descobrira um ninho num ipê, derrubou a árvore com algumas machadadas e ao se espatifar o cupinzeiro mostrou três filhotes. Entretanto, lamentou, só aquele sobrevivera. Enquanto guardava o pequeno pássaro no embornal, dentro do caldeirão de comida, os pais gritavam seu lamento onomatopaico num desespero continuado de quem acabara de perder a prole. “Jura” sequer preocupou-se com aquela cena, apenas embarcou na canoa. Ignorando a bronca do companheiro, que seguia reclamando daquela maldade, ambos desceram a corredeira a caminho do porto.

O sol já ia se escondendo no horizonte do lado do poente e por um bom pedaço o casal de periquitos ainda seguiu a canoa gritando sua angústia por ver o filhote sequestrado ser levado embora. Até que, com a natureza alertando que havia mais dois deles rio acima, voltaram para pousar sobre as galhadas do ipê caído. Debaixo delas havia um cupinzeiro esborrachado onde jaziam já sem vida no meio da mata os dois pequenos e indefesos filhotes. Pai e mãe ali ficaram até que, já com a noite descendo e uma nesga de lua cheia surgindo no lado do nascente, ambos se foram e deixaram ali, sepultadas, duas de suas crias. Embora o céu estivesse sem nuvens, um raio cortou o céu num prenúncio de que aquelas cenas eram apenas os primórdios de uma vingança que acabaria por vir cedo ou tarde.

Jurandir era casado havia pouco tempo. Dorvalina tinha o mesmo nome da mãe, alcunhada dona “Dorva”, e por isso todos a chamavam de “Dorvinha”. Filha de Francisco Bispo dos Santos, o “Chico Bispo”, o marido ganhara as graças do sogro e concordância para namorar a moça quando passou a integrar sua comitiva que todo começo de janeiro percorria as fazendas da região com a cantoria e levando junto a Bandeira do Divino. Violeiro dos bons, “Jura” mostrou seu valor e como a jovem também caíra de amores por ele, o casório na igreja de São Martinho, na sede da fazenda, foi apenas uma questão de tempo. No começo ele foi morar com os sogros, pois apenas começara a construir sua própria casa em um terreno comprado num pequeno loteamento nas proximidades do rio e a pouco menos de mil metros de distância da vila.

Foram meses de felicidade e embora “Dorvinha” não engravidasse e se queixasse disso para a mãe, dona “Dorva” procurava acalmá-la lembrando:

— Comigo aconteceu a mesma coisa e isso foi até bom, pois os primeiros anos são os melhores do casamento. Aproveite bem esse tempo a dois, pois quando chegar o primeiro filho tudo muda, a gente deixa de ser esposa para virar mãe, e a maternidade dá muito trabalho. A vida deixa de ser vivida apenas pelo casal. Tudo muda.

“O Filhote”, romance de Plínio Vicente da Silva, está sendo publicado em capitulos.  

Para ler os três capítulos anteriores. 

Para ler a partir do primeiro capítulo. 

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