Se acabó!

Desde 1959 Cuba exerce um fascínio para grande parte da esquerda latino-americana. A palavra de ordem “Pátria ou Morte, Venceremos!” conquistou corações e mentes pelos quatro cantos do continente. Nestes mesmos tempos havia escassez de alimentos, os cubanos não tinham acesso a bens de consumo modernos e, sobretudo, não havia liberdade na Ilha.

A ditadura do partido único capitaneada por Fidel e Raul Castro, perseguia dissidentes, milhares e milhares de cubanos fugiam de barco para Miami em busca de um futuro menos sombrio, mas “nuestra esquerda” continuava (e continua) inabalada.

O fetiche pela Ilha se explicava por sua resistência ao injustificável bloqueio dos Estados Unidos, que até hoje penaliza mais os cubanos e menos seus ditadores. A supressão das liberdades era o preço a pagar pelos supostos avanços sociais, especialmente na saúde e na educação. Cuba era o exemplo do socialismo. Para seus apologéticos, diferenciava-se do burocratismo dos países socialistas do bloco soviético, mantendo acesa a chama da revolução.

Havia uma profunda incoerência no comportamento dessa esquerda latino-americana. Implacável na denúncia de violações de direitos e de crimes praticados por regimes de direita, omitia-se descaradamente quando essas mesmas violações eram praticadas pelo regime cubano e outros governos de esquerda. Cuba ia mal, claro, com seu rotundo fracasso econômico, mas fingia-se não perceber.

Nem mesmo quando os cubanos manifestaram publicamente sua insatisfação como aconteceu em 1991, com o “malenconazo”. À época, milhares de pessoas ocuparam o famoso calçadão de Havana e 35 mil cubanos se exilaram nos Estados Unidos quando o regime cedeu e permitiu que fossem para Miami.

Trinta anos depois as cidades cubanas voltaram a ser palco de novas manifestações de uma população insatisfeita com os constantes apagões de energia, as filas gigantescas para obter alimentos e o agravamento da situação sanitária em função da pandemia. A crise afetou profundamente o turismo e a remessa de dólares que exilados mandavam para seus parentes na Ilha.

E trinta anos depois “nuestra izquierda” brasileira reage com o mesmo diapasão do passado. Intelectuais hagiográficos reproduzem o discurso de Miguel Dias-Canel, sucessor dos ditadores Fidel e Raul Castro, enquanto o Partido dos Trabalhadores divulga nota oficial de “solidariedade e apoio incondicionais ao povo e ao governo da irmã República de Cuba”. Tudo, dizem, é culpa do imperialismo yankee e do seu bloqueio.

Assim, os cubanos teriam ido às ruas instigados no último domingo pelos gusanos de Miami e pelo governo de Joe Biden.

A lógica de eleger inimigos externos para esconder os fracassos da revolução cubana não é nenhuma novidade. A coesão do regime sempre se sustentou no fantasma do inimigo externo, combinado com a brutal repressão. Não é diferente agora. Para o presidente e ditador Dias-Canel “as ruas são dos revolucionários, não dos vermes e contrarrevolucionários”.

Ou seja, manifestações a favor do regime, tudo bem. Contra não pode, é coisa de “vermes”. Já imaginaram se essa moda pega no Brasil e só forem permitidas manifestações a favor de Jair Bolsonaro?

Para o regime, a solução da grave crise social é “mais socialismo e mais revolução”. É justamente disso que os cubanos estão cansados. Eles querem mais comida, mais remédio, mais liberdade. Não querem mais “Patria ou Muerte”. Querem “Patria y vida”, canção que virou o hino dos manifestantes, assim como Guantanamera foi o hino dos revolucionários da geração de Fidel e Che Guevara.

Os acontecimentos de domingo não foram produto de conspirações externas, mas sim de um fenômeno ocorrido em vários países, conhecido como enxameamento, mobilizações horizontais que explodem sem um detonador específico a partir da convocação em redes sociais.

O perigoso subversivo responsável pela nova onda de manifestação infiltrou-se em Cuba em 2018 e atende pelo nome de 3G. A partir deste momento, a população passou a ter acesso à internet e o WhatsApp se transformou em seu principal meio de comunicação. Tudo começou com uma manifestação no pequeno município de San Antônio de Los Banos, a 30 quilômetros de Havana, absolutamente espontânea.

A notícia rapidamente se espraiou nas redes sociais, com as pessoas sendo convocadas para irem às ruas. Organizações horizontais, como o Movimento San Isidro – uma rede de ativistas, artistas e jornalistas, criado em 2018, para se contrapor a um decreto que ampliava o controle estatal das atividades culturais -, deram maior visibilidade aos atos de domingo. O celular, essa arma que os cubanos passaram a ter em suas mãos, é o novo inimigo do regime. Para combatê-lo, Miguel Dias-Canel cortou o sinal de Internet em 50 localidades da Ilha. Mas a medida é como tentar deter a evasão de um dique tapando seus buracos com os dedos.

Em uma Cuba onde Varadero é o paraíso dos turistas e as mães choram pelos filhos que se foram para o exílio, a revolução perdeu seu encanto. Como diz o hino dos manifestantes viralizado nas redes sociais “no más mentiras/ Mi pueblo pide libertad, no más doutrinas/ Ya no gritemos patria o muerte sino patria y vida/ Y empezar a construir lo que soñamos/ Lo que destruyeron con sus manos”.

E o refrão da canção diz tudo: “Se acabó!”

Eis o link para a canção “Patria y vida”, composta por Yotuel, @Gente De Zona, @Descemer Bueno, Maykel Osorbo e El Funky:  www.youtube.com/watch?v=pP9Bto5lOEQ

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 14/7/2021. 

A foto logo acima é de Yamil Lage/AFP.  A do alto do post é de Anna Moneymaker/AFP.

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