O ensino superior deve ser para todos

A Educação brasileira encontra-se polarizada entre duas visões no que diz respeito ao papel das universidades, como ilustram dois fatos do início desta semana.

De um lado, um horizonte em que se percebe uma educação emancipatória e inclusiva, capaz de oferecer aos nossos jovens, independentemente de sua classe social, a possibilidade da realização de sonhos e de um projeto de vida promissor. A democratização do acesso à universidade tem sido consequência dessa visão. Graças a ela, setores da sociedade historicamente marginalizados tiveram acesso ao ensino superior e puderam ascender socialmente, ingressando em um mercado de trabalho antes restrito às camadas mais privilegiadas da sociedade.

Tal conquista só foi possível porque sucessivos governos adotaram políticas afirmativas, com a ampliação da rede de universidades públicas e a criação de um sistema de financiamento do ensino superior privado. As cotas sociais contribuíram para mudar a face das universidades brasileiras. Com o ingresso de um grande contingente de alunos oriundos do ensino público, de mulheres, de pretos e pardos, elas ficaram mais com a cara do Brasil, como comprova a manchete do jornal Folha de S. Paulo: “Mulheres negras se tornam maior grupo nas universidades públicas”. O texto vinha ilustrado por uma foto com cinco jovens mulheres pretas e pardas, altivas e determinadas, sentadas em uma escadaria de mármore, típica de uma arquitetura clássica e nobre.

A matéria explica que, a partir de dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), os pesquisadores Ana Luiza Matos de Oliveira, professora da Flacso, e Arthur Welle, doutorando da Unicamp, apontam que as mulheres negras representavam 27% dos estudantes do ensino superior público em 2019 (edição mais recente da pesquisa). Esse resultado é um avanço significativo se comparado ao início dos anos 2000, quando esse grupo somava apenas 19% do total de universitários de instituições públicas, bem atrás das mulheres brancas (38%) e dos homens brancos (30%), ficando à frente somente dos homens negros (13%), que ainda hoje, são a minoria (23%).

Mas ainda persiste uma visão anacrônica, dos tempos do Brasil agrário e oligárquico, quando a universidade era acessível apenas para as camadas de maior poder aquisitivo. Aquele Brasil da República dos Bacharéis ainda tem seus porta-vozes. Persiste a visão elitista, como fica claro na declaração do ministro da Educação Milton Ribeiro, para quem a “universidade deveria, na verdade, ser para poucos”. A frase preconceituosa reverberou nas redes sociais, provocando revolta entre educadores, por perpetuar uma herança perversa que, felizmente, o Brasil começa a se livrar.

A fala do ministro é motivo de espanto e combate. Em um país democrático e regido sob o espírito republicano, a autoridade maior da Educação deveria ser responsável por implementar políticas públicas garantidoras do direito à uma educação pública de qualidade para todos. E não para defender um sistema em que tenhamos uma educação com gargalos, que visa impedir o acesso e o desenvolvimento dos jovens além de não contribuir para o desenvolvimento efetivo do país. A tendência dessa visão de mundo é estruturar a educação de maneira diferente, uma para os ricos e outra para os pobres, aumentando desigualdades e perenizando mazelas históricas.

Mas não se pode esperar algo diferente de um ministro deletério, que se esmera apenas em levar adiante uma agenda ideológica que desserve ao país.

O Brasil não quer universidade para poucos. Quer universidade para todos.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 13/8/2021. 

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