Na ONU como no cercadinho dos bolsomínions

O ex-presidente Lula adorava usar frases começadas com “nunca antes nefe país”. O atual presidente, aquele que Lula quer ver disputando com ele a eleição do ano que vem, sem qualquer alternativa viável entre os dois, deu um vexame internacional como nunca antes da História deste país. Provavelmente do mundo.

O vexame já era esperado – mas creio que nem os mais pessimistas acreditavam que poderia ser tão abrangente, tão acachapante. Tão amplo, geral e irrestrito, para lembrar palavras de outro ex-presidente, o general Ernesto Geisel, o que deu a Jair Bolsonaro a definição perfeita de “um mau soldado”.

O pior, é claro, foi o discurso na abertura da Assembléia Geral da ONU, em que o presidente da República se dirigiu aos líderes de todos os países do mundo e à opinião pública mundial como se estivesse diante do cercadinho do Palácio do Planalto. O discurso foi um desfilar de mentiras, falsidades, inverdades da primeira à última linha.

Mas todo o resto, todo o entorno, também foi o horror dos horrores – da pizza na rua ao gesto obsceno do ministro da Saúde, da patética conversa com o primeiro-ministro Boris Johnson sobre vacina até o discurso de más-vindas do prefeito democrata de Nova York, Bill de Blasio (na foto acima), culminando com a informação de que o obsceno doutor Marcelo Queiroga, visto várias vezes obscenamente sem máscara, estava infectado pela Covid-19.

A vergonha a que Jair Bolsonaro submeteu o Brasil foi o tema de editoriais dos três grandes jornais brasileiros. Belos editoriais, todos os três. Faço questão de transcrevê-los aqui. São documentos históricos. (Sérgio Vaz)

***

Vergonha

Editorial, O Estado de S.Paulo, 22/9/2021

Há poucos dias, o presidente Jair Bolsonaro, após reiteradas ameaças de golpe e seguidas demonstrações de desapreço pelo decoro do cargo, comprometeu-se por escrito a dialogar. Como previsto, no entanto, suas promessas de moderação e racionalidade na tal Declaração à Nação não duraram nem um mês. Em discurso na ONU, Bolsonaro, como se estivesse falando a seus fanáticos apoiadores, esbanjou ignorância, má-fé e oportunismo, expondo o Brasil a um vexame mundial. Ou seja, foi o mesmo de sempre.

Seu pronunciamento foi uma profusão de meias-verdades e mentiras completas, insistindo no negacionismo e na pregação para sua base eleitoral. Bolsonaro ignora a diferença entre discursar na Assembleia-Geral da ONU e falar no cercadinho do Palácio da Alvorada.

“O Brasil tem um presidente que acredita em Deus, respeita a Constituição e seus militares, valoriza a família e deve lealdade a seu povo”, disse Bolsonaro. Raras vezes se viu tanta falsidade em uma só frase. Bolsonaro desrespeita a Constituição praticamente desde que tomou posse. Quanto aos militares, não são poucos os que nas Forças Armadas consideram que a associação com a irresponsabilidade bolsonarista vem desgastando a imagem do Exército. Já em relação à família, a única que Bolsonaro valoriza é a dele mesmo.

“Estávamos à beira do socialismo”, disse Bolsonaro, sem qualquer respaldo nos fatos – que, para o bolsonarismo, não têm valor. Importa apenas o discurso, voltado à manipulação e à desinformação. “Apresento agora um novo Brasil com sua credibilidade já recuperada”, declarou o presidente que transformou o País em pária internacional.

Em suas palavras, “promovemos o ressurgimento do modal ferroviário”. A realidade: Bolsonaro editou uma imprópria medida provisória sobre o tema, atropelando o Legislativo e a segurança jurídica. “Grande avanço vem acontecendo na área do saneamento básico”, disse Bolsonaro. Os fatos: o marco do saneamento foi aprovado, apesar do desinteresse do Executivo.

“Nenhum país do mundo possui uma legislação ambiental tão completa. Nosso Código Florestal deve servir de exemplo para outros países”, disse Bolsonaro na ONU. Sim, o Código Florestal de 2012 é uma legislação equilibrada, fruto de anos de trabalho e de negociação política – ou seja, a antítese do bolsonarismo. Além de não ter promovido nenhuma lei minimamente semelhante ao Código Florestal, Bolsonaro diminuiu os mecanismos de controle ambiental e ainda teve um ministro do Meio Ambiente incluído em inquérito sobre crimes ambientais.

“Sempre defendi combater o vírus e o desemprego de forma simultânea e com a mesma responsabilidade”, disse aquele que fugiu dos dois problemas com a mesma irresponsabilidade. Nas palavras de Bolsonaro, a covid-19 sempre foi uma “gripezinha”. Por isso – e por tantas outras omissões –, Bolsonaro não pode se vangloriar dos atuais números da vacinação no Brasil. Os resultados de imunização da população foram obtidos contra a vontade do Palácio do Planalto, graças ao esforço do SUS e de vários governadores. Basta ver que Jair Bolsonaro é o único presidente do G-20 que se recusou a tomar vacina contra a covid-19.

Para culminar a insensatez, Bolsonaro disse apoiar “a autonomia do médico na busca do tratamento precoce”. Em outras palavras, o presidente continua defendendo drogas amplamente descartadas como tratamento contra a covid, enquanto se nega a tomar a vacina. A atitude alinha-se à lógica bolsonarista, em que a verdade é tratada como inimiga. Basta ver o que disse Bolsonaro sobre a atual situação econômica do País: “Na economia, temos um dos melhores desempenhos entre os emergentes”.

Ao desprezar os fatos e a civilidade, Jair Bolsonaro humilha e desonra o País internacionalmente. Os gestos obscenos do ministro da Saúde contra manifestantes em Nova York não foram um deslize num momento de destempero. Trata-se da expressão mais pura do bolsonarismo. Nada é por acaso, como mostrou o discurso do presidente ontem. Nem mil Declarações à Nação mudarão o fato de que Bolsonaro é e sempre será Bolsonaro.

***

A realidade paralela de Bolsonaro

Editorial, O Globo, 21/9/2021

Era esperado que o presidente Jair Bolsonaro tentasse polir a imagem de seu governo no discurso de abertura da 76ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Bem que ele tentou. Pintou o retrato de uma economia vigorosa que vence o desemprego e atrai capital estrangeiro para investir em infraestrutura e tecnologia. De um país que deixou a corrupção para trás e está preocupado em preservar a Amazônia e o meio ambiente, em reduzir emissões de gases e garantir os direitos indígenas. De uma sociedade que está prestes a vencer a pandemia.

Só que seu discurso não tem o menor amparo nos fatos. O que disse, quando não era simplesmente mentira, repetia as fantasias ideológicas da realidade paralela bolsonarista. Antes mesmo de completar três minutos de discurso, Bolsonaro já havia feito pelo menos quatro declarações falsas ou imprecisas. Teve o desplante de afirmar que desde o início do governo não há “caso concreto” de corrupção (omitiu as rachadinhas, a CPI da Covid e o desmonte da Operação Lava Jato sob seu beneplácito). Disse que o presidente respeita a Constituição (esqueceu os ataques ao Supremo e ao Congresso), que antes dele o o país estava “à beira do socialismo” (um delírio) e que, com ele no poder, o Brasil recuperou credibilidade internacional (outro despropósito).

No universo paralelo de Bolsonaro, o Brasil hoje se apresenta como “um dos melhores destinos” para o capital. No mundo duro dos fatos, os investimentos diretos caíram pela metade em 2020 e, embora tenha havido recuperação este ano, os investidores resistem a apostar aqui em virtude do cenário político conturbado por ele próprio.

Numa manobra retórica clássica, Bolsonaro usou as estatísticas para esconder a verdade. Citou uma redução pontual de desmatamento, quando dados públicos reiteram os recordes de queimadas e devastação amazônica. Mencionou a geração de empregos formais, quando os desempregados passam de 14 milhões, e os que não trabalham ou desistiram de procurar emprego são quase 29% da mão de obra. Por fim, citou o tamanho das reservas indígenas, quando o respeito aos direitos dos povos originários no Brasil é preocupação do Alto-Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos. Também mentiu de forma deslavada ao dizer que seu governo reforçou recursos destinados a órgãos ambientais para zerar o desmatamento.

Na descrição de Bolsonaro, as manifestações golpistas do 7 de Setembro foram as maiores da história (primeiro erro) e em defesa da democracia (segundo erro). Noutra falácia, atribuiu às quarentenas decretadas por prefeitos e governadores a responsabilidade pela inflação. A dificuldade de conter os preços está hoje essencialmente ligada à incapacidade de seu governo em apresentar uma perspectiva mínima de equilíbrio fiscal.

No ponto mais delirante, voltou a defender o famigerado “tratamento precoce” contra a Covid-19, desacreditado por evidências científicas avassaladoras. Declarou seu apoio à vacinação, ainda que não tenha tomado vacina e que seu governo as tenha desdenhado por meses enquanto se envolvia em negociatas obscuras, investia em cloroquina e outras curandeirices. O cúmulo do cinismo foi ter afirmado que “a história e a ciência saberão responsabilizar a todos”. Pois o relatório da CPI da Covid está prestes a considerá-lo o maior responsável pela tragédia que já matou quase 600 mil brasileiros.

***

Pária na calçada

Editorial, Folha de S. Paulo, 22/9/2021

Jair Bolsonaro deu novamente as costas para o mundo ao se apresentar no púlpito da Organização das Nações Unidas para discursar na abertura da sua assembleia anual, nesta terça-feira (21).

Como em ocasiões anteriores, sua fala foi dirigida especialmente para a minoria que ainda apoia seu desacreditado governo, de cuja fidelidade o mandatário depende para sustentar sua campanha à reeleição no ano que vem.

Algo mais moderado, Bolsonaro mostrou preocupação em abordar temas que, em seu governo, geram desgaste para a imagem do país. Em que pese a tentativa, tudo o que tinha a oferecer eram fantasias que só seduzem os mais radicais de seus adeptos.

Ao discorrer sobre a política ambiental, distorceu números, minimizou receios e enalteceu a legislação brasileira —a mesma que ele busca enfraquecer sem descanso desde que tomou posse.

Numa tentativa covarde e canhestra de se eximir de responsabilidade pelo fracasso no enfrentamento da pandemia e na recuperação da atividade econômica, culpou governadores e prefeitos pela fome, pelo desemprego e até pelo descontrole da inflação.

Destacou a vacinação no país, como se o mundo ignorasse as medidas que tomou para sabotar os esforços dos governos locais e sua negligência na crise sanitária. Teve ainda a desfaçatez de oferecer lições a outros governantes.

Voltou a defender o uso de remédios que se provaram ineficazes contra a Covid e criticou os países que passaram a exigir comprovantes de vacinação em suas fronteiras.

Com a economia andando de lado, disse que não há no mundo porto mais seguro para os investidores do que o Brasil e apontou como prova da confiança em seu governo o apoio das multidões sectárias que foram às ruas atender a seus apelos golpistas no 7 de Setembro.

Para frustração dos diplomatas ingênuos que sonhavam com a aparição de um estadista magnânimo no palco da ONU, sugestões de moderação do discurso foram ignoradas, e Bolsonaro pôde se apresentar mais uma vez como o radical que seus seguidores idolatram.

Se o contraste entre as palavras e a realidade é gritante, as imagens produzidas pelo mandatário em sua passagem por Nova York deixaram claras suas intenções.

Com entrada restrita nos restaurantes da cidade por não ter se vacinado, o chefe do Executivo fez questão de divulgar imagens em que comia pizza com assessores na calçada. Em outra ocasião, seu ministro da Saúde permitiu-se fazer, de dentro de um carro, um gesto obsceno para manifestantes.

Ao ostentar o negacionismo, Bolsonaro acena para o eleitor que ainda vê nele o rebelde transgressor que prometia enfrentar as elites e consertar o país. Para o resto do mundo, fica apenas mais um retrato do isolamento do presidente que não governa e não se importa em ser visto como pária.

22/9/2021

2 Comentários para “Na ONU como no cercadinho dos bolsomínions”

  1. José Luís, caríssimo amigo,

    Isso aí foi uma brincadeirinha, uma ironia boba que cometi. É que o Lula – que aí na Europa vocês consideram um grande político, e de perto não passa de um populista da pior espécie, tão adorador de ditaduras quanto seu irmão siamês de sinal oposto Jair Bolsonaro – fala como quem tem a língua presa. E exagera nisso, propositadamente, nem sei bem por quê. Então, quando ele fala “nunca antes neste país” (e ele falou essa frase uns 5 trilhões de vezes), o som é de “nunca antes nefe pais”.

    A ironia boba que usei fica sem dúvida incompreensível para quem não está acostumado a ouvir a voz (desagradável, até mesmo nauseante) do proprietário do Partido dos Trabalhadores.

    Um grande abraço!
    Sérgio

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.