Mala sem alça

Ele não está ouvindo direito. Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco não tem mais partido pra ele. Quem vai querer carregar uma mala sem alça? Se se contentasse com o Senado, poderia sair por qualquer partido da direita. Mas tem um DNA de broncossauro no núcleo de suas células, quer arrombar a porta do ônibus lotado com um pontapé, botar o motorista pra fora e sentar na cadeirinha. Ainda não entendeu que menino mimado e teimoso dorme sem sobremesa.

Uma hora dessas vai escalar o Lira pra fazer colar na Câmara a ideia do senador vitalício sem voto. Já andaram falando nisso. Uma coisa que a ditadura militar de 64-85 só se atreveu a fazer pela metade – o senador biônico por um mandato e para um terço da Casa – porque inteiro era pornográfico demais. Mas ele acha que pode. Vive numa bolha. O tiro de misericórdia nessa bolha será a rejeição da PEC do calote no Senado e do tal Auxílio Brasil. Há outras formas, não criminosas, de ajudar os miseráveis que ele criou com sua política antivacina, antimáscara e antigovernadores e prefeitos que limitaram o horário comercial nas cidades e tornaram obrigatório o uso de máscaras, como se fez no mundo inteiro, para evitar contágio e reduzir mortes.

Agora, na Europa, Ásia e EUA/Canadá, o contágio se dá entre os não vacinados, nos quais se enquadram os antivacina, os antimáscara e os distraídos. E vai acontecer aqui também, logo mais, depois das festas, férias e carnaval. Mesmo na Áustria, o governo de ultradireita faz lockdown bravíssimo para enquadrar os antivacina e antimáscara. Se puserem o pé para fora de casa, serão presos. Todo mundo tem que andar de carteirinha de vacinação no bolso. Se não tiver, tem multa e prisão. Típico dos regimes autoritários. Não precisariam disso se instituíssem, desde o início, o passaporte da vacina. Mas a ultradireita reclamava que tinha o direito de contaminar e matar quem quisesse. Uma mistureba de direito torto com abuso descarado, bem ao gosto dos ignorantes arrogantes. E continua reclamando, só que agora o abuso dá cadeia.

E por aqui, o que se diz e o que se faz? Nada. Não há sequer campanha publicitária federal para convencer os não vacinados a aderir às vacinas. Acham que isso tolhe o direito de uns de fazer o que bem entendem, não importa o quê. Nem se sabe se haveria vacinas suficientes. Mas viagens de férias para Dubai com estadias em hotéis bilionários estão liberadas. Assim como o direito de falar mentiras e besteiras, como essa que a Amazônia não pega fogo porque é úmida e que o Brasil está na liderança do crescimento mundial e no ano que vem nossa economia vai bombar.

Nenhuma floresta úmida pega fogo se não puserem fogo nela. A Amazônia inteira está com infestações de incêndios monumentais por toda parte, inclusive ao longo do Rio Amazonas. O próprio governo mostra isso nas imagens de satélite publicadas nos sites oficiais. São fotos de vários satélites, inclusive da NASA, e rodam livremente o mundo inteiro. A quem ele pretende enganar? Certamente pensa que dentro dos turbantes de Dubai não existem cérebros, só cobras e lagartos, como na dele.

Outro que parece um siderado posa ao seu lado de ministro da Economia e diz de olhos esbugalhados que estamos crescendo em V e no ano que vem ninguém segura o Brasil. Só se for um V para baixo! Estamos com uma inflação nunca vista em 25 anos, fome e desemprego recordes, fuga de capitais e investimentos em marcha a ré acelerada. O ano que vem vai ser pior do que este, que já é pior do que o anterior, que por sua vez foi pior que o outro. O governo Dilma vai parecer um paraíso.

Por essas e outras entra para o dicionário político do país a nova sigla VTNCVESFs, à qual eu acrescentaria um imprescindível &ETC. Cunhada pelo mordomo mensaleiro condenado de Mogi para o mordomo ainda não condenado do Planalto Central et famiglia. Eles se entendem.

Nelson Merlin é jornalista aposentado, desocupado e descrente. 

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