Fernando Brant e um tempo melhor

Posso estar errado, é claro, mas tenho certeza, poderia até apostar, que pouca gente, mesmo entre os fãs de carteirinha de Milton Nascimento, se lembra de uma canção dele que tem estes belos versos:

queria ver um filme de amor

e

me lembro de um tempo melhor“.

Tocou hoje no que eu imodestamente chamo de a Rádio Sérgio Vaz – a montanha de mais de 15 mil músicas que botei no iTunes e toca em tudo quanto é lugar da casa. Fazia tempo, mas muito tempo que não ouvia essa bela canção – e aí, a partir daí, viajei. A música trouxe lembranças, mas trouxe também dúvidas, e então fui atrás de informações sobre ela.

Antes de ir mexer primeiro nos meus discos, e só depois no Tio Google, fiquei pensando em como esses versos são belos – simples e belos, como todos os que saíram da cabeça e do coração imenso de Fernando Brant:

Queria ver um filme de amor.

Me lembro de um tempo melhor.

E fiquei pensando em como é possível que eles possam ser tão absolutamente atuais!

Foi em 1970 que Fernando escreveu e Milton cantou que queriam ver uma coisa mais bela do que estava diante deles, e se lembravam de que tinha havido no passado um tempo melhor!

1970, gente, pelo amor de Deus! Os tempos de Garrastazu Médici, os tempos mais negros da ditadura, da tortura e assassinato dos opositores do regime, da censura a todas as áreas das artes!

Que horror, que tragédia, que noite sombria pensar que o verso de Fernando feito para 1970 vale perfeitamente para hoje: a gente se lembra de tempos melhores!

Ah, mas sem dúvida a gente viveu tempos melhores…

E de repente me ocorreu aqui, agora, neste momento, que o Fernando, alerta sempre, atento e forte sempre, foi capaz de criar belos versos de desassossego mesmo quando, nos anos Sarney, começou a parecer que o sonho que havíamos sonhado não era bem o que estávamos vendo:

Sim é verdade, a vida é mais livre

O medo já não convive nas casas, nos bares, nas ruas

Com o povo daqui

E até dá pra pensar no futuro

E ver nossos filhos crescendo e sorrindo

Mas eu não posso esconder a amargura

 

Ao ver que o sonho anda pra trás

E a mentira voltou

Ou será mesmo que não nos deixara?

A esperança que a gente carrega

É um sorvete em pleno sol

O que fizeram da nossa fé?

 

Eu briguei, apanhei, eu sofri, aprendi,

Eu cantei, eu berrei, eu chorei, eu sorri,

Eu saí pra sonhar meu país

E foi tão bom, não estava sozinho

A praça era alegria sadia

O povo era senhor

E só uma voz, numa só canção

 

E foi por ter posto a mão no futuro

Que no presente preciso ser duro

E eu não posso me acomodar

Quero um país melhor

***

“Carta à República”, do disco Yauaretê, é de 1987 – e, diabo, lembrar dela hoje dá aquela coisa dos mixed feelings, as sensações contraditórias. Que poema lindo, que melodia linda. Mas, no entanto… cacete, nestes anos Bolsonaro, que saudade imensa dos anos Sarney!

***

Os textos se escrevem por eles mesmos, e este texto aqui foi ficando triste, deprê, quando minha intenção era fazer uma coisa alegre sobre música, nosso melhor produto. Queria fazer um suelto, e me sentei todo alegre porque iria escrever um suelto sobre música, iria descansar dessa coisa maluca que é ficar escrevendo sobre os filmes dos outros, como anos atrás um velho colega definiu meu prazer de escrever sobre filmes…

O que eu queria mesmo era lembrar o que pouca gente, com toda a certeza, lembra: para a melodia belíssima de Bituca, Fernando Brant fez duas letras diferentes. A primeira foi em 1970, em uma das canções que os dois compuseram para o documentário Tostão – A Fera de Ouro, de Paulo Laender e Ricardo Gomes Leite, à qual deram o título de “O Homem da Sucursal”.

A canção não saiu em nenhum dos LPs de Milton.

O ano de 1970 foi o do disco Milton, aquele que abria com “Para Lennon e McCartney”. O disco em que Milton, aquele sujeito até então sério, absolutamente MPB, virou pop, ficou avançadíssimo, com a eletricidade do Som Imaginário – Wagner Tiso, piano e órgão; Zé Rodrix, órgão, flauta e mais uma porrada de coisas; Tavito, guitarra base, violão e sino; Luiz Alves, baixo elétrico; Robertinho Silva, bateria.

Para deixar muito óbvio que o seriíssimo Milton Nascimento de “Travessia” tinha deixado pra trás os rigores da MPB de raiz e caído na guitarra, a capa do disco era virada de lado, para ser vista de comprido, em vertical. Como Bob Dylan havia feito em Blonde on Blonde de 1966 (e Nara Leão faria em Dez Anos Depois, o primeiro disco de bossa-nova da musa da bossa-nova, gravado em Paris), Milton aparecia em um desenho do artista plástico Kélio Rodrigues que evidentemente fazia lembrar o cartaz psicodélico que Milton Glaser havia feito para o próprio Dylan.

Não poderia haver coisa mais pop na MPB em 1970 do que o álbum Milton, com as guitarras que abriam o disco junto com a voz dele cantando para Lennon e McCartney que eles não sabiam de nada sobre o lixo ocidental, e com aquela capa dylanesca, beirando o psicodélico.

Pois é, o disco era sensacional – mas não tinha “O Homem na Sucursal”, lançado no documentário sobre o craque Tostão naquele mesmo ano.

“O Homem na Sucursal” só apareceria num disco de Milton Nascimento quando, lá pelos anos 1990 – droga, não sei exatamente o ano – , a EMI brasileira relançou o disco de 1970 remasterizaado… nos estúdios de Abbey Road!

A melodia de Milton, claro, era exatissimamente a mesma quando Elis Regina gravou a música para seu disco de 1977 – o extraordinário álbum em que ela mostrou para o Brasil a pérola “Romaria”, de Renato Teixeira, e brilhava também “Cartomante”, de Ivan Lins e Vitor Martins.

Para aquela ocasião, no entanto, Fernando fez uma nova letra.

É a letra que todo o Brasil que conhece o Brasil sabe muito bem – aquela que, em plena ditadura militar, em plenos anos Geisel, se diverte imaginando um mundo em que não exatamente a tigresa pudesse mais do que o leão, mas um mundo em que, como aquele de Pete Seeger, o mais velho dos Rockfellers viesse nos pedir uma esmolinha. “Veja bem, meu patrão, como pode ser bom / Você trabalharia no sol e eu tomando banho de mar.

Nos titulos da canção, abaixo, há link para o YouTube.

 

O Homem da Sucursal 

Caxangá 
Milton Nascimento-Fernando Brant Milton Nascimento-Fernando Brant
1970 – Do filme Tostão – A Fera de Ouro 1977 – Do álbum Elis, de Elis Regina
Saio do trabalho, ei

Volto para casa, ei

Queria ver um filme de amor

Queria ver um filme de amor

E se eu morrer, véu

E se eu viver, réu

Me lembro de um tempo melhor

Me lembro de um tempo melhor

Sempre na surpresa de domingo

Se unem todos antes da tarde chegar

E aí eu vejo um sorriso claro

Alegria de um olhar sem lei

Vozes e cidades se escutando

E luzes e sombras não se quer pensar

No final

Paraparauerê, paraparauê, ah

Papara paraêre para

Papara parauêra para

Saio do trabalho, ei

Volto para casa, ei

Queria ver um filme de amor

Queria ver um filme de amor

Me lembro de um tempo melhor

Me lembro de um tempo melhor

Sempre no coração, haja o que houver

A fome de um dia poder morder a carne dessa mulher

Veja bem, meu patrão, como pode ser bom

Você trabalharia no sol e eu tomando banho de mar

Luto para viver

Vivo para morrer

Enquanto minha morte não vem

Eu vivo de brigar contra o rei

Em volta do fogo todo mundo abrindo o jogo

Conta o que tem pra contar

Casos e desejos, coisas dessa vida e da outra

Mas nada de assustar

Quem não é sincero, sai da brincadeira correndo

Pois pode se queimar

Queimar

Saio do trabalho, ê

Volto para casa, ê

Não lembro de canseira maior

Em tudo é o mesmo suor

***

Fernando Brant – que, por extrema gentileza, autorizou que este site aqui republicasse as crônicas que escrevia para o Estado de Minas – nos deixou cedo demais. Não chegara sequer aos 70 dos quais já passei.

Para isso, só há uma forma de consolo. É pensar que ele, que via a era Sarney como um sorvete que derrete em pleno Sol, não aguentaria este horror que vivemos hoje com Jair Bolsonaro.

21 e 22/11/2021

2 Comentários para “Fernando Brant e um tempo melhor”

  1. Adorei. O caminho percorrido pelos mineiros foi o mesmo que também percorri. O artigo me comoveu. Lembrei da viagem com Tavito, num ônibus comercial, depois de um festival em que ele tocou e eu cantei. Da nossa última conversa no Facebook, antes de sua partida definitiva. Do Som Imaginário, de Mílton, da tristeza dos anos 70. E senti nojo do presente. Você escreve com o coração. Trem bonito demais, Servaz.

  2. Lindo, lindo, Servaz, tudo que você escreveu sobre esses dois talentos da nossa saudosa MPB.

    Que saudade tenho de todos eles. Onde foram parar nossos melhores músicos? Ah, que saudade também tenho da querida Elis.

    Muito obrigada,

    Helena

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