Dirceu Martins Pio

Dirceu Martins Pio tinha maneiras suaves, um jeito extremamente calmo, manso de falar. Não me lembro de ter visto o Pio bravo, berrando no meio de uma discussão. Embora paulista, e com muitos anos de Paraná, onde se radicou, parecia um mineirim – essa coisa que imaginamos para os mineiros, sujeito tranquilo, sempre de boa paz.

E, no entanto, apesar das maneiras, do jeito, da aparência, era um sujeito passional. Entrava nas coisas para valer – apaixonadamente, densamente, decididamente, de corpo e alma.

Quando, em 1988, Rodrigo Mesquita reuniu um bando de gente para refazer inteiramente, a rigor para recriar a Agência Estado, Pio foi o mais abnegado de todos nós.

Éramos um bando e tanto: Sandro Vaia, Elói Gertel, Hélio  Campos Mello, Júlio Moreno, Laerte Fernandes, Adhemar Oricchio, o Pio, eu.

Tínhamos uma tarefa gigantesca, colossal: chacoalhar uma empresa centenária, de hábitos absolutamente arraigados, e mudar tudo. Cada um de nós deu sua contribuição, é claro. Eu, pessoalmente, vivia assolado por dúvidas, receios, inseguranças.

Pio parecia não ter dúvida alguma, nunca, em momento algum. Não dá para dizer que ele vestiu a camisa do projeto: o peito dela era a estampa do projeto.

Usava para todo mundo seu jeito calmo, tranquilo de argumentar, em frases que se interrompiam com pausas pontuadas por longos “aaahnnns” que acabavam nos divertindo.

Argumentava. Defendia o projeto. Vendia o peixe. Incansavelmente.

***

Na campanha presidencial de 1989, a primeira campanha para eleições diretas após a ditadura militar, Rodrigo mandou formar uma equipe especial para trabalhar num amplo levantamento do passado de Fernando Collor de Mello. A idéia era fazer um gigantesco dossiê mostrando que aquele sujeito não mereceria jamais ter sido eleito governador de Alagoas, quanto mais ser votado para presidente da República. O querido Carlos Navarro, então chefe da Sucursal de Salvador, foi chamado para participar da força-tarefa, assim como o Pio, que havia sido o chefe da Sucursal de Curitiba.

Fizemos longas reuniões para coordenar o material que vinha das várias sucursais e dos correspondentes da Agência Estado Brasil afora. Me lembro de algumas reuniões num hotel em São Bernardo do Campo – não sei bem por que lá.

Pio era o mais aguerrido de todos nós.

Nosso dossiê não impediu a vitória de Collor de Mello, é claro. Mas participar do grupo encarregado de fazê-lo foi uma das coisas boas dos meus 37 anos de jornalismo.

 

***

Quando houve uma baita crise na Sucursal de Brasília da Agência Estado – obviamente a mais importante de todas –, em 1990, com a saída inesperada do Luiz Cláudio Cunha da direção, foi formada uma força-tarefa para ficar lá ajudando os jornalistas da capital federal a tocar o barco, enquanto se procurava um novo diretor de redação. Fomos para lá Sandro, Pio, eu.

Eu, pessoalmente, me via envolvido em dúvidas, inseguranças, receios. (Paralelamente, me envolvia também com uma repórter da Sucursal danada de interessante, uma tal Mary Zaidan, mas esta é outra história.)

Sandro tocava as coisas com o brilho com que sempre tocou tudo, a vida inteira.
Pio era o mais aguerrido, o mais pronto para o combate a qualquer hora, para qualquer coisa que aparecesse.

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Nos últimos anos, Pio, de maneira absolutamente inexplicável, incompreensível, ilógica, virou bolsonarista.

Negacionista!

Abraçou a idiotice com a mesma determinação, a mesma paixão com que fazia tudo na vida.

Minha amiga Vera Vaia e eu às vezes comentávamos alguma coisa que o Pio havia falado nas redes sociais. Evitávamos discutir com ele. Mas sempre lembrávamos que, se o Sandro ainda estivesse aqui, não deixaria barato uma única das muitas bobagens que o Pio andou falando. Sandro adorava dar um bom murro em ponta de faca – e adorava o Pio.

Dirceu Martins Pio morreu nesta segunda-feira, 29/3, aos 73 anos, vítima de insuficiência respiratória, em Valinhos, onde morava havia um bom tempo.

Vá em paz, grande, querido Pio. Susana, força. Um grande abraço.

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Júlio Moreno escreve:

Dirceu Pio gostava de grandes causas. Foi um dos pioneiros na defesa das pequenos e microempresas produzindo matérias memoráveis para o Jornal da Tarde. Originário da rede de sucursais do Estadão (primeiro trabalhando no ABC, depois em Curitiba), colaborou muito para a reestruturação da Agência Estado, herdeira da rede. Foi repórter e diretor de marketing da AE. Na época do Collor, teve importante participação no levantamento de denúncias que levaram ao impeachment do ex-presidente. Como executivo, conduziu a equipe que rapidamente ampliou o mercado da Broadcast após sua incorporação pela AE. Tínhamos uma paixão comum: o Corinthians. É claro que também tínhamos alguns pontos-de-vista diferentes, mas não é hora de falar disso e sim de lembrar seu sorriso permanente, a piada sempre pronta e os convites para jogar bocha na cancha particular que construiu em sua casa. Meus sinceros sentimentos à Suzana, filhos e netos.

29/3/2021  

A foto – feita pela minha filha – é de 1990, da época da força-tarefa em Brasília, em um fim de semana em que Fernanda e a Giuliana Vaia foram visitar os pais exilados temorariamente na capital federal.  Estamos aí o Pio, a Giuliana, a Vera, a Mary, eu e o Sandro. O Pio tinha colocado a foto na página dele do Facebook. 

Em 2017, quando o Pio fez 70 anos, publiquei aqui uma Historinha de Redação bem engraçada em que ele e Mary Zaidan eram os protagonistas

3 Comentários para “Dirceu Martins Pio”

  1. Guerreiro, engajado nos projetos e idéias que abraçava. Tinha toda a paciência do mundo para explicar, transmitir uma ideia e projeto. Ficávamos horas conversando sobre da o quê fazer, como fazer para implantar um projeto, uma nova estratégia como lidar com a equipe etc….. me ensinou lições para vida toda. Amigo, companheiro, generoso. Perdemos uma pessoa ímpar.

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