Assim, ó, com os milicianos

CPF cancelado é a gíria usada pelos grupos de matadores profissionais da milícia do Rio de Janeiro para comemorar o assassinato de alguém.

Dificilmente Bolsonaro  desconhece este significado, por ser morador do Rio de Janeiro e ter bastante conhecimento sobre a milícia carioca.

O bolsonarista Sikêra Junior, apresentador do programa policial de televisão que posou juntamente com Bolsonaro segurando o cartaz escrito “CPF Cancelado”, é outro que conhece como ninguém as gírias mais famosas do mundo do crime.

Vejam alguns exemplos de relações próximas de Bolsonaro com milicianos:

Seu ex-assessor e amigo há 35 anos, Fabrício Queiroz, é acusado de ter pertencido à milícia e responde também a processo por assassinato, supostamente cometido junto com outro miliciano famoso, o ex-capitão Adriano da Nóbrega.

É sempre bom lembrar que Fabrício Queiroz, quando estava foragido, foi encontrado pela polícia escondido na casa do advogado de Jair Bolsonaro.

Jair Bolsonaro e o filho Flávio eram conhecidos do ex-capitão Adriano da Nóbrega, chefe do grupo de matadores denominado Escritório do Crime, morto de forma suspeita na Bahia, quando estava foragido.

O Escritório do Crime começou justamente como um dos grupos de extermínio, formados por policiais e ex-policiais, que eram contratados por comerciantes para eliminar traficantes e bandidos que incomodavam bairros e favelas.

Esses grupos evoluíram para o que hoje é chamado de milícia. Passaram a cobrar taxa de proteção dos comerciantes e moradores para “manter a ordem” nessas localidades. E começaram a explorar a venda de água mineral, gás, TV a cabo clandestina e até empreendimentos imobiliários.

E também a matar concorrentes dos seus negócios, ou quem ousasse deixar de pagar as taxas de proteção.

Quando Adriano estava preso preventivamente por assassinato, foi condecorado por Flávio Bolsonaro com a medalha Tiradentes, a principal comenda da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Jair Bolsonaro, um adepto da política “bandido bom, é bandido morto”, elogiou o matador preso e declarou publicamente que a condecoração estava sendo feita a pedido dele.

Flávio Bolsonaro ainda apresentou uma moção de louvor da Alerj em favor do matador Adriano. Depois, Jair Bolsonaro fez um pronunciamento na Câmara dos Deputados defendendo o miliciano. O vídeo está no YouTube.

A proximidade de Adriano com os Bolsonaros era tanta que a mãe e a esposa do chefe do Escritório do Crime foram registradas durante anos como funcionárias do gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj.

Somente foram demitidas no dia em que estourou o escândalo das “rachadinhas”.

Ambas são suspeitas de terem atuado como funcionárias fantasmas, participando do esquema de “rachadinhas”, para desviar dinheiro da Assembléia Legislativa para os bolsos do então deputado.

A viúva Júlia, que é também acusada de ser a contadora do Escritório do Crime, encontra-se foragida. Recentemente foi constatado que o marido dela, o miliciano Adriano, era dono de um patrimônio milionário, resultante de suas atividades criminosas.

Deixou de herança várias fazendas, empresas, haras com cavalos de raça, casas e apartamentos, carros e pontos de jogo clandestino.

Ronnie Lessa, outro miliciano famoso, atualmente preso pela acusação de ser o autor dos 13 tiros disparados no assassinato da Marielle Franco, mora no condomínio Vivendas da Barra, o mesmo de Bolsonaro, numa casa situada a poucos metros da dele.

Existe uma foto de Ronnie Lessa com Bolsonaro, que explicou ser natural tirar fotografias com muita gente, por ser político, e que isso não significa que conheça todas essas pessoas.

Por coincidência, o filho mais novo de Bolsonaro, Renan, namorou a filha do vizinho atirador Ronnie Lessa, segundo consta de investigação da polícia do Rio de Janeiro.

Vários dos bairros cariocas onde Bolsonaro obtinha seus votos como deputado eram, e são ainda hoje, dominados pelas milícias.

Será que dá para acreditar que Bolsonaro é um dos poucos moradores do Rio de Janeiro que desconhecem uma das principais gírias dos milicianos cariocas?

Nota do administrador: Meu amigo Luiz Carlos Toledo Pereira escreveu este texto para o site de perguntas e respostas Quora, do qual é colaborador. A pergunta era “Você acha que Bolsonaro, ao posar ao lado da foto de um CPF cancelado, o fez por descuido ou foi indecoroso?”

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