A desinformação como método de governo

Seria melhor, é claro, não ter que ficar repetindo que a Terra não é plana e, em vez disso, nos preocuparmos com tanta coisa que de fato importa, que de fato faz diferença. É óbvio que seria melhor se pudéssemos nos concentrar nos problemas que há diante de nós, e são tantos.

Mas, ao mesmo tempo, não dá para o país ficar quieto diante de um presidente que fala mentiras. Não dá pra não reagir a um absurdo tão gigantesco, tão abissal quanto esse de o presidente da República declarar que as vacinas contra a covid-19 podem causar aids.

Melhor seria tirá-lo de lá. Claro, claro: se passasse a ser apenas um ex-presidente, o que foi o pior presidente de toda a História brasileira, o estrago causado por suas mentiras seria infinitamente menor – e a Justiça comum que se ocupasse delas.

Mas, enquanto o sociopata está lá na cadeira presidencial, não tem jeito: é preciso reagir.

É preciso reagir – e ainda bem que o país reage. Essa mentira criminosa sobre vacinas e aids tem sido motivo de reação forte de personalidades e de instituições da sociedade. Ainda bem. Felizmente. Faço questão de registrar no meu site três belos textos, cada um deles publicado por um dos maiores jornais do país, parte importante dessa reação ao crime mais recente do sociopata. (Sérgio Vaz)

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A última de Bolsonaro

Editorial, O Estado de S. Paulo, 26/10/2021

O presidente Jair Bolsonaro não é o primeiro mandatário a mentir. Seguramente, não haverá de ser o último. Entretanto, como nenhum outro antes dele, Bolsonaro alçou a desinformação à categoria de método de governo. Distorções de fatos amplamente assimilados como tais ou desinformação da mais desavergonhada têm servido ao presidente da República como instrumentos de mobilização e propaganda eleitoral.

De tão contumazes, por vezes estapafúrdias, algumas das mentiras que Bolsonaro conta soariam apenas ridículas não fossem extremamente perigosas no contexto de uma pandemia que já matou mais de 605 mil brasileiros. No que pode ser classificado como seu mais grave ataque à vacinação contra a covid-19 até agora, Bolsonaro afirmou durante uma live no dia 21 passado – sem apresentar qualquer dado confiável que sustentasse a afirmação – que indivíduos que receberam as duas doses da vacina no Reino Unido estariam “desenvolvendo a síndrome de imunodeficiência adquirida muito mais rápido do que o previsto”. Do seu jeito peculiar, Bolsonaro afirmou que a vacina contra a covid-19 causa aids. A isso ele se prestou para disseminar dúvidas sobre a segurança das vacinas a pretexto de defender o que entende ser a “liberdade individual” dos cidadãos que não querem receber o imunizante contra o coronavírus. O Comitê de HIV/Aids da Sociedade Brasileira de Infectologia publicou nota desmentindo categoricamente o presidente da República.

Das duas, uma: ou Bolsonaro não sabia que a associação entre a imunização completa contra a covid-19 e a infecção pelo vírus HIV não tem qualquer fundamento, demonstrando inaceitável ignorância para um presidente da República, ou sabia – e mesmo assim divulgou o embuste para confundir os cidadãos, com objetivos inconfessáveis. Seja como for, Bolsonaro deu a entender que sabia que a tal “informação” seria contestada: “Vou só ler a notícia aqui, não vou comentar. Já falei sobre isso no passado e apanhei muito. Posso ter problemas com a minha live”, disse o presidente. De fato, teve.

Pela primeira vez, o Facebook e o Instagram retiraram o conteúdo da transmissão de Bolsonaro de suas plataformas no dia 24. O presidente não se manifestou sobre a exclusão do vídeo. E nem precisava. A Bolsonaro interessa lançar suas mentiras no ar e deixar que elas ganhem vida própria no submundo das redes sociais.

Muitas dessas mentiras que Bolsonaro e seu “gabinete do ódio” fazem circular ressoam apenas entre os seguidores mais fanáticos do presidente, uma parcela cada vez menor da população, ainda que muito barulhenta. Para o bem do País, o discurso antivacina de Bolsonaro é mal recebido pela população em geral. A cultura vacinal tem raízes profundas no Brasil. O número de cidadãos que têm acorrido aos postos de vacinação fala por si só.

Como mostrou a reportagem do Estado, sempre haverá uma parcela da sociedade que não levará em consideração a verdade factual para formar opinião. Não obstante o diligente trabalho de serviços de checagem como o Estadão Verifica, muitas mentiras e teorias conspiratórias compartilhadas nas redes sociais, por mais absurdas que pareçam, são – e continuarão sendo – levadas a sério por uma parte da população. Quanto a isso pouco há de ser feito, haja vista que aqui se está na esfera das paixões. Já exigir responsabilidade de Bolsonaro no exercício da Presidência é dever inarredável dos Poderes constituídos.

O fato de ter amesquinhado o cargo que ocupa não exime Bolsonaro de ser chamado às falas por seus atos e palavras, ao contrário. Em boa hora, o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) pediu à CPI da Covid que envie ao Supremo Tribunal Federal uma compilação das falsas alegações de Bolsonaro sobre as vacinas ditas em suas lives, a fim de que constem no inquérito que tramita na Corte sobre a disseminação de notícias falsas.

Não há registro de um chefe de Estado e de governo que tenha degradado a força da palavra da Presidência da República de forma irreparável como logrou Bolsonaro. Quase nada do que ele diz ou escreve é digno da confiança dos cidadãos que não têm por hábito brigar com a realidade. Mas até para um mitômano como ele há limites que não podem ser ultrapassados impunemente.

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Presidente a ser impedido

Por Merval Pereira, O Globo, 26/10/2021

O ex-presidente José Sarney cunhou a expressão “liturgia do cargo” para definir a responsabilidade perante a população de um presidente da República no cargo que ocupa. Das palavras ditas ao comportamento pessoal, tudo tem seu peso político. Mas há distinções entre comportamentos popularescos e aqueles espontâneos, especialmente quando a espontaneidade revela um político excêntrico, mas vencedor e com visão de história.

Não é o caso de Bolsonaro, que já posou para uma foto oficial de ministério com camisa pirata do Palmeiras, jogging e sandálias Rider. Ou ofereceu pão com leite condensado para um enviado oficial do governo dos Estados Unidos. Já divulgou fotos obscenas em seus aplicativos, já falou palavrão em público, enfim, fez de tudo para não respeitar a “liturgia do cargo”.

Nada disso, porém, é mais grave do que usar suas mensagens presidenciais para difundir notícias falsas, especialmente em época de pandemia como a que ainda vivemos. O mais recente desvario do presidente foi divulgar um suposto estudo que afirmaria que os completamente vacinados contra Covid-19 estariam mais sujeitos a contrair Aids. Isso é de uma gravidade assustadora.

O presidente da República fazer campanha contra vacinação é crime que deveria ser punido rigorosamente, como aliás pede o relatório final da CPI da Covid. Provocar aglomeração de propósito é crime que tem como consequência mortes. Dizer que quem se vacina pode virar jacaré vira piada na internet, mas é um ataque à saúde pública. Mas aproveitar-se de um estudo científico fajuto para dar cunho de verdade a uma mentira é demais, até mesmo para um irresponsável como Bolsonaro.

O mesmo ex-presidente Sarney disse uma vez que a cadeira é maior que o homem, referindo-se indiretamente a Bolsonaro. Ele de fato não tem a menor noção do cargo que ocupa por um desses azares da sorte, que fez com que o Brasil tivesse que enfrentar a maior calamidade de saúde pública em um século com o pior presidente de sua história. É pior porque, além de incompetente, coisa que muitos foram, não tem a dimensão da importância do cargo que ocupa.

Abre a boca, e a Bolsa cai, o dólar sobe, a economia vai para o buraco. Conversa no cercadinho como se estivesse num botequim, onde todo mundo pode dar palpite à vontade que não prejudica o país. Saído de seu mundo pequeno para a grandeza da tarefa que recebeu na eleição de 2018, Bolsonaro insiste em pensar pequeno, como se continuasse em seu mundinho do baixo clero.

Suas frases, seus hábitos, seus pensamentos fazem mal ao país, provocam mortes, contribuem para que o Brasil retroceda décadas em poucos anos. Valeu-se da leniência com que foi tratado desde que foi obrigado a sair do Exército, e depois durante 28 anos no Legislativo, para chegar ao Palácio do Planalto num conto de literatura mágica, impensável para o mais criativo dos escritores que quisesse descrever os descaminhos da América Latina.

Só tivemos presidentes improváveis desde a redemocratização, como escrevo em meu livro “Desafios da democracia”, recém-lançado pela editora Topbooks: Sarney, com a morte de Tancredo, presidente do PDS, partido de apoio à ditadura, que acabou vice do candidato de oposição; Collor, uma invenção nascida de uma mente doentia; Itamar Franco, Fernando Henrique, que meses antes do Plano Real não sabia se se elegeria deputado federal; Lula, que perdera três eleições seguidas e teve de inventar um personagem para se eleger; Dilma Rousseff; Michel Temer, e agora Bolsonaro.

Como se vê, nossa história é escrita por linhas tortuosas. Mas não há dúvidas de que Bolsonaro é o pior presidente que já tivemos, pelo conjunto negativo da obra. O mais perigoso também. Precisava ser impedido de continuar no governo. Mas o julgamento que começa hoje no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tudo indica, o poupará. Será absolvido mais um presidente indigno do cargo, com excesso de provas contra si.

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O irresponsável

Editorial, Folha de S. Paulo, 25/10/2021

O Brasil alcançou outro marco significativo na campanha de vacinação contra a Covid-19 na semana passada. Mais de metade da população está imunizada contra o coronavírus, e o declínio de infecções e mortes enseja alívio em toda parte.

Coube ao país, no entanto, a triste condição de ser governado na crise sanitária por um presidente que prefere desempenhar o papel de primeiro propagandista da ignorância e não cansa de semear desconfiança contra as vacinas.

Na última quinta (21), numa transmissão ao vivo na internet, o mandatário difundiu uma teoria estapafúrdia que circula nas redes sociais e sugeriu que pessoas que se imunizaram podem ter adquirido também o vírus da Aids.

O presidente irresponsável orientou os apoiadores a buscar informações sobre o disparate e disse que não faria mais comentários, para evitar complicações com as políticas adotadas pelas plataformas da internet para conter a desinformação em seus domínios.

Na noite de domingo (24), Facebook e Instagram retiraram do ar o vídeo com o pronunciamento de Bolsonaro, acusando-o de violar os termos de uso das duas empresas ao espalhar mentiras sobre os efeitos colaterais dos imunizantes.

Não foi a primeira vez que o Facebook tomou providências desse tipo contra o presidente. Em março do ano passado, no início da pandemia, foi removido um vídeo em que Bolsonaro defendia tratamentos inúteis contra a Covid e o fim das políticas de isolamento social.

Mas houve dezenas de outras situações nos últimos meses em que o governante violou as normas da rede social sem punição, como a Folha mostrou recentemente. A maioria das infrações ocorreu nas suas tresloucadas lives semanais.

Felizmente, os números da campanha e as pesquisas de opinião atestam que cada vez menos gente presta atenção em sua pregação insensata. Em julho, somente 5% dos brasileiros diziam não querer se vacinar, segundo o Datafolha.

Bolsonaro prefere jactar-se de não estar imunizado e insiste em panaceias e negacionismos porque acredita que assim conservará o apoio dos seguidores mais radicais que ainda se enfileiram a seu lado.

O disfarce de moderação que o governante vestiu após as manifestações golpistas do Dia da Independência costuma revelar seu desalinho nas chamadas lives. Ali as tolices que circulam numa confraria de ignorantes e autoritários jorram pelo fraseado do presidente.

Essa licenciosidade parece ter encontrado agora o limite de tolerância dos oligopólios que administram as principais redes sociais. É uma pequena amostra do que poderá ocorrer no período eleitoral, quando Bolsonaro arrisca ser arrancado das principais plataformas.

26/10/2021

2 Comentários para “A desinformação como método de governo”

  1. Não custa lembrar que, além de não usar máscara, o “mito” afirmou muitas vezes:
    “vacina implanta chip”
    “vacina faz mudar de sexo”
    “vacina faz virar jacaré”
    “vacina gera AIDS”
    “não precisa de vacina quem já se contaminou”
    Só fake news ! Enfim, um genocida a ser indiciado em breve…

  2. Boa, Alberto, boa!
    Muito obrigado pela lembrança desses outros absurdos que o sociopata já disse.
    Seu comentário já está no ar. Não entrou de imediato porque o primeiro comentário de um leitor tem que ser aprovado…
    Um abraço.
    Sérgio

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