Sem estante de livros atrás não há entrevista

Não posso imaginar por que a GloboNews me ligaria pedindo entrevista. Quem sabe pela cobertura que fiz (ao lado de uma penca de coleguinhas) da visita de um presidente da República brasileiro e militar a Portugal, o general Garrastazu Médici. Afinal, é data redonda. Faz 50 anos. Meio século!

A entrevista teria que ser dada de casa, como acontece desde o surgimento da pandemia. E aí estaria um problema. Não tenho mais a estante de livros que se vê às costas dos entrevistados. Na casa em que morava, até seis anos atrás, minha mesa de trabalho ficava no mezanino. Na parede oposta estavam meus livros. Era muito livro, acumulado em décadas.

Machado, García Márquez, Faulkner, Hemingway… muita gente boa. E o indispensável Ulysses, do Joyce, traduzido pelo Houaiss, que tentei ler duas vezes mas não passei da metade. Surgiu, então, a tradução da professora Bernardina Pinheiros, tida como mais acessível. Não passei da metade. O problema para os menos preparados, como se sabe, não está nas traduções, mas na escrita peculiar do autor.

A estante havia sofrido uma baixa importante. Levei um sobrinho em visita para ver os livros, e disse que escolhesse um. Ele pegou Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Meu predileto de língua portuguesa! Fiquei contente com isso. Sinal de que o sobrinho tinha bom gosto.

Com a mudança para um apartamento veio o coro dos palpiteiros: “Desapegue-se”. Bem, separei umas tantas obras de valor afetivo, e chamei o dono de um sebo, que fez a festa com o restante. A Enciclopédia Britânica, que tinha ganhado de uma amiga, e Os Gênios da Pintura foram junto.

Mas fiquei com os quatro volumes da Enciclopédia Lello Universal, e os dezoito do Thesouro da Juventude, ambos impressos com grafia do começo do século passado. Elle, vae, photographia…  A enciclopédia tem 77.084 artigos, 5.594 gravuras e 418 reproduções de quadros célebres.

As duas coleções ficariam muito bem às minhas costas, durante a suposta entrevista. Mas não caberiam, nem mesmo apenas elas, no espaço que destinei aos outros livros aqui no apartamento. E mesmo estes inviabilizam qualquer cenário. Estão comprimidos na parte de baixo de um birô, uma escrivaninha, que ganhei do meu pai na adolescência. Havia ali duas portas, que retirei há muito tempo.

As velhas obras, e algumas mais recentes, presente de queridos amigos, estão bem acomodadas e não fariam feio como cenário de entrevista. O problema é a altura. Mal chega aos meus joelhos. A única possibilidade é que a entrevista fosse sobre o bem dormir. Eu poderia falar deitado…

Por questões econômicas, meus livros dos últimos anos estão em um e-book. Acho que a Globo News não aceitaria a entrevista com o e-book pendurado na parede às minhas costas.

Setembro de 2020

Este é o volume 11  das anotações de um confinado. 

No volume 10, como se desenvolveu a nova arte do confinado. 

No volume 9, lembranças de viagem ao Sul de Minas para fazer reportagem sobre juiz sui generis. 

 

 

 

 

3 Comentários para “Sem estante de livros atrás não há entrevista”

  1. Amei. Sua descrição dos livros e a readequação do espaço literário nessa nova casa. Até que ficou simpática essa nova estante. O importante está no conteúdo dessas obras. Ah! seu sobrinho é muito inteligente.

  2. Monte, bela surpresa um comentário de leitor tão qualificado e grande amigo. Mas estou decepcionado. A Globo não me convidou.

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