Garçons sinceros

Na noite em que conheci o garçom mais sincero da minha vida, estávamos recém-chegados a Passos, no sul de Minas, para matéria sobre a Hidrelétrica de Furnas. Este da caneta, e Hélvio Romero, das câmeras e objetivas (mas pode chamar de texto e fotos). A hidrelétrica estava muito mal, com água pelas canelas.
Às tantas, deixamos o hotel para jantar. Sempre viajei com o Guia Quatro Rodas, e me louvei em suas boas indicações. Mas Passos não constava nele. Assim, recorri à segunda opção mais confiável. O ponto de táxis da praça principal. Seus motoristas rodam toda a cidade, sabem de tudo.

A prova disso é que nos indicaram um restaurante recém inaugurado, e discorreram sobre suas excelências, ambiente agradável, cardápio variado. Ora, vamos a ele.

Uma vez instalados, sondei o cardápio de pratos e bebidas. Lá estavam duas ofertas de scotch oito anos. Vem o garçom. Pergunto:

– A casa garante a qualidade desses scotchs?

E ouço a seguinte resposta:

– Não.

Fiquei perplexo.

– Não?

Explicou com naturalidade que os clientes reclamavam muito, ele avisava os patrões, mas não adiantava nada. Em todo caso ia buscar uma garrafa da bebida.

– O senhor faz uma prova.

Foi minha vez:

– Não!

Não lembro o que tomei de aperitivo (e se tomei). Talvez tivessem uma cachaça aceitável para uma caipirinha.

Em outra viagem… houve um fato (literalmente) marcante, em uma churrascaria rodízio. Desta vez, Heitor Hui estava nos cliques (naquela época as máquinas fotográficas faziam esse som ao disparar). A churrascaria não era má.

Vem o garçom e apóia na mesa um espeto cheio de carnes. Espera que eu escolha um dos pedaços. Aponto e, ele, rápido, corre a faca – tão rápido que corta a carne e o meu dedo! Pede um momento, sai, e fico com o guardanapo segurando o sangue. Passa outro garçom, percebe que há algum problema:

– Precisam de alguma coisa?

E Heitor, rápido:

– Fio de sutura.

O corte foi superficial. O garçom autor veio com um bandeide e aplicou no meu dedo. Serviu também um comentário.

– Não deixamos faltar o bandeide. Esses cortes acontecem muito.

E a seca e a crise da hidrelétrica, que nos levou a Furnas, no sul de Minas Gerais, em junho de 2001? Um dos textos mostra que a igreja do vilarejo de Velha Barra, inundado pelas águas do Rio Grande, para a formação do lago, em 1963, reaparecia agora, 38 anos depois. Segue a abertura do texto.

“Talvez por hábito, o pai de Maria da Penha, a professorinha, fechou a porta da casa quando todos saíram. Um gesto dispensável. Nas horas seguintes, as máquinas vieram para demolir as casas, os prédios públicos, tudo o que estava em pé em São João da Barra. Só restou a igreja. Depois disso, as águas começaram a subir.

Agora, 38 anos depois, Maria da Penha de Andrade, 67 anos, professora aposentada, voltou a pisar na Velha Barra, como hoje é chamada a cidade sepultada pelas águas de Furnas. O encolhimento do lago da hidrelétrica deixou à vista algumas áreas e os restos do cemitério, onde um irmão de Maria foi enterrado.

Com os pés no passado, Maria reviu cenas de uma vida feliz, na cidade de ruas sem calçamento. O pai, José, era pessoa muito respeitada: barbeiro e juiz de paz. Na Velha Barra, os dois maiores rios da região, o Grande e o Sapucaí, se encontravam. O primeiro tinha suas águas limpas; o outro, turvas. As águas não se misturavam. Seriam elas, afinal, que cresceriam com a barragem da hidrelétrica e inundariam a cidade.

Maria retém as palavras para chorar. O lago está à sua frente. “Minha cidade está aí embaixo, não vou ver nunca mais.”

Agosto de 2020

Este é o volume 9 das anotações de um confinado. 

No volume 8, o juiz que deu a sentença em versos para o acusado de furtar duas galinhas. 

No volume 7, uma questão: se não dá para comemorar gol, que tal um futebol sem bola? 

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