O ano em que Stalin ressuscitou

A onda revisionista sobre o papel de Stalin adquiriu visibilidade no Brasil em setembro, a partir de uma entrevista de Caetano Veloso ao programa de Pedro Bial, quando o compositor disse não ser mais um “liberalóide”. O maior nome da tropicália mudou seu juízo de valor sobre o socialismo a partir da influência do youtuber e jovem marxista Jones Manuel. O professor da Universidade Federal de Pernambuco é o maior divulgador no Brasil da obra de Domenico Losurdo, filósofo italiano e principal teórico da “ressurreição” de Josef Stalin.

Para seus críticos, Losurdo é um “terraplanista de esquerda”. Nega o caráter totalitário do stalinismo, assim como os “terraplanistas de direita” negam que a terra é redonda. Seu livro Stalin – História crítica de uma lenda negra virou uma espécie de bíblia do neoestalinismo ao pretender dar fundamentos teóricos para a reabilitação do maior ditador da União Soviética.

Segundo Domenico Losurdo, a caracterização de Stalin como um ditador sanguinário é produto da guerra-fria. Impulsionado por esse clima, Krushchev teria escrito o seu famoso relatório, uma autopsia dos crimes cometidos pelo ditador que governou a União Soviética a ferro, fogo e muito sangue.

O filósofo italiano admite os erros de Stalin, mas os justifica por ter transformado a União Soviética em uma grande potência. Por essa linha, Hitler seria absolvido porque recuperou a economia alemã nos anos 30 e Mussolini, porque com ele os trens não atrasavam. As chamadas conquistas sociais do stalinismo também não o absolve. Outros países tiveram conquistas sociais mais robustas sem regime totalitário.

Quando confrontado pelos fatos, Losurdo apela para o escapismo, por meio do argumento de que os liberais cometeram crimes tão ou mais graves, ao longo da história, por meio do uso da escravidão, da pilhagem e do colonialismo, elementos da chamada acumulação primitiva. Ou seja, o fato de George Washington e Thomas Jefferson terem sido donos de escravos no século 18 justificaria o fato de Stalin ter usado mão de obra escrava no século XX na construção de ferrovias e outras obras.

Seu arrazoado é uma falácia, em particular sua crítica a Hanna Arendt por equiparar o stalinismo ao nazismo. Ainda que tenha havido diferenças entre eles, ambos banalizaram o mal e fizeram do medo instrumento de dominação.

Antes da filósofa israelense, o escritor soviético Vasily Grossman já tinha colocado o nazismo e o stalinismo no mesmo patamar, na sua obra magistral Vida e Destino. Detalhe: o livro de Grossman escrito no início dos anos 50, só foi publicado em 1989. Mikhail Suslov, ideólogo do Partido Comunista da União Soviética, dizia que Vida e Destino só poderia ser publicado 200 ou 300 anos mais tarde por causa das verdades reveladas  pelo livro.

Outro marxista, Eric Hobsbawm, estimou, em seu livro A Era dos Extremos, o número de mortos no período Stalin entre 10 a 20 milhões de seres humanos. Parte significativa das vidas ceifadas foram decorrência direta da coletivização forçada da agricultura. O excedente expropriado dos camponeses servia para financiar a industrialização acelerada.

A política de dizimação dos kulacks levou milhões de camponeses ao trabalho forçado ou à morte, muitos deles proprietários apenas de um cavalo ou uma vaca, além de um naco de terra.

Estabeleciam-se cotas de deskulaquisados. Em um de seus livros, Ievguêni Ievtuchencko relata casos de regiões em que não havia kulacks e os critérios para enquadramento nessa categoria tiveram de ser rebaixado para preencher as cotas. Havia outra cota macabra: a de inimigos do regime a serem assassinados. Elas também eram infladas quando não havia número suficiente de “inimigos do socialismo”. Stalin testava a fidelidade dos membros do birô político mandando-os assinar listas de “inimigos do povo” que deveriam ser fuzilados.

Na Ucrânia, a coletivização forçada levou à morte por fome de 3 milhões de pessoas, no episódio conhecido como Holodomor (A grande fome). Em conversa com Churchill, Stalin disse que “esse foi o momento mais difícil que enfrentou”.

Losurdo glamouriza os gulags, assim como Sartre glamourizou nos anos 50 e depois se arrependeu. Deles saíram a mão de obra escrava para a construção de obras como o canal Mar Branco-Mar Báltico, erguido por mais de cem mil prisioneiros, dos quais dez mil morreram de fome, de frio, de doenças e de estafa.

Sim, a acumulação primitiva utilizou expedientes que não a dignificam. Mas o capitalismo gerou uma democracia como a americana e um estado de bem-estar social na Europa. Já a herança do stalinismo foi rejeitada pelos povos que a experimentaram. Sim, o capitalismo é o pior dos modelos, exceto que até agora não inventaram nada melhor. A própria China comunista rendeu-se a ele.

Até os anos 50, intelectuais e artistas emprestaram seu talento para deificar Stalin. Alguns deles, como o baiano Jorge Amado, tiveram a honestidade de pedir desculpas logo após o Relatório Krushchev. Quem sabe algum dia outro baiano, Caetano Veloso, peça desculpas por ter aderido ao neostalinismo tropical.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 30/12/2020. 

 

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