A guerra perdida de Guedes

O ministro Paulo Guedes deve estar curtindo uma ressaca brava, daquelas que deixam a boca com gosto de cabo de guarda-chuva e o estômago embrulhado. O que era para ser seu grande momento de brilho nestes tempos de pandemia – o anúncio de um novo pacote econômico com a instituição do Renda Brasil, a definição do novo marco regulatório das privatizações e a continuidade do auxílio emergencial – tornou-se a comprovação de que o Posto Ipiranga já não conta com o mesmo prestígio perante o presidente.

É a primeira vez que abertamente Jair Bolsonaro diverge do ministro a quem dizia ter dado carta branca. Mandou refazer sua proposta para o auxílio emergencial e o Renda Brasil, e, de quebra, prestigiou o rival de Guedes, Rogério Marinho, ao lançar o programa Casa Verde e Amarela. Em baixa, o ministro da Economia trava uma batalha em um terreno que não é a sua praia, o da gastança.

Como bom bonapartista que se relaciona diretamente com as massas, Bolsonaro descobriu o enorme potencial de votos de programas de transferência de renda. Soma-se a isso o projeto nacional-desenvolvimentista do principal núcleo do governo, os militares, em aliança com os ministros paisanos Rogério Marinho e Tarcísio Freitas.

A cabeça de Bolsonaro sempre foi intervencionista; rendeu-se ao liberalismo  pregado pelo seu czar da economia por conveniência e não por convicção.

Ocorre que o tempo passou na janela e só Paulo Guedes não viu. Perdeu o timing para o seu receituário de levar adiante as reformas estruturantes e um amplo programa de privatização. Eles atendiam bem às necessidades do pré-pandemia, mas são insuficientes para responder à nova realidade. Acrescente-se a incapacidade mastodôntica do ministro de tirar do papel políticas teoricamente corretas.

Não apenas por sua culpa, mas também por ela, as reformas empacaram. A cada dia o governo encolhe um pouco mais sua proposta de reforma tributária e a administrativa simplesmente sumiu do mapa. O programa de privatizações revelou-se um fiasco tão grande que o responsável por ele, Salim Mattar, pegou o boné.

Guedes tem um problema crônico. Promete muito e entrega pouco.

Prometeu arrecadar mais de R$ 1 trilhão com as privatizações e outro trilhão com a venda de imóveis do governo. Passaram-se dois anos e Bolsonaro não viu a cor desse dinheiro. Se tivesse cumprido um terço de sua promessa, o governo estaria agora nadando em dinheiro, com recursos suficientes para bancar investimentos reclamados pelos desenvolvimentistas e para financiar um programa robusto de renda básica.

Nada indica que esse quadro mudará da noite para o dia. Segundo a nova secretária Martha Seillier, é impossível reduzir o prazo de uma privatização de dois anos para três ou quatro meses. Por esse calendário, até 2021 o governo conseguirá, no máximo, privatizar estatais de pouco valor, como o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada, cujo patrimônio é de R$ 100 milhões (isso mesmo, milhões!) e a CBTU, de patrimônio negativo.

O filé mignon – Correios, Eletrobras e Telebrás – só seria privatizado em 2022, ou seja, na boca da disputa presidencial. Assim mesmo, é preciso combinar com os russos, no caso, o Centrão. Há no Parlamento uma ampla frente contrária a privatizações de empresas como Eletrobras.

Sem os pilares de sua estratégia, restou a Guedes agarrar-se à âncora do teto dos gastos, travando uma guerra defensiva que é praticamente perdida. O caminho que ele tem traçado para atender às pressões de Bolsonaro sem furar o teto dos gastos traz consigo o risco de desgaste político do presidente com outros setores.

O ministro quer descobrir um santo para vestir outro.

Pretende tirar dinheiro dos idosos beneficiários do programa Farmácia Popular, do abono salarial e das rubricas de dedução do imposto de renda para bancar o Renda Brasil. A conferir se o Congresso aprovará esse pacote de maldades.

As águas correm para o moinho dos desenvolvimentistas. Se tiver de escolher entre o apoio do mercado e o dos grotões que turbinaram a aprovação de seu governo, não é difícil saber qual será a opção de Bolsonaro.

Só que em um país com as contas desorganizadas isso pode ter efeito deletério, como a volta da inflação e a explosão da dívida pública. Uma coisa é a Inglaterra de Boris Johnson, que fez suas reformas estruturantes ainda no governo de Margaret Thatcher, se sentir em condições de aplicar um programa “rooseveltiano”. Outra é o Brasil pensar em seguir caminho semelhante.

Há sempre a tentação de imprimir dinheiro novo, como recomendam alguns economistas considerados sérios, entre eles André Lara Resende. O Brasil tem uma experiência traumática de girar a manivela de imprimir dinheiro: o “encilhamento”, do então ministro da Fazenda Rui Barbosa, no governo de Deodoro da Fonseca. Ele quis financiar a industrialização com a emissão de papel-moeda. O resultado foi uma onda especulativa que desencadeou um amplo processo inflacionário.

Guedes está naquela situação de Napoleão, com todo mundo querendo saber como ele perdeu a guerra. Sua derrota não é sinônimo de vitória do Brasil. O neo-desenvolvimentismo tem tudo para ser a reprodução do desastroso período presidencial do general Ernesto Geisel ou dos dias infelizes de Dilma Rousseff.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 26/8/2020. 

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