Frevo lusitano

O isolamento faz a mente viajar por baús de lembranças, muitas delas já a pedir uma boa espanada na poeira. Por algum motivo, voltou-me à cabeça um tombo. Um tombo antigo, tombo de estudante num Portugal pós-revolução. Foi mais ou menos assim…

Aquele buraco não deveria estar ali. Ele apareceu de repente, sorrateiro, covardemente. Sorveu meu pé direito, fez Sul o meu Norte e me girou forte para a esquerda, como numa juvenil opção de quem busca salvar o mundo. Qual um Nureyev louco, levitei. Abri o compasso, torci os ossos e tentei uma última manobra, radical.

Como um raio, me veio à cabeça uma frase inútil: os gatos caem sempre de pé. Não sou gato. E antes de beijar a lona, que era de pedra portuguesa, com certeza, ensaiei dois ou três passos de frevo com meu guarda-chuva chinês em noite de inverno lisboeta.

Terminado o espetáculo, só o chão me foi solidário. Me acolheu por inteiro, ainda que de lado. Na plateia, nenhum aplauso, nenhuma risada. Só a frieza da literalidade lusa.

Afinal, um tombo é um tombo, ainda que Tombo possa ser uma torre famosa. Caído, estropiado, a calca rasgada e a perna doendo como saudade de amor, só me restou uma inglória retirada.

A cabeça baixa, coisa e tal…

Ah! Portugal, por que me tratas tão mal?

Carlos de Oliveira é jornalista.

 

2 Comentários para “Frevo lusitano”

  1. Eu sou português e gostava de perceber o sentido do seu texto que francamente me passa ao lado.
    Afinal o que significa?

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