Feitiços contra feiticeiros

Gosto de apreciar o curso dos acontecimentos, é um suspense dos deuses. Uma magnífica história cifrada para desenvolver nossa argúcia e nossa sensibilidade. Vivemos tempos de feitiço contra feiticeiro em todo o mundo. No Brasil, então, a novela está imperdível.

Os poderosos investidores da Bolsa estão se estrumbicando. Não tem regra de mercado que indique o caminho certo a seguir. Da mesma maneira que na crise de 2008, vão ter que recorrer aos governos e se valer dos recursos públicos. Capitalismo tomando remédio socialista.

O vírus ataca primeiro os ricos. E são os ricos que passam para os pobres, aquela massa gigantesca de pessoas que moram mal, não têm os mesmos recursos sanitários, não podem comprar álcool gel. Os pobres é que têm que se afastar dos ricos, com nojo, numa sensacional inversão de valores.
Os que acham que podem planejar o trabalho, o lazer e a vida rigorosamente caíram do Excel com o mouse na mão. Uma grande onda pôs tudo abaixo, enaltecendo a improvisação inteligente, que tantas vezes salvou o ser humano.

O desorientado presidente da República, que põe máscara, tira máscara, diz que epidemia é bobagem, convoca uma coletiva de imprensa em que convida para estrela o presidente do STF. O STF que ele ataca, insuflando seus admiradores a jogar pedra. E o que diz o presidente do Supremo? Elogia o papel e as atitudes da imprensa brasileira. Do lado do chefão que debocha da imprensa.

O público brasileiro para demonstrar seu descontentamento recorre às redes sociais. E as redes sociais, que de dois anos para cá se entupiram de mensagens de ódio e calúnia, abrem seu Mar Vermelho para as mensagens reais e os conselhos práticos. De repente, as fake news da raiva começam a perder o caminho, diante da forte corrente de mensagens sadias.

Os que dividem tudo em branco e preto, os que polarizam a sociedade até a asfixia, tiveram que aceitar a mesma palavra, panelaço, para os protestos nas varandas dos prédios. As janelas repetem o barulho de 2015, em sentido completamente oposto. As panelas se mostram neutras e sábias.

Os que usam igrejas lotadas para fins particulares maliciosos vão ter que mudar de posição sob pena de se mostrarem aproveitadores do povo.

A História é uma matéria fascinante.

Março de 2020

3 Comentários para “Feitiços contra feiticeiros”

  1. Eliana, querida amiga. Agora que você chegou, não saia mais. A estréia está excelente, e como sou muito chapa do editor, me permito uma sugestão. Venham os textos sobre a conjuntura de momento, ou a bolsonarada do dia, que ninguém é de ferro. Mas vez por outra nos ofereça aquelas belezas literatura pura que você cria com tanta sensibilidade.

  2. Obrigada, colega Valdir. Quero colaborar, sim, para esse espaço. Procurando me inspirar no seu padrão (de competência).

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