Os limites do bolsonarismo

A vitória de Jair Bolsonaro foi vista por muitos como o início de um novo ciclo de longa direção, em sintonia com a onda nacional-populista que varre o mundo. Um dos líderes petistas, José Dirceu, com boa dose de realismo, alertou seu partido quanto à longevidade da hegemonia da extrema-direita estabelecida com a assunção do bolsonarismo.

O céu parecia ser o limite para sua expansão. Previa-se que Bolsonaro avançaria nas fortalezas do lulo-petismo estabelecidas no Nordeste e nos bolsões de miséria dos grandes centros urbanos. Seria também o grande eleitor das eleições municipais e chegaria em 2022 na condição de imbatível.

No oitavo mês do seu mandato, o Datafolha e outros institutos de pesquisa indicam uma reversão das expectativas, com a desidratação significativa do apoio ao seu governo. Até o ex-presidente Fernando Collor de Mello, com confisco da poupança e tudo, teve, em oito meses de governo, uma desaprovação menor do que a de Bolsonaro. Como entender uma reversão tão brusca?

A explicação talvez esteja na superestimação do peso da extrema direita na eleição do presidente. Ela se deu menos ao tamanho do seu eleitorado puro sangue e mais pelo antipetismo espraiado pela sociedade. O próprio presidente pensou que era tudo a mesma coisa. Não é. O eleitorado de centro que apoiou sua candidatura para se livrar do PT começa a fazer o caminho de volta.

Por uma razão simples. A estratégia da radicalização satisfaz a sede de sangue de seu nicho, mas não dá respostas às reais necessidades da sociedade, sobretudo dos mais pobres. E afugenta o amplo espectro do eleitorado situado entre os dois extremos.

Uma leitura cor de rosa, da qual o presidente compartilha, é que há um núcleo irredutível ao seu redor, em torno de 30%, como as pesquisas constatam hoje. Mas será esse mesmo seu fundo do poço, ou o piso é mais embaixo?  Bolsonaro não só acha que sim, como acredita que ele será anabolizado pela retomada da economia. Daí dobrar a aposta na radicalização, comprando briga contra tudo e todos. Até com a Santa Madre Igreja, com quem político que se preza não entra em rota de colisão.

Há uma boa dose de otimismo exagerado nos seus cálculos. A extrema direita, assim como a extrema esquerda, são correntes minoritárias. Estão bem abaixo de ser um terço do eleitorado. Só se tornam robustas quando ampliam seu discurso para a maioria da sociedade.

Como o presidente mantém-se inflexível na rota traçada, a tendência é de mais desidratação da sua base de apoio. Para reconquistar os 25% dos eleitores que votaram nele e hoje desaprovam seu governo, teria de moldar o seu discurso. Mantida a atual estratégia, afugentará novas parcelas que ainda lhe dão algum crédito. O tempo é seu adversário. Quanto mais ele passa, menor o apoio ao governo.

O cenário econômico tampouco ajuda. O panorama internacional é de estagnação e a perspectiva é de baixo crescimento aqui dentro, nos próximos dois anos. Quanto mais se aproxime sua sucessão, mas resultados cobrará de Paulo Guedes, seu Posto Ipiranga. Como não há muito coelho na cartola do ministro da Economia, Bolsonaro pode dar um cavalo de pau, adotando medidas populistas. Essa tentação sempre aparece quando um mandatário tem a caneta na mão e tem dificuldades para se reeleger. Ora, se Maurício Macri, um liberal convicto, acaba de fazer isso na Argentina, o que dirá Bolsonaro, um cristão novo do credo liberal?

A frustração com Bolsonaro pode levar água para o moinho do populismo de esquerda. O passadismo é sempre um sentimento que viceja em momentos de crise. Vide a Argentina, onde a sensação de que “a vida era melhor tempos de Cristina” ressuscitou o kirchnerismo.

O fracasso de Bolsonaro pode gerar a onda semelhante, como se os anos do lulo-petismo tivessem sido o paraíso. Esse sentimento apareceu no último Datafolha, quando se indagou em quem votaria caso se reproduzisse a polarização Bolsonaro-Haddad.

Não estamos condenados a ficar entre o diabo e o demônio. Os limites do bolsonarismo abrem possibilidades de rearticulação do centro democrático por meio de uma proposta não saudosista, que seja liberal na economia, progressista no campo social e radicalmente comprometida com os valores democráticos.

Em política, nada acontece por geração espontânea. Uma saída virtuosa só acontecerá se os sujeitos que fazem a História arregaçarem as mangas e a fizerem acontecer.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 4/9/2019. 

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