Cecília Thompson

Nunca tinha visto nada nem de longe parecido, nestes anos todos de Facebook, como o impacto da notícia da morte de Cecília Thompson. Nem em quantidade, em extensão, em números de manifestações, nem na profundidade do afeto que as pessoas foram revelando.

Nunca tinha visto nada nem de longe parecido, e tenho certeza de que nunca vou ver de novo. Porque Cecília Thompson é única.

“Não existia outra Cecília Thompson”, escreveu Alberto Villas, numa das muitas, muitas, muitas belas frases que os amigos dela escreveram hoje.

“Rara pessoa, mulher impossível, culta, e a mais inteligente de todas, acho eu, entre aquelas loucas e fulgurantes mulheres dos anos 60/ 70, fora das medidas”, escreveu Lucy Dias, ela mesma uma daquelas mulheres impossíveis, cultas, inteligentes, loucas e fulgurantes dos anos 60/70, sobre as quais escreveu um livro precioso, Anos 70 – Enquanto Corria a Barca.

“Eu sei o segredo de Cecília”, escreveu Carlos Marchi – e, diacho, dentro todas as belas frases de hoje, acho que a dele é a mais perfeita:

“Eu sei o segredo de Cecilia: ela era totalmente do bem. Não havia nela uma célula que fosse do mal. Por isso é tão querida.”

É a mais absoluta verdade. Não havia uma única célula do mal em Cecília Thompson. Cecília jamais quis mal a ninguém. Simplesmente não havia, na alma, no coração, no cérebro de Cecília nada, nadica que nada, que tivesse a ver com o Mal. Cecília era o Bem em si. Era, é, será sempre.

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Fiquei pensando hoje, depois que Mary me mostrou o post que o Francisco colocou ainda pela manhã na página da avó no Facebook, dando a notícia da morte, que conheci Cecília antes de começar a trabalhar no Jornal da Tarde. Antes de imaginar que viria algum dia a trabalhar em jornal. Ouvi falar dela através de Bibi Taterka, uma das primeiras paulistanas que conheci ao chegar à cidade, caipira de tudo, aos 18 anos, em 1968 – e por quem, claro, me apaixonei. Bibi, que me havia sido apresentada pelo meu amigo Marco Antônio Guimarães, era amicíssima de Elisabeth Bauch, com quem iria morar uns tempos numa república na Ladeira dos Aflitos, em Salvador – e Beth, por sua vez, era amicíssima de Cecília, vizinha de casa geminada.

Muitíssimos anos depois, quando às vezes conversávamos, já no prédio então “novo” do Estadão, na Marginal Tietê com Caetano Álvares, falamos dessas memórias antigas, essa ligação pré-jornal, que passava pela  Beth que fora vizinha dela e pela Bibi minha amiga – e falávamos também de Lucy Dias, com quem ela dividiu loucura, fulgurância e psicólogo.

Cecília gostava de histórias com coincidências, os caminhos que fazem as pessoas se cruzarem pelas estradas da vida.

Várias pessoas publicaram no Facebook uma foto deliciosa, maravilhosa, icônica, de Cecília meio que plantando uma bananeira em plena redação do vetusto matutino, como a gente gostava de chamar o jornalão. Cecília apoiada em suas próprias costas, no carpete da redação, as pernas para o ar.

É de fato maravilhosa, icônica, simbólica a foto: Cecília era uma mulher que se punha de pernas para o ar na redação do jornal mais sisudo que já houve nesta República.

Mas eu sei (e não sou só eu) que Cecília fez coisas ainda mais fantásticas dentro daquele prédio do que ficar de pernas pro ar no meio da redação. Cecília amou muito naquele prédio.

Cecília jamais deixou de ser uma jovem libertária do final dos anos 50, início dos 60, por mais que as décadas passassem.

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Achei maravilhosa também a frase do Mayrink, o grande José Maria Mayrink, no texto publicado no site do Estadão, o estadão.com.br que euzinho já dirigi: “Cecília teve duas grandes paixões na vida: Gianfrancesco Guarnieri e o Estadão”.

É maravilhosa, é verdadeira – provavelmente Guarnieri e o Estadão foram suas maiores, mais gigantescas, avassaladoras paixões. Mas Cecília foi uma mulher de muitas, muitas, muitas, muitas paixões. Os filhos Flávio e Paulo, é óbvio. Os netos. A netinha Camila Os filmes, os livros, o teatro. O jornalismo. Os leitores.

Jornalista em geral não gosta muito de leitor – leitor costuma nos parecer um nego chato, que telefona no meio do trabalho da gente, interrompe, faz perguntas, manda carta, pentelha. Cecília fez do atendimento ao leitor do Estadão uma arte, ao criar e cuidar da seção São Paulo Reclama. “Era como se fosse um filho dela”, disse hoje Roberto Gazzi, que foi editor de Cidades e depois editor-executivo do jornalão todo. “Ela cuidava com muita energia. E dali sugiram várias denúncias, a coluna gerou várias pautas que viraram matéria no jornal.”

A frase de Gazzi está na matéria que o estadao.com.br publicou. A matéria tem um início de frase engraçadíssimo: “O repórter especial do Estado José Maria Mayrink, contemporâneo de Cecilia desde o início da carreira – ele entrou no jornal em 77 e ela, em 75…”.

Meu, em 1975 eu mesmo tinha já 5 anos de jornalismo. Mayrink começou em 1962, no Correio de Minas, em Belo Horizonte. Quando eu entrei no JT, em 1970, Mayrink já era um absoluto veterano.

Não me lembro quando Cecília começou no jornal – mas tenho certeza de que foi muito antes de 1975.

Mas isso não importa tanto.

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A netinha Camila.

Nos últimos anos, Cecília e eu nos falávamos via Facebook, dois avós babantes. Cecília diversas vezes propôs que nos reuníssemos, ela, eu, Camila e Marina. Não rolou. Nunca vou me perdoar? Não sei. Paciência.

Agora, chegando a seu novo endereço, abraçando de novo enfim o filho Flávio, revendo Guarnieri, Cecília sem dúvida alguma deve ter notado o que eu notei, o que todo mundo deve ter notado: meu Deus do céu e também da Terra, como essa mulher é amada!

18/4/2019

2 Comentários para “Cecília Thompson”

  1. Perfeito, caro Servaz. Vc dedilhou e fez aquilo que muitos gostariam de fazer. Homenagem certa, no ponto certo. Obrigado.

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