Fujam para Samarra!

Por onde anda a morte? Disfarçada no capachinho de Trump, na rasteira solidez de Putin? Que morte rumina na paz de cemitério da geringonça? A morte será ainda a velha morte, a senhora de branco que, contou ele, uma noite visitou Álvaro Cunhal e logo foi embora? Ou anda por aí a nova morte, a saltitar em discursos de género, em tiroteios niilistas? Será fracturante a nova morte?

Antigamente, disse Boris Karloff, sabíamos que os Irmãos Marx nos faziam rir, Greta Garbo nos fazia chorar e Orlok nos fazia gritar. De medo, bem entendido. Foi o cinema que desenhou a silhueta de Orlok, no Nosferatu do alemão Murnau. Orlok saía do caixão pela calada da noite. Vinha, como sempre vêm os vampiros, chupar o sangue fresco da manada. Esse velho monstro, antecâmara da morte, tinha uma moral. Estava do lado do mal. Ir ao cinema era melhor do que ir à catequese: entrava-se cheio de dúvidas na sala escura e saía-se de lá, alma limpa, carregado de certezas. John Wayne era o bem, Nosferatu e o monstro de Frankenstein eram o mal.

O velho Boris Karloff confirma. Vejam Targets, filme de dois tostões que fez para Peter Bogdanovich, nos anos 60. Karloff regressa à pele que melhor lhe serve, a pele de Orlok. Já não é um vampiro, é agora essa outra forma de vampiro a que chamamos actor. Traz no rosto, que já foi rosto de Frankenstein, a marca da morte. Não admira, os 80 anos dele vêm acompanhados por um digníssimo enfisema e uma generosa artrite reumatóide. Mal se tem em pé e, quando não filma, sentam-no numa cadeira de rodas. Ouçam como Karloff respira: já só tem metade de um pulmão e, entre cenas, é preciso bombar-lhe oxigénio. Resume no seu corpo um século de filmes de terror e monstros e conta a dois jovens casais meio hippies esta história.

Um rico mercador de Bagdad mandou o servo ao mercado. No mercado o servo é empurrado, vira-se e vê a senhora de branco de Cunhal. É a morte, a fazer-lhe um gesto ameaçador. Foge, aterrado, e diz ao mercador: “Senhor, a morte ameaçou-me no mercado. Dá-me um cavalo para ir esconder-me em Samarra, onde a morte não me encontre.” O senhor assim faz. Vai depois falar à intempestiva morte: “Porque ameaçaste o meu servo?” A morte nega: “Não o ameacei. O meu gesto era de surpresa. Espantou-me vê-lo em Bagdad, por ter marcado um encontro com ele, esta noite, em Samarra.”

E hoje, fugimos para Samarra ou para Bagdad?

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

Targets, no Brasil, é Na Mira da Morte.

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