Favor não jogar gasolina na fogueira

Já faz muito tempo que o Brasil está dividido em duas porções que parecem cada vez mais irreconciliáveis – e é tanto tempo que agora nem é mais importante lembrar que foi um deles que chamou o país para a divisão, que clamou, e clamou muito, e insistentemente, pelo nós versus eles, o nós contra eles.

Já faz muito tempo que estamos mergulhados neste Fla x Flu – mas, cacete, poucas vezes senti os nervos tão à flor da pele quanto nestes dias que antecederam a sexta-feira da greve geral decretada pela banda lulo-petista.

Me assustei com a ferocidade com que a banda anti-PT – a minha banda – se manifestou no Facebook contra a greve.

As manifestações de inconformismo, de revolta contra a greve vieram num tom e numa quantidade muito surpreendentes.

***

Um detalhe pareceu pisar no calo das pessoas da minha banda, os anti-PT, e também os simplesmente não pró-PT: o fato de diversas escolas particulares terem aderido à greve. Não apenas os professores e funcionários – mas as escolas como um todo. Ora, diacho, greve de patrão não é greve, é locaute, é outra coisa completamente diferente.

Isso, esse pequeno detalhe, dentro do quadro geral, pareceu de fato ter sido uma nota estridente demais aos ouvidos dos não-petistas. Aos ouvidos dos anti-petistas, foi clarim chamando para a batalha.

Acho que o raciocínio foi meio assim: OK, é uma greve não propriamente contra as reformas. Tá, é contra as reformas também, muito especialmente contra o fim da contribuição sindical obrigatória, mas mais do que isso é uma greve a favor do PT, do Lula. É uma grande cartada, talvez uma das últimas, a última (afinal, sem o dinheiro da contribuição sindical obrigatória como vai se fazer pra pagar o sanduíche de mortadela, o fretamento dos ônibus?) para demonstrar a força da esquerda, da CUT, da UNE, do MST, do movimento sindical, dos “movimentos populares”.

Talvez a última grande demonstração de força para assustar a mídia o Judiciário a burguesia a zelite toda, e mostrar que se o Lula for preso o país pega fogo. Ah, aí pega fogo de vez.

Dentro da cabeça das pessoas não-petistas, e, claro, das anti-petistas, era mais ou menos isso: ah, é coisa dos sindicatos, então vão parar os metroviários, vão parar os motoristas e cobradores, vai ter as bandeiras vermelhas de sempre nos lugares de sempre, Avenida Paulista, Cinelândia, Praça Sete, Boca Maldita, e tal. Ah, claro, os bancários vão parar – mas que falta fazem os bancários, afinal? Nenhumíssima. Ah, vão parar os professores das escolas públicas, porque esses param sempre – mas algum dia no ano por acaso eles deixaram de parar?

Então isso estava na conta, estava no jogo.

Agora, quando as escolas particulares decidiram parar, aí foi demais.

Foi o exagero. Foi chegar no circo e roubar não um, mas todos os elefantes – e achar que ninguém iria reparar.

Péra lá: como assim?

Acho que foi mais ou menos isso o que aconteceu com milhares, milhares, milhares de pais e mães.

Péra lá: como assim?

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Foi absolutamente impressionante a quantidade de gente que, no Facebook, no Twitter, discutia essa coisa do locaute das escolas particulares.

No final da tarde desta quinta, 27/4, véspera da greve geral do lulo-petismo desesperado, uma amiga postou no Facebook esta carta de uma mãe à escola de seus dois filhos:

Prezada Direção Pedagógica,

Assim como a escola está concedendo o direito aos professores de aderirem a greve eu estou reivindicando o meu direito de não pagar por este dia de aula.

Sendo assim peço que no boleto de Maio venha descontado o valor de R$ 63,80 para o meu filho e R$ 51,00 para minha filha.

Não aceito a reposição de aula oferecida na emenda do feriado de 8 de setembro.

Saibam que o transtorno que me causará este dia sem aula será maior que o valor à ser restituído, porém como não existe uma forma objetiva de mensurar o meu prejuízo infelizmente não poderei pedir ressarcimento.

Não condeno os professores da rede pública que resolveram aderir à greve, pois estes são mal remunerados e tem um trabalho de risco, porém esta não é a realidade da nossa escola.

As reformas são necessárias para o país.

Querem protestar? Protestem de sábado e domingo como fizemos na época do impeachment da Presidente Dilma.

Querem protestar durante a semana? Excelente, Paguem por isso. Eu não vou pagar!

Certa de sua compreensão,

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Não sei se é uma autêntica carta de mãe de dois filhos à escola. Talvez seja. Não importa: o texto é um brilho. É de uma lógica absoluta, clara, límpida que nem água da fonte.

Se eu tivesse um filho numa escola que programou locaute para esta sexta, eu mandaria essa carta para a diretoria.

Descontar o dia de locaute na hora de pagar a mensalidade é um direito absolutamente legítimo. Assim como é absolutamente legítimo o direito de o cidadão fazer greve – da mesma forma como é absolutamente necessário que o cidadão compreenda que, como não trabalhou naquele dia ou naqueles dias, não vai receber por eles.

Pai e mãe não têm obrigação de pagar para a escola o dia em que ela optou por participar de uma greve, seja ela qual for, mais ainda, muito mais ainda quando é uma greve política, em defesa de um ex-presidente acusado de uma imensa série de crimes.

Isso é a lógica mais absoluta, mais clara, mais límpida que há.

Quem não consegue entender que isso é a lógica mais absoluta, mais clara, mais límpida que há… Bem, não há o que conversar com essas pessoas. É perda de tempo. PT: “Perca” total.

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Poucas vezes post meu no Facebook encontrou reação tão calorosa e maciça quanto aquele que transcrevia o texto da carta.

As pessoas que pagam mensalidades caríssimas para seus filhos estudarem nas boas escolas particulares estão muito, mas muito furiosas – e demonstraram isso.

Quis registrar aqui este fenômeno. Estes fenômenos – o de que nunca tinha visto tal nível de exacerbação dos dois lados do Fla x Flu. E o de que a coisa das escolas tocou fundo.

E também quis registrar que tenho muito medo do que vá acontecer nas ruas do país daqui a pouco.

Fiz um post no Facebook (sempre ele) em que tentei expressar isso que é muito mais que preocupação – é medo mesmo:

 

Como conselho, sugestão, essas coisas são de graça, lá vai.

Aos amigos que vão trabalhar nesta sexta-feria, e poderão encontrar pela frente os pelotões de grevistas, eu sugeriria: tenham especial cuidado.

Não queiram responder, argumentar, discutir, brigar, xingar.

Evitem de todas as formas criar atritos.

Há grande chance de os nervos do pessoal da greve estarem à flor da pele. Pólvora à solta. Não, mais: nitroglicerina pura à solta. Todo cuidado é pouco para não acender fósforo, criar faísca.

É muito sério, amigos.

 

Minha amiga Márcia Velloso usou menos palavras para dizer a mesma coisa:

Todo cuidado é pouco. O PT e assemelhados estão doidos por um mártir. Não aceitem provocações! Fujam de vandalismo!

28/4/2017, 2h20

4 Comentários para “Favor não jogar gasolina na fogueira”

  1. Tá mais para Fla x Madureira, pela quantidade de gente que restou apoiando a quadrilha petista. Essa foi a mais diminuta greve gigante da história. Depois do assalto bilionário à Petrobrás e ao BNDES, depois da inflação descontrolada, dos 13 milhões de desempregados e 54 milhões de endividados que o PT provocou com sua bolha de consumo eleitoreira, quem ainda tem coragem de sair às ruas com a CUT? Essa turma que está aguardando na fila do Minha Cela Minha Vida não consegue mais enganar multidões.

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