De bobo o Bobo da Corte não tem nada

Estamos sempre associando os Bobos da Corte ao divertimento, às palhaçadas, às gargalhadas, ao prazer que davam ao rei com suas piadas e brincadeiras. Mas esse não era seu principal papel, segundo o grande filósofo do século XVI Erasmo de Rotterdam: o bobo era quem contava ao rei o que ninguém queria que o rei ficasse sabendo, ele era o espelho de todo o grotesco dos hábitos da Corte.

Erasmo diz que para o papel de Bobo da Corte os reis preferiam os homens de espírito aos otários. O que contrariava a Corte, por suposto…

Feste, o bobo sábio de William Shakespeare em sua comédia Noite de Reis, é quem tem as falas mais importantes da peça. É ele quem diz a verdade não apenas para os outros personagens, como para a platéia.

Em Rei Lear, o bufão não tem nome, ele é simplesmente Fool. Desde o início da grande tragédia, ele vê as filhas do rei como elas realmente são e prevê que a decisão final do rei será desastrosa.

Como disse outro brilhante escritor, um dos maiores do século XX, Isaac Asimov, em seu Guia para ler Shakespeare: “Esse é, evidentemente, o grande segredo do Bobo bem sucedido – ele não tem nada de bobo”.

Marcelo Odebrecht, o herdeiro da maior empresa do Brasil, e que não tem nada de bobo, disse em seu depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral sobre as doações de sua empresa à chapa Dilma-Temer, eleita em 2014: “Eu não era o dono do governo, eu era o otário do governo. Eu era o bobo da corte do governo”.

Ele pensa que vai nos confundir com as palavras. Bobo da Corte é o bufão, o jester dos ingleses. Foi vertido para o português como Bobo da Corte por conta de suas anedotas, danças e piruetas. Uma tradução… boba. Mas o que não quer dizer que fosse bobo no sentido de tolo, de pouco inteligente.

Assim como Marcelo Odebrecht não é nada bobo, nem engraçado como os jesters das cortes européias. Ele era, sim, o cara com a caneta mais cheia de tinta do Brasil. O príncipe dos empreiteiros, o que fazia chover dinheiro nos bolsos da Corte.

Bobo, o preso que está controlando perfeitamente sua prisão e seu processo? Conta outra, seu Marcelo. Essa não cola. Na verdade, você foi otário, sim, ao se deixar vencer pela ambição desvairada. Mas isso não quer dizer que tivesse sido o Bobo da Corte. Foi, sim, o dono do governo, o sujeito de quem a Corte dependia para suas tratantadas.

Nem a desculpa de não saber bem o que quer dizer Bobo da Corte você tem. Afinal, neto e filho de homens ricos, imagino que tenha tido uma boa instrução e que soubesse muito bem qual o verdadeiro papel do Bobo da Corte. Pelo menos agora vai ficar sabendo, não é? As delações são as falas dos Bobos da Corte sobre a verdade dos fatos.

O diabo é que, em nossa Corte, só a metade da verdade é verdadeira. E a metade que é verdadeira vive trocando de lado com a metade que é falsa. Fica complicado, não é? Mas nós, os que nunca pisamos nos tapetes da Corte, e que já estamos cansados de esperar pelas revelações das delações, não vamos aceitar esses vazamentos que insinuam mas não provam. Queremos a verdade inteira, completa, despida de toda e qualquer fantasia.

O Brasil precisa andar!

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 3/3/2017. 

4 Comentários para “De bobo o Bobo da Corte não tem nada”

  1. É o bobo nos fazendo de bobos.
    Queremos a verdade inteira, completa, despida de toda e qualquer fantasia.
    O Brasil precisa andar!
    Vamos deixar de ser bobos.

  2. O pior é que até a França entrou na conspiração contra o nosso perseguido Lula. Estão dizendo no Le Monde, o PIG de lá, que a polícia francesa tem provas concretas de que aquele carnaval de Lula e Cabral comemorando a escolha do Rio para as Olimpíadas foi fruto de suborno. Não posso acreditar. Lula e Cabral seriam capazes de fazer uma coisa dessas? Acho que não passa de pura perseguição política do governo de extrema-direita do François Holland.

  3. O país quer a verdade inteira, completa, sem qualquer fantasia.

    “A imprensa é instrumento fundamental da democracia. Usada por quem não é criterioso presta um mau serviço ao país”, escreveu FHC em nota.

    Aos bobos esclarece:
    “Há uma diferença entre quem recebeu recursos de caixa dois para financiamento de atividades político-eleitorais, erro que precisa ser reconhecido, reparado ou punido, daquele que obteve recursos para enriquecimento pessoal, crime puro e simples de corrupção”
    Fernando Henrique Cardoso ex-presidente da República

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