Ou levam grana, ou a cabeça não está bem

Quem continua hoje apoiando o lulo-quadrilhismo, ou bem leva grana, ou é doente, deveria ver um psiquiatra ou um psicólogo algumas vezes por semana.

Em um texto de apenas quatro parágrafos, o cineasta José Padilha respondeu, com um brilhantismo incrível, a uma questão que todas as pessoas que tiveram a oportunidade de estudar um pouco, e são do bem, se fazem: por que, afinal, ainda há gente que apóia o PT?

Quatro parágrafos, 34 linhas, segundo o contador de palavras do Word.

Que fantástica capacidade de síntese tem esse cineasta tão premiado tanto em festivais quanto nas bilheterias.

Como, muito ao contrário, não possuo absolutamente nada de capacidade de síntese, me lembro aqui da famosa greve dos jornalistas de São Paulo em 1979. As assembléias em que discutíamos a proposta de greve duravam umas seis horas. Na assembléia do Tuca, só Eduardo Suplicy falou durante uma boa meia hora, ou mais.

Logo rolou a informação de que Lula ria dos companheiros jornalistas, por serem palavrosos demais. As assembléias dos metalúrgicos no Estádio de Vila Euclides jamais passavam de uma hora – e a fala dele, o emergente grande líder do Sindicado do ABC, jamais passava de dez minutos.

Não precisava mais. Tinha que ser curto e grosso.

Na sexta-feira, 4 de março, Lula falou mais de 20 minutos, na sede do PT no centro de São Paulo, logo depois de sair do interrogatório da Polícia Federal. Levou mais de 20 minutos para cuspir perdigotos, fel, ódio e uma danada de uma esperteza de quem foi dotado de boa oratória. Não respondeu a questão alguma, mas fez um monte de bravatas e conclamou seu povo à luta.

Das assembléias da Vila Euclides até o discurso pós interrogatório da PF, Lula parece ter percorrido o caminho inverso do que ele, sindicalista, em 1979, recomendava aos companheiros jornalistas.

Passou do sintético ao verborrágico.

Passou de muitas coisas a outras coisas, ao longo destas décadas.

Passou de paladino da moralidade, do fazer diferente de tudo isso que está aí, a chefe da maior e mais poderosas quadrilha de assaltantes que já houve neste país – ou talvez no universo inteiro.

As pessoas que o conheceram de perto, ou que são mais sagazes, mais inteligentes, têm uma percepção mais nítida das coisas, como por exemplo o jornalista José Nêumanne Pinto, e uma marxista francesa de primeira hora que amigos meus muito íntimos conheceram – para citar só dois exemplos, o de um famoso e o de uma anônima – a essas Lula jamais enganou. Essas pessoas sempre perceberam o que Lula sempre foi: um espertalhão, um príncipe da oratória dirigida a quem tem pouco conhecimento das coisas, um mago, um ilusionista, um mentiroso.

Um sujeito que sempre quis vencer na vida e se dar bem e se locupletar – e que percebeu que o discurso digamos assim, esquerdista, pegava bem.

Lula jamais foi de esquerda. Jamais foi socialista, comunista, marxista, leninista. Nem sabe o que qualquer uma dessas coisas significa. Lula é  e sempre foi lulista – como diz que quando jovem teve farinha pouca, agora quer todo o pirão no seu prato primeiro. Só isso.

É um bom orador, um ilusionista, safado e espertalhão como poucos que já pisaram a casca do planeta.

***

Ao longo dos últimos 11 anos, desde 2005, quando estourou o mensalão, a cada dia surgem as mais claras evidências da bandidagem que tomou conta do governo e das empresas estatais.

E, no entanto, depois de 11 anos, ainda há lulo-petistas, gente que vai às ruas ou aos meios de comunicação defender a quadrilha, e dizer que a quadrilha não é quadrilha, e o o grande, o melhor presidente de todos os tempos promoveu distribuição de renda, botou pobre na faculdade, botou pobre nos aviões, e blá-blá-blá, aquele papo todo pra boi dormir.

E então as pessoas que tiveram a oportunidade de estudar um pouco, e são do bem, se questionam: por quê? O que explica esse estranhíssimo fenômeno?

José Padilha responde com brilho em apenas 4 parágrafos, apenas 34 linhas.

Como sou jornalista, palavroso, não possuo o dom da síntese, gastei mais de 60 linhas como introito ao artigo que José Padilha publicou neste domingo, dia 6, em O Globo.

Sou um sujeito das pretinhas, das teclas, das palavras, nunca de câmara. Jamais saberia fazer o que José Padilha faz com a câmara. Mas tenho uma danada de uma inveja do que ele fez com as palavras neste texto abaixo.

Lula, Freud e o futuro da esquerda

Artigo de José Padilha em O Globo, 6/3/2016.

‘Se um paciente inteligente rejeita uma sugestão de forma irracional, então a sua lógica imperfeita é evidência da existência de um forte motivo para a sua rejeição.” Sigmund Freud.

Não resta a menor dúvida, para qualquer pessoa minimamente razoável, de que o Partido dos Trabalhadores e seus principais dirigentes — entre eles José Dirceu, Antônio Palocci, João Vaccari e Luiz Inácio Lula da Silva — estruturaram uma organização criminosa com o apoio de outras facções da política brasileira (facção se aplica melhor à nossa realidade do que partido) com o objetivo precípuo de se perpetuar no poder. Para tal, desviaram recursos de empresas estatais, de bancos públicos e de fundos de pensão, se associaram a grupos de empreiteiros mafiosos, utilizaram laranjas, marqueteiros e doleiros em larga escala, fraudaram o processo eleitoral com recursos provenientes de corrupção e fizeram políticas públicas totalmente irresponsáveis, levando o Brasil à bancarrota. Não resta dúvida também, como disse o capitão Nascimento em Tropa de Elite, que “quem rouba para o sistema também rouba para família”. Isto está claro e transparente — como a luz que incide na cobertura 164 A do único edifício pronto no condomínio Solaris.

No entanto, ainda há quem tente negar a realidade revelada no processo do mensalão e nas provas e testemunhos das operações Lava-Jato e Zelotes. O que nos leva de volta a Sigmund Freud: por qual motivo há tanta relutância por parte da esquerda em encarar a realidade que lhes foi exposta ao longo dos últimos anos? A explicação é dupla. No caso da militância profissional, da UNE, da CUT e do MST, se aplica a máxima de Upton Sinclair, famoso escritor americano: “É difícil fazer com que alguém entenda algo quando o seu salário depende do não entendimento deste algo.”

Mas o que dizer dos intelectuais e artistas que não recebem salários por sua “militância”? No caso deles, não se trata de grana, mas de uma questão psicoanalítica. Investiram as suas vidas e reputações em posições pró Lula e pró PT. Agora, não suportam reconhecer o erro que cometeram por uma questão de autoimagem. Freud e sua filha Anna chamaram este fenômeno de negação. Trata-se de uma defesa contra realidades externas que ameaçam o ego. Saber lidar com a negação me parece ser a questão básica para a sobrevivência.

6/3/2016

4 Comentários para “Ou levam grana, ou a cabeça não está bem”

  1. Muito bom o texto de José Padilha que procura entender como artistas e intelectuais teimam em não renegar o PT.
    Padilha acerta no que vê, UNE, CUT e MST mas erra quando não vê O GLOBO, O ESTADO, FOLHA E VEJA afinal a militância assalariada.
    Sua “câmera” retratou bem o discurso na “câmara” do Capitão Nascimento:“quem rouba para o sistema também rouba para família”.
    Muito boa a compilação do texto, parabéns ao compilador um trabalho tão bom como o que Padilha faz com a “CÂMERA”!

    PS. dia 13 não vou às ruas nego-me a apanhar ou bater de coxinhas.

  2. Mesmo sem uma câmera na mão, Sérgio Vaz, ando com uma idéia esquisita na cabeça: treino é treino, jogo é jogo. Quero dizer com isso que a “coercitiva” do Lula pode ter sido apenas um ensaio para a sua prisão de verdade. Assistindo pela TV, achei, imediatamente, que estava tudo meio fora da ordem. Levá-lo “debaixo de vara” para responder àquelas perguntinhas me pareceu inteiramente desnecessário. Levá-lo justamente para o aeroporto, com aquelas paredes de vidro, foi, mais do que inadequado, muito arriscado. A única coisa que segurou os militantes mais exaltados foi a informação de que não se tratava de uma prisão e que ele seria liberado logo depois. Ando encasquetando que o verdadeiro objetivo foi não só ensaiar a entrada no apartamento dele, como a sua condução para o aeroporto e o embarque imediato para Curitiba. Aquele negócio de definir a melhor rota, cronometrar os minutos necessários, etc. Outro objetivo pode ter sido medir a temperatura das ruas, a aprovação ou reprovação, enfim, a intensidade da reação popular à prisão de Lula. A reação irada da militância, tanto a remunerada quanto a hipnotizada, já era prevista. O que não se sabia era quanto tempo eles demorariam para reagir e até que ponto conseguiriam atrapalhar a operação.
    O tumulto no aeroporto pareceu premeditado, com o intuito de testar um eventual esquema de segurança para o dia do jogo. Aquelas pessoas nunca teriam a mesma facilidade de acesso se o interrogatório tivesse acontecido nas dependências da sede da Polícia Federal em São Paulo. Mas lá não pousam aviões. O fato de ele ter sido levado justamente para a Estação de Autoridades do aeroporto e, poucos minutos depois, pousar ali em frente um avião vazio da FAB, me deixou com idéias um tanto cinematográficas.
    O Reinaldo Azevedo comentou no rádio que pode ter sido uma tentativa frustrada de levar Lula para Curitiba. Não achei verossímel. A Polícia Federal teve bastante tempo para efetuar o embarque, sem nenhum tipo de obstáculo. A militância demorou demais a chegar em frente à casa de Lula e ao aeroporto. E isso, mesmo com o vazamento – proposital ou não – que permitiu a Lula e ao PT saberem antecipadamente da operação. Improvisações no dia da prisão de Lula não são nada recomendáveis. Além disso, acho que ainda é cedo para a cena final. Acredito que o estrategista Moro espera ter em mãos provas numerosas e totalmente irrefutáveis. Ele não precisa de provas capazes de convencer a mim ou a você, Sérgio Vaz. Para não criar um mártir, precisa de provas capazes de convencer até convertidos, como alguns que tão bem conhecemos.

  3. Sérgio, em primeiro lugar, o texto do Padilha é excelente mesmo. Coincidentemente, escrevi em 03/03 último um posto “Síndrome do Patinho”, cujo fragmento colaciono: “…Mas vejo, também, no comportamento dessas pessoas uma espécie de Síndrome de Estocolmo, uma doença ou estado psicológico que assolou esses petistas, submetidos que foram a um tempo prolongado de intimidação (no caso, enganação) e, por isso, passam a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade ao seu agressor.
    Ou, quem sabe – e aqui eu vou criar -, uma “Síndrome do Patinho”, algo como o estado psicológico que impede uma pessoa de assumir que, por um longo tempo, foi tão facilmente enganada por um estelionatário e não quer contar para ninguém, de forma que nunca descubram sua idiotice!…”
    No que pertine à condução coercitiva de Lula, adiro à opinião de que se tratou de uma espécie de “rehearsal”. A eleição das dependências de Congonhas é bastante indicativa. Não houve prisão, mas, aos olhos da militância isto é o que ocorreu e isso deu à operação custo e risco muito altos. Deu um pouco de combustível à militância… mas nada que novas revelações decorrentes da delações premiadas não arrefeçam os ânimos desses militantes. Apenas para rechear alguns aspectos do assunto, é de se observar que o juiz Sérgio Moro está sendo absolutamente cuidadoso. Lula somente foi instado a depor após 23 operações! A decisão que deferiu o pedido do MPF de ouvir Lula foi um primor em termos cautelosos. A condução coercitiva foi deferida apenas como medida subsidiária a uma eventual negativa de Lula ir depor. Em tempo, o termo “Patinho” refere-se à expressão “caiu como um patinho” (confidence trick). Um abraço.

  4. A hipótese que você levanta, Luiz Carlos, tem toda lógica. Eu não tinha ainda pensado nisso, nem ouvido essa hipótese antes. Mas, sem dúvida, tem todo sentido.
    Volney, é excelente o trecho do seu texto que você enviou. Muito bom mesmo.
    Um abraço a vocês e ao Miltinho anticoxinha.
    Sérgio

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