O analógico e o digital

1 – O senhor Fábio Leite de Moura Fonseca se mostrava um homem feliz, quando o entrevistei, em algum dia de 2013. Era quem cuidava do grande relógio do Mosteiro de São Bento, no centro paulistano. Trazia ajustado e azeitado o maquinário em vias de completar cem anos (1914), fabricado por J.Mannhardt, de Munique.

Seu único pequeno desprazer é que o relógio teimava em atrasar: 15 segundos por ano.

De resto, a cada quarto de hora dois anjos de ferro se moviam à vista de quem estivesse na calçada, com um martelo na mão. Batiam cada um em um sino. O primeiro produzia um dim, o outro um dom. Imediatamente, na torre direita, um sino de uma tonelada, o São Miguel, batia um DOM. Dim-dom DOM.

Para a hora cheia, enorme martelo acertava o Cantabona, um sino de sete toneladas, com um badalo do tamanho de uma bola de boliche.

É assim, até hoje. Não sei se Fábio Leite ainda zela pelo que na verdade é um carrilhão composto por três trens (conjuntos) de engrenagem. Mas sua vantagem, no trabalho, é que todo o mecanismo está à vista. Vê no que precisa mexer.

O primeiro trem faz o Cantabona dar a hora cheia. O segundo, funcionar a máquina e os ponteiros. O terceiro, a batida dos quartos de hora. Não precisa dar corda. Um cabo de aço vai sendo desenrolado pela força de um peso à ponta. Quando chega ao fim, o motor de 1914 rebobina o cabo.

2 – Agora imaginem o seguinte: Fábio Leite terminou o trabalho e foi para a casa. Está tomando um refresco, descansado, quando a luz pisca. Um segundo sem luz desarranjou os relógios do micro-ondas, do fogão, da cabeceira da cama (e não estamos falando no do carro, no horário de verão).

Fábio é um relojoeiro de primeira, mas será que se dá bem com o mundo digital? Saberá o que fazer quando premir a figura do reloginho e ela começar a piscar?

Se tiver a habilidade de seu entrevistador, é capaz de pôr o micro-ondas a cozinhar uma carne, enquanto tenta ajustar a hora – sem a carne.

O relógio do fogão, aqui em casa, marca a hora errada, porque nunca foi possível entender como se ajusta. Da minha parte, preferia dispensar a modernidade dos relógios digitais, e ter sobre a cristaleira dois anjinhos dando os quartos de hora. Dim dom.

No terraço do apartamento, um peso cairia sobre um latão de óleo vazio emborcado: DOM. Os vizinhos podiam estranhar, mas morador excêntrico sempre foi fator de risco.

Fevereiro de 2016

 

6 Comentários para “O analógico e o digital”

  1. Meu avô me deixou um carrilhão, analógico, de corda, que a cada 15 minutos descarrilhava, com atraso de 1 minuto a cada hora.
    O som do descarrilho incomodava minha mulher, meu filho, meus vizinhos do apartamento ao lado. Fui obrigado a depositá-lo num suporte físico, apenas como enfeite, sem dar corda.
    O som do carrilhão lembrava que eu estava vivo, hoje corro atrás dos relógios para lembar que vivo estou,

  2. Sr. Valdir Sanches, obrigado pelo belo texto. Quanto a mim, continuo sim mantendo em funcionamento o relógio da torre do Mosteiro de São Bento. Aliás, hoje termina o horário de verão, farei logo mais uma visita ao mecanismo para ajustar o novo horário.

  3. Miltinho, fiquei com água na boca de ter um carrilhão desses, mesmo que para ficar mudo. Quando meu pai morreu, deixou um “cebolão” de bolso, que tinha sido do meu avô. Mas minha irmã chegou primeiro e deu para o filho dela, meu sobrinho.
    Pelo menos ficou em família…
    Fábio, agradeço por seu generoso comentário. Se não estivesse aposentado, proporia a bela matéria da centenária máquina sendo ajustada para o horário de verão.
    Isso se o jornal se interessasse. Hoje o espaço para belas matérias é escasso.

  4. Valdir realmente o espaço está escasso.
    Mas você bem que poderia fazer uma matéria com o Fábio. D~e uma folga a sua aposentadoria e dê corda ao seu velho carrilhão torácico que pelo jeito continua batendo forte e no ritmo.
    50 anos é seu espaço e a leitura garantida.

  5. Miltinho, é verdade, estou com a corda toda. Vou ver com o Sérgio Vaz quanto ele me paga nesse free lance.
    Com a palavra, Sérgio.

  6. Bem, posso pagar com um jantarzinho aqui em casa, para você e dona Haydée… Com direito, claro, a uns uisquinhos…
    O que você acha, Valdir?
    Um abraço.
    Sérgio

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