Marina e o mundo todo

– “Quem é aquele vovô?”, Marina perguntou para a mãe quando o carro, na Rua Caiubi, estava para cruzar a Iperoig.

Eu vinha pela Iperoig, a pé. Fê e Marina vinham pela Caiubi da casa da Bisa, onde tinham passado a tarde de domingo, como costumam fazer. Foi agorinha há pouco, não mais que uma hora atrás.

Eu tinha parado pouco antes da esquina para tirar fotos das árvores da minha rua, para fazer um albinho em comemoração do aniversário de São Paulo, amanhã. Tinha deixado os dois sacos plásticos do supermercado no chão para tirar as fotos, depois tinha pego de novo e dado uns três passos rumo à Caiubi.

2015-01 - Dia 24 - 1472254 - 720p

No carro da mãe, que vinha pela Caiubi, a cadeira de Marina, muito boa, é bem alta, e ela enxerga tudo o que está à frente. Diferente da cadeira que ficou no nosso carro, que é baixa – Marina não gosta muito dela porque sua visão das coisas da rua fica prejudicada.

– “Quem é aquele vovô?”, ela perguntou – e só depois que ela perguntou foi que a Fê viu o pai dela, suadão terminando caminhada de quase uma hora pelo bairro, com parada no supermercado.

Fê ria demais quando parou o carro e repetiu para mim a pergunta que Marina tinha feito.

Meti a cara pra dentro do carro, sorri pra Marina, ela sorriu pra mim.

2016-01 - Marina dia 24Sabia que a Fê estava cansada, depois de tarde que incluiu shopping com a avó e com a filha (olha aí ela lindinha em foto feita pela mãe), e não teria sentido falar com elas para subirem para uma visita. Fê confirmou que estava cansada demais, e aí falei tchau pra Marina – mas ela não respondeu. Ela tem disso: quando não quer ir embora, ou não quer que a pessoa vá embora, fecha a carinha fofa e se recusa a despedir. O pai fica bravo, diz que é falta de educação, mas ela se recusa.

É gregária, gosta de todo mundo junto; é grudentinha, e não aprova despedidas.

Não deve ter entendido muito bem aquele encontro: como assim, está vindo da Bisa e de repente está ali no meio do caminho um vovô? Tinha um vovô no meio do caminho, no meio do caminho tinha um vovô?

Nós, adultos, nunca conseguimos compreender muito bem o que são as coincidências da vida – como será que a cabecinha linda de Marina, 2 anos e 10 meses, processou esse encontro esquisito, que durou menos de 3 minutos, em que não teve brincadeira, não teve papo, não teve historinha, não teve balanço, não teve escorrega, não teve piquenique?

O que será que ela quis dizer quando fez a pergunta esquisita – “Quem é aquele vovô?” Será que queria dizer: – “Ué, mas aquele não é o vovô?”

Vai saber…

O que foi que ela disse para a mãe, no resto do caminho, e ao chegar em casa, sobre isso? Ou não disse absolutamente nada?

Vai saber…

***

O que sinto é uma danada de alegria por estarmos tão perto uns dos outros, não mais que sete quadras entre uma casa e outra, entre um morro e o outro com um vale no meio, e acontece até mesmo de num final de tarde de domingo Marina se assustar ao ver um vovô no meio da rua – quem é aquele vovô?

Tem que agradecer sempre, sempre, ao Santo Dani.

Uma danada de uma alegria por morar nesta cidade que amanhã faz aniversário, bem no dia em que a mãe da minha filha faria aniversário também.

Quando era bem garoto, adolescente de tudo, fiquei absolutamente encantado com uma frase que está em Justine, de Lawrence Durrell: “A city becomes a world when one loves one of its inhabitants”.

Diacho, o que é a memória. Escrevi a frase e fui checar; encontrei o livro, logo, é claro. Uma edição de bolso que – vergonha absoluta – pertencia à biblioteca da Fafich, tem lá carimbos provando isso, e, na página de abertura, meu nome inteiro, o da cidade em que cresci e que então era meu mundo, Belo Horizonte, e a data, o ano em que eu tinha 15. A frase é exatamente essa, sem tirar nem por uma sílaba.

São Paulo é como o mundo todo, dizia o Caetano. São Paulo é o mundo todo: aqui estão as pessoas que eu amo – bem, quase todas. Minhas três meninas estão bem pertinho, as duas mais novas num raio de não mais que sete quadras.

São Paulo me deu régua, compasso, a melhor filha que alguém poderia esperar, uma neta que é do sonho mais sonhático.

Seria possível não amar esta cidade?

24 de janeiro de 2015, poucas horas antes de São Paulo fazer 462 anos. 

3 Comentários para “Marina e o mundo todo”

  1. Texto bonito e poético. Também ri aqui com a Marina e o “Quem é aquele vovô?”. =)

  2. “A cidade torna-se um mundo quando se ama um de seus habitantes”.
    Parabéns sampa! ANDREA prefeito?

  3. E o mundo da Marina, qual será? creio que é aquele em que se encontra um vovô suado, que ela nao quer que vai embora e uma mamãe risonha. O mundo do momento. Seu mundinho.
    O mundo da sua vida vai sendo criado aos poucos.

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