Um lobo para o A-PV

With her husband, "Revolutionary Road" director Sam Mendes, right, Kate Winslet poses with awards for best actress drama for “Revolutionary Road” and supporting actress for “The Reader” backstage at the 66th Annual Golden Globe Awards on Sunday, Jan. 11, 2009, in Beverly Hills, Calif. (AP Photo/Mark J. Terrill)

Estremeço. Estremeci com o BPN, depois com o BES, agora com o Banif. Temo que, esquecido, Alves dos Reis perca o lugar no pódio dos nossos maiores burlões. António-Pedro Vasconcelos, tu que sabes o que são personagens, como bem se vê no “Amor Impossível”, faz dele, à Scorsese, o lobo de um filme teu!

Alves dos Reis, falida a funerária do pai, foi para Angola e fez-se passar por engenheiro. Para esse nobre efeito forjou diploma de uma inexistente escola de Oxford, onde nunca se dignou ir às aulas. Agora não é novidade. Era, então, a primeira vez. Comprou empresas com cheques sem cobertura, que cobria com o dinheiro sacado às empresas adquiridas. Ter-se-á distraído: a sua irresistível biografia dá-o preso, no Porto, em Julho de 1924.

A sabática na prisão inspirou-o. Inventou um contrato com o Banco de Portugal, que o autorizava a fazer notas em empresa licenciada pelo próprio Banco. O contrato era falso; as notas, traidoras como Judas, eram irrepreensivelmente iguais às verdadeiras. E gordas: 500 escudos com a efígie de Vasco da Gama.

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Gama chegara à Índia, Reis achou o caminho para a fortuna. Com a cumplicidade de banqueiros holandeses, espiões alemães, empresas britânicas e diplomatas portugueses, o que falsificou chegou a 1% do PIB nacional. Mas se Vénus o protegia, como protegera o Gama, algum deus lhe falhou – talvez Mercúrio, rei dos ladrões – e o jornal O Século, no final de 1925, denuncia o caso em prosa impiedosa. Alves do Reis é preso. Cumpriu 20 anos. Ao sair, propuseram-lhe emprego num banco, área em que, irrevogavelmente, era especialista. Faltou-lhe sentido de humor e não aceitou.

Há dias, no Expresso, o Pedro e a Isabel explicaram como “os bancos destruíram 40 mil milhões” debaixo do nariz de Portugal, e o meu coração, que se comove com as histórias de infâmia de um Borges, entrou em arritmia. Ainda me cai o santo do altar. Com a falta de memória dos dias de hoje, queres ver que acreditam que uns reles gananciosos se comparam ao artista imaginativo, ciente da ousadia poética dos seus golpes, que era Alves dos Reis?

Morreu e lia-se no epitáfio do The Economist: “… por repreensíveis que fossem os seus motivos, fez a Portugal um bom serviço, de acordo com os melhores princípios keynesianos.” É mais do que pode dizer-se de muita gente honesta.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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