Você me paga, Cabeça de Cone

Desconfiado, ele não parecia muito interessado em nascer. Ainda mais num hospital público de Brasília, com os médicos em pé de guerra contra o médico Agnelo Queiroz, o ex-governador do PT que produziu um rombo de R$ 3,5 bilhões nas finanças do DF, deixando funcionários públicos e fornecedores do governo sem receber um tostão há meses.

Satisfeito com a sua atual localização, ele resolveu, bem na hora do parto, usar a artimanha de impedir que os médicos ouvissem qualquer batimento do seu coraçãozinho dentro da barriga da mamãe. O truque deixou de olhos arregalados aqueles sujeitos bobalhões, que insistiam em desalojá-lo de onde morou confortavemente por oito meses.

Depois do susto do coraçãozinho silencioso, ficamos sabendo que ele nasceu quase a fórceps. E com um galo na cabeça. Mas as piores notícias viriam mesmo a seguir. Todas enviadas clandestinamente por minha mulher, Nina, de dentro da ala da maternidade, onde o hospital proíbe terminantemente a entrada de celulares.

Ela era nossa agente infiltrada na maternidade, com a missão proporcionar ao menino uma chegada menos traumática a este planeta. Quando descobri que minha sobrinha Gabi, de 21 anos, uma bonita loirinha de olhos verdes, filha do meu irmão do meio, estava no bendito hospital aguardando um parto difícil, comecei a roer as unhas. Agnelo Queiroz, conhecido por suas caríssimas e hollywoodianas propagandas sobre o sistema de saúde brasiliense, tinha deixado os hospitais também sem remédios, materiais básicos e faltando comida. Até as marcações de consultas chegaram a ser interrompidas, pois a internet foi cortada por falta de pagamento. Sem falar no total colapso dos outros serviços públicos.

Como de hábito, lá foi correndo minha mulher, que, com sua calma impressionante, consegue resolver tudo, mesmo nas horas mais difíceis. Além disso, ela e Gabi sempre se trataram como se fossem mãe e filha, apesar de não terem qualquer laço consanguíneo. Não se sabe como, acabou sendo recebida pela direção do hospital. E, depois da compreensível recusa do pai do menino, foi ela quem prontamente aceitou o convite para assistir ao parto. Mas nada de celulares lá em cima, é claro.

Clara também foi a constatação de que aqueles amadores da segurança não foram páreo para Nina. O sutiã é um bom esconderijo e as notícias começaram a chegar aos borbotões. Só que más notícias. Más notícias da cidade de Agnello, o comunista que arruinou Brasília e foi embora com a família para Miami.

A ligação clandestina seguinte informou que o garoto tinha nascido com o que os médicos denominavam cabeça de cone. Cabeça de quê? Rapidamente ela explicou que a cabeça não era redonda, mas muito, muito alongada para cima. Antes que eu pudesse fazer qualquer pergunta, precisou desligar para não ser descoberta.

Meia hora de suspense depois, via WhatsApp, esclareceu que isso é normal em partos complicados. E que, segundo os médicos, em alguns dias o cone voltaria ao formato de cabeça. Será? Por via das dúvidas, começamos a nos referir ao garoto sempre como Cabeça de Cone. Mas ficamos aliviados com a informação de que a equipe médica era melhor do que supunha o nosso pessimismo.

Porém não demorou muito para a turma de fora receber outra má notícia: o menino era amarelo, muito amarelo. Fiquei conhecendo então a tal de icterícia, que obrigou Cabeça de Cone ficar tomando banhos de luz, com a alta sendo adiada por mais dois dias.

Além de amarelo e cabeça de cone, clavícula quebrada. A fratura aconteceu durante o parto. Mas somente descobriram dois dias depois. Foi simplemente isso que o telefonema seguinte informou a este ex-fumante, que ainda evita jogos do Botafogo e outras emoções fortes, para não correr o risco de retornar a um vício que tem o stress como gatilho. Bem, seria exigir demais, vociferei revoltado: se não conseguem nem perceber uma intensa linha de comunicação atuando clandestinamente dentro da maternidade, como iriam notar que quebraram a clavícula de um bebê?

Avisaram, afinal, que a clavícula estava “bem alinhada”, sem necessidade de enfaixar, com previsão de ficar boa em sete dias. Isso considerando que um recém-nascido fica deitado quietinho a maior parte do tempo. Não se mexa, Cabeça de Cone!

Terminou? Não, claro que não. Ao tirar um raio X da clavícula esquerda quebrada, não visualizaram o coração. Ou pelo menos foi o que entendemos, graças à ligação quase inaudível, feita aos sussurros. Será por isso que não ouviam os batimentos dentro da barriga? Seria tão ardiloso esse Cabeça de Cone, a ponto de esconder o próprio coração? Mas logo acharam o coraçãozinho fugitivo. Estava tranquilamente batendo do lado direito do peito. Informação prontamente vazada e digerida junto com um comprimido de Lexotan.

Enquanto providenciavam uma bateria de outros exames para descobrir mais detalhes, uma rápida pesquisa ao doutor Google espalhava para a família a alarmante notícia de que, nesses casos, a pessoa pode até nascer sem o pulmão e o rim do lado esquerdo. Mesmo assim, saiba que eu não fumei, Cabeça de Cone. Não sei como, mas não fumei. Feliz mesmo é o seu avô, meu irmão, que nunca parou de fumar.

Já haviam se passado três dias do nascimento e somente o pai e as mulheres da família, que se revezavam de plantão no hospital, tinham o prazer de conhecer pessoalmente o Cabeça de Cone. Nós, pobres mortais, tínhamos que nos contentar com fotos contrabandeadas via WhatsApp.

No quarto dia, vieram os últimos e verdadeiramente surpreendentes vazamentos.

Tão surpreendentes que você ainda me paga, Cabeça de Cone. Como é que pode terem olhado o raio do raio X do lado contrário? Quer dizer que o coração sempre esteve batendo no lado esquerdo e a médica se enganou? Ficamos tão contentes que ninguém nem lembrou de xingar a doutora. Devia estar muito preocupada com as contas a pagar e salários atrasados há dois meses. Colocamos na conta do Agnelo.

Quer dizer também que, depois dos banhos de luz, você agora é vermelhinho, igual ao avô e a mamãe? E que que a cabeça finalmente ficou redonda? Passou com louvor em todos aqueles testes que fazem com os bebês na maternidade?

E se eu tivesse voltado a fumar por sua causa, Cabeça de Cone? Deram alguma notícia da clavícula? Ufa! Pelo menos por agora, o stress acabou.

Não? Como não? Aquela senhora do quarto ao lado, mamãe do coleguinha que nasceu junto com você, acabou de ser presa dentro do hospital? Era uma traficante fugitiva do saidão de Natal? Agora ela tem uma policial como acompanhante e outro policial na porta? Chega, Cabeça de Cone. É melhor você sair daí antes que nossos leitores lhe tomem por um personagem de ficção.

Aposto que pouca gente, em muitos anos de vida, teve um curriculum de aventuras próximo do que você vivenciou nos quatro primeiros dias neste mundo. Até você mesmo vai demorar a acreditar na sua própria história.

Considerando a verdadeira atração que o Cabeça de Cone tem pelo perigo, achamos melhor trazê-lo por alguns dias para nossa casa e ficar de olho nele. Enquanto isso, Nina vai ensinando seus truques de mamãe para a mamãe Gabi.

Ele agora tem 15 dias de idade, se chama João Lucas, é bastante saudável e extremamente simpático. Se bem que costuma me obrigar a visitar supermercados e farmácias de madrugada. É que sempre esquecem de comprar alguma coisa durante o dia. Tem recebido muitas visitas e presentes e, aparentemente, mudou de idéia: está gostando muito daqui do lado de fora. Ainda mais que os pais revelaram uma repentina vontade de cair nas garras de um plano de saúde.

 Janeiro de 2015

5 Comentários para “Você me paga, Cabeça de Cone”

  1. Luiz Carlos, você, como cronista de parto, foi uma maravilha. Torcemos pelo João Lucas, e agora, ao fim do texto, aliviados, só peço que tenha uma vida muito feliz, e nunca se envolva em política.

  2. E pensar num bebê tão lindo, nasceu prematuro e não tem quem diga pq ele não tinha cara de joelho,é perfeito parabéns aos papais aos familiares pois um anjo desceu pra fazê-los felizes para sempre!

  3. Também pude ver, a partir daqui de Maceió, algumas das fotos contrabandeadas pelo whatsapp! Vida intensa e cheia de aventuras, essa do Cabeça de Cone! Belo texto, LC!

  4. O João Lucas é um garoto sortudo. Ter um tio avô, que narre com riquíssimos detalhes seus primeiros dias de vida, não é pra qualquer bebê. Será uma linda recordação para mim e para ele. Guardaremos com todo amor.

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