Um raio X do racismo dentro de casa

Kathryn Stockett tem muitas coisas em comum com Eugenia Phelan, que todos chamam pelo apelido de Skeeter. As duas nasceram e cresceram em Jackson, no Mississipi. Na infância, passaram mais tempo com as empregadas negras do que com suas mães brancas.

As duas fizeram faculdade na área de letras (a primeira, na Universidade do Alabama, a segunda, na Universidade do Mississipi mesmo), as duas se mudaram na faixa dos 20 e tantos anos para Nova York, e lá trabalharam em revistas. As duas escreveram livros sobre o mesmo tema – como era a vida das empregadas domésticas em Jackson no início dos anos 60.

zzkathryn1Kathryn (na foto) casou-se, teve uma filha, separou-se do marido e, depois de 16 anos na maior metrópole do país, voltou para o Sul e se radicou em Atlanta, na Georgia, onde vive hoje. Skeeter, a gente não sabe como foi sua vida depois de chegar a Nova York para trabalhar na Harper’s Magazine: Kathryn não nos contou. A narrativa de seu livro The Help termina quando Skeeter está saindo de Jackson para Nova York.

Skeeter é um pouco mais velha do que a escritora que a criou. Quando a ação de The Help começa, estamos em agosto de 1962, e Skeeter está com 23 anos – é, portanto, de 1939. Quando o livro termina, estamos em 1964. Kathryn Stockett nasceu em 1969, cinco anos depois dos últimos acontecimentos que relata em seu livro de estréia.

Pouquíssimo tempo, a rigor, separa os fatos narrados em The Help do ano em que sua autora nasceu. No entanto, naquele pequeno intervalo de tempo, praticamente tudo mudou, nos Estados Unidos, em relação ao tema central do livro, o racismo. O apartheid foi extinto oficialmente em 1964.

Não se usava a palavra, mas o que acontecia nos Estados sulistas, que só deixaram de ser escravocratas porque perderam a Guerra Civil, era idêntico ao apartheid que o mundo inteiro condenava na África do Sul. A segregação era garantida por lei.

The Help transcreve algumas das leis que vigoravam nos Estados sulistas até 1964:

Ninguém pode solicitar que uma mulher branca amamente em alas ou quartos onde haja homens negros.

Será considerado ilegal que um branco se case com qualquer pessoa que não seja branca. Qualquer casamento que viole esta seção será considerado nulo.

Nenhum barbeiro de cor poderá trabalhar para mulheres ou meninas brancas.

O oficial encarregado não poderá enterrar qualquer pessoa de cor no solo usado para o enterro de pessoas brancas.

Livros não deverão ser trocados entre escolas de brancos e escolas de gente de cor, mas deverão continuar sendo usados pela raça que primeiro os utilizou.

Aqui deveria haver uma pausa para o leitor vomitar de nojo.

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ZZRESPOSTASkeeter lê as leis transcritas acima num livreto que encontra na biblioteca pública que freqüenta: “O livreto é fino, impresso em papel vegetal, um pouco amassado, encadernado com grampos. ‘Compilation of Jim Crow Laws of the South’, diz a capa. (…) Leio quatro das vinte e cinco páginas, estupefata com a quantidade de leis que existem para nos separar. Negros e brancos não podem partilhar bebedouros, cinemas, banheiros públicos, estádios, cabines telefônicas, espetáculos de circo. Negros não podem usar a mesma farmácia nem comprar selos no mesmo guichê que eu. (…) Todos nós sabemos dessas leis, vivemos aqui, mas não falamos a respeito delas. Essa é a primeira vez que as vejo escritas.”

Kathryn Stockett estruturou sua narrativa de uma forma esperta, gostosa: há três narradoras – Skeeter, Aibileen e Minny. Cada uma narra um grupo de dois, três ou quatro capítulos, em seguida vem outra, depois a terceira, e depois de volta a primeira. Skeeter, como já foi dito, é uma moça branca, filha de fazendeiros de algodão, bastante parecida com a autora do livro. Aibileen e Minny são negras, e sempre trabalharam como empregadas domésticas. As duas são grandes amigas, de personalidades bem diferentes – Aibileen, bem educada, leitora voraz, extremamente religiosa, tem adoração pelos bebês brancos que na verdade cria, muito mais que as próprias mães. Minny, atarracada, gorduchinha, tem sangue quente, é explosiva, mal-humorada.

As duas trabalham ou já trabalharam para amigas de Skeeter – Elizabeth e Hilly são as melhores amigas da garota. Hilly, personalidade forte, é a presidente de uma Liga de Mulheres de Jackson – e é um poço de nojo, soberba, afetação e racismo. Ao longo da narrativa, Skeeter, uma boa moça, de bom coração, bons sentimentos, vai cada vez mais se distanciando dela.

Skeeter tem a idéia de escrever um livro contando as experiências de empregadas domésticas, seu dia-a-dia, sua relação com as patroas brancas. Pedirá a ajuda de Aibileen – mas ela, assim como suas colegas e amigas, morrem de medo. Sabem muito bem que os racistas se vingam com imensa ferocidade de quem ousa desafiar o sistema de segregação.

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Não foi à toa, de forma alguma, que Kathryn Stockett escolheu os anos de 1962 a 1964 para situar a sua narrativa. Aqueles foram, de fato, os anos decisivos, fundamentais, da luta pelo que se chamava de direitos civis. Foram os anos em que a música folk se engajou profundamente no movimento – veteranos como Pete Seeger, Harry Belafonte, Odetta, gente nova como Joan Baez, Bob Dylan, Peter, Paul and Mary se lançaram com tudo nas passeatas, nas marchas, nos comícios. Esses artistas ajudaram muito, demais, mas é claro que foram ativistas como Medgar Evers – dezenas e dezenas deles – que de fato mudaram a História. E, sobretudo, sobre todas as coisas, o reverendo Martin Luther King, Jr.

zzzzlutherMartin Luther King – engraçado, isso não tinha me ocorrido antes, me ocorreu só agora, enquanto faço esta anotação sobre o livro The Help – tem a estatura de Mahatma Gandhi, de Nelson Mandela. Se fôssemos fazer uma lista das dez pessoas mais importantes, mais fundamentais do século XX, esses três teriam presença garantida, inquestionável. Escolher os outros sete seguramente seria mais polêmico do que escolher entre Beatles e Stones, entre Lennon e McCartney, entre Chico e Caetano – mas Gandhi, Mandela e Martin Luther King seriam unanimidade.

De maneira inteligente, sagaz, Kathryn Stockett insere na sua narrativa – nas narrativas de Skeeter, Aibileen e Minny – menções aos grandes fatos da luta pelos direitos civis. Aparece no livro o assassinato de Medgar Evers (ele inspirou uma canção Bob Dylan, “Only a pawn in their game”, uma de Nina Simone, “Mississippi Goddam”, duas de Phil Ochs, “Another country” e “Too Many Martyrs”, e um belo filme, Fantasmas do Passado/Ghosts of Mississippi). E nem poderia deixar de estar presente, já que Evers era do Mississipi – o Estado em que a autora e suas criaturas nasceram, o Estado em que se passa a história.

Martin Luther King é citado, é claro. A Marcha sobre Washington – o ponto culminante da luta pelos direitos civis – está na narrativa, é claro. No dia 28 de agosto de  1963, uma imensa multidão se reuniu diante do Memorial de Lincoln, na capital americana; Pete Seeger, Bob Dylan, Joan Baez, Peter, Paul and Mary, todos cantaram – mas isso foi pouco comparado ao discurso de Martin Luther King que entraria para a História, aquele em que ele diz:

“I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed – we hold these truths to be self-evident: that all men are created equal. I have a dream that one day on the red hills of Georgia the sons of former slaves and the sons of former slave-owners will be able to sit down together at a table of brotherhood. I have a dream that one day even the state of Mississippi, a desert state, sweltering with the heat of injustice and oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.’

(A íntegra do discurso – tão importante quanto o discurso de Abraham Lincoln em Gettysburg, logo após o fim a Guerra Civil entre a União que declarava o fim da escravidão e os Estados escravocratas do Sul que não a aceitavam – está no site da BBC.)

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zzzztimesUm detalhinho interessante para um dylanmaníaco como eu é o momento em que Skeeter ouve, no rádio do carro, um cantor que ela evidentemente não conhecia, cantando que “The times, they are a-changin’’

Skeeter estava triste, com toda razão. Suas amigas a tinham abandonado, ela havia virado pária na sociedade, porque desconfiavam que ela estava de alguma forma defendendo os negros, e Stuart, o rapaz simpático, inteligente, que se apaixonara por ela, tinha pedido um tempo. E aí um cantor com uma voz rouca, feiosa, surgiu no rádio cantando que os tempos estavam mudando – e Skeeter se encheu de energia, de felicidade. Sentiu que não estava só, que tinha boas, ótimas companhias.

No longo pós-escrito, em que fala de sua própria vida, da empregada negra de sua família de quando ela era criança, Kathryn Stockett pede perdão pela pequena, digamos assim, liberdade poética que tomou com relação a “The times, they are a-changin’”: a canção saiu no terceiro álbum de Bob Dylan, que tem como título o título da canção, e foi lançado em janeiro de 1964 – e,  no livro, Skeeter ouve a música ainda em 1963!

Figura interessantíssima, fascinante, essa moça Kathryn Stockett, apenas seis anos mais velha que minha filha. Tão interessante, fascinante, quanto seu alter-ego, essa deliciosa Skeeter, um ser humano maravilhoso que, apesar de ter nascido na profundeza abissal do coração do racismo, escapou dessa maldição e, sem mesmo ter a noção exata da dimensão do que estava fazendo, enfrentou de peito aberto o monstruoso, o absurdo, o incompreensível crime que boa parte da humanidade insiste em cometer ainda hoje.

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É muito doido a gente ver hoje, na Wikipedia, a informação de que os originais de The Help foram rejeitados por mais de 60 agentes literários.

Kathryn Stockett levou cinco anos para escrever o livro. Mandou os originais, segundo a Wikipedia, a mais de 60 agentes literários – e ouviu mais de 60 nãos.

O livro foi finalmente publicado em 2009. Virou best-seller instanteamente. Em agosto de 2012, já havia vendido mais de dez milhões de exemplares, permanecido cem semanas – cem semanas! – na lista dos mais vendidos do New York Times, e sido traduzido em 42 línguas. Inclusive o Português: foi lançado em, 2010 pela Bertrand Brasil com o para mim incompreensível título de  A Resposta.

Como assim,  A Resposta? É The Help, A Ajuda. No livro, Skeeper discute com Aibileen e Minny sobre o título do livro que ela está escrevendo, e acabam se fixando em Ajuda, segundo mostra a própria tradução para o Português, assinada por Caroline Chang. De onde raios os editores da Bertrand Brasil chegaram a esse A Resposta?

A explicação está no final do longo, belo, confessional pós-escrito.  Kathryn Stockett se refere mais uma vez a Demetrie, que foi empregada de seus avós e cuidou dela assim como Aibileen cuidou de tantas crianças brancas e Constantine cuidou de Skeeter: “Tenho bastante certeza de poder dizer que ninguém da minha família jamais perguntou a Demetrie como era ser negra no Mississippi e trabalhar para a nossa família branca. Nunca nos ocorreu perguntar. Era a vida cotidiana, simplesmente. Não era algo que as pessoas se sentissem compelidas a examinar. Durante muitos anos desejei ter tido idade e consideração suficientes para ter feito a Demetrie tal pergunta. Ela morreu quando eu tinha dezesseis anos. Passei muito tempo imaginando como seria a sua resposta. E essa é a razão por que escrevi este livro.”

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zzzzhelpFoi minha filha que me indicou a leitura do livro. Me contou que devorou em poucos dias o catatau – 570 e tantas páginas, meio Guerra e Paz –, me garantiu que eu iria gostar sem dúvida alguma, me emprestou o suporte físico. Foi só quando comecei a ler que me caiu a ficha de que era o livro que havia dado origem ao filme The Help (2011), que os distribuidores brasileiros resolveram chamar de Histórias Cruzadas. The Help é um belíssimo filme; vi em maio de 2012, e babei. (Na foto abaixo, a Skeeter do filme, interpretada por Emma Stone.)

Ler um livro depois de ver o filme não é o normal, o comum: o melhor é sempre fazer o inverso, ler primeiro o livro.

Ler um catatau de 570 e tantas páginas já sabendo tudo o que vai acontecer pode não ser uma grande alegria – e cheguei mesmo a pensar em abandonar a leitura ali pela página 100: OK, já conheço a história, já entendi a forma com que a autora resolveu narrar o livro, pensei. Mas acabei indo em frente, até o final, e não me arrependo.

zzzzskeeterNão é uma grande obra literária, certamente. Mas é um livro importante, importantíssimo, por tratar  da chaga profunda que é o racismo de uma forma fascinante, única – focalizando a intimidade dos lares, as relações entre empregadas e patroas e filhos. E com franqueza, lucidez e emoção.

Se algum dia cientistas de alguma civilização muito mais avançada gastarem tempo examinando a História dos primatas que habitaram o terceiro planeta deste sistema solar de quinta categoria, muito certamente encontrarão em The Help vasto material interessante para analisar. Não sei no planeta deles, mas neste aqui a mesma raça conseguia produzir Hitler e Mandela, Stálin e Gandhi, Mussolini e Martin Luther King. E, na ficção, Hilly e Skeeter.

Planeta doido.

23 de janeiro de 2015

Um comentário para “Um raio X do racismo dentro de casa”

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