O sonho não acabou

A história tem dessas coincidências felizes.  Vinte e quatro horas após o “Martin Luther King Day”, e às vésperas dos 50 anos do “Domingo Sangrento”, Barak Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, conclamou seu país a virar a página dos últimos 15 anos. E promover uma economia que gera aumento de renda e oportunidade para todos.

Tradicionalmente o discurso presidencial “Estado da União” é o mais importante do ano.

Já o Dia Nacional de Martin Luther King é celebrado na terceira segunda-feira de janeiro, data próxima ao aniversário do líder da luta contra a segregação racial -e Prêmio Nobel da Paz de 1964-, assassinado em 1968.

Em 2015 o feriado foi celebrado em clima de comoção e polêmica. Os norte-americanos correram para os cinemas para assistir ao filme “Selma”, que relembra o “Domingo Sangrento” de 7 de março de 1965. Nesta data ocorreu a primeira tentativa de marcha de 86 quilômetros entre as cidades de Selma e Montgomery, a capital do Alabama, então reduto da discriminação racial. Eram 600 pessoas, entre elas mulheres, jovens e crianças que, numa ponte, foram cercadas por tropas que usaram gás lacrimogêneo, cassetetes e até chicotes. Ao todo foram três marchas que exigiam o direito ao voto da população negra. Os episódios são ícones da jornada pelos direitos civis nos EUA.

Nela, uma figura se projetou para a história, o pastor Martin Luther King Jr.

Não é exagero colocá-lo em um patamar similar aos de Mahatma Ghandi e Nelson Mandela.

Sem a sua obstinação, sem sua fidelidade absoluta ao princípio da não violência, muito provavelmente os Estados Unidos não teriam hoje um presidente negro e seriam um país bem mais intolerante.

A conquista dos direitos civis nos EUA foi um movimento de fora para dentro, da sociedade para os poderes constituídos, até conquistar seu marco legal.

Aquele mar de 250 mil pessoas, aquele palanque multirracial no qual estavam, entre outros, Marlon Brando, Sidney Portier, Joan Baez e Bob Dylan, e, sobretudo, aquele discurso “I have a dream”, mudaram o rumo da história.

As palavras ecoaram na Casa Branca. O então presidente Kennedy teve de superar suas reticências e dar ouvido aos conselhos de seu irmão Bob, de seu assessor negro Louis Martin e de seu vice Lindon Johnson.

Finalmente enviou ao Congresso o projeto da Lei dos Direitos Civis. Mas não viveu para vê-la aprovada.

Tudo isto é história. O MLK Day de agora foi também de protesto contra o assassinato de negros e civis pelo aparato policial. Nasceu daí uma nova bandeira: “Black lives matter” (A vida dos negros importa).

Apesar de tais conflitos, os Estados Unidos de hoje são um país bem melhor do que aquele do “Domingo Sangrento”.

O sonho de Luther King por uma América mais igualitária e um mundo mais fraterno não acabou.

Está presente em iniciativas de Obama, como a universalização da saúde pública e o fim do bloqueio a Cuba.

O “Yes we Can” de hoje tem muito a ver com o “I have a dream” de ontem. São partes do sonho americano.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 28/1/2015. 

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