O Blog Informa não informa: rouba

Um tal de Blog Informa reproduziu, na íntegra, um texto meu sobre um filme – Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres. Usou as mesmas fotos que eu usei no post do meu site 50 Anos de Filmes. Não citou meu nome. Acrescentou um vídeo do Youtube, e, ao pé do texto, botou: “Fontes: 50 Anos de Filmes e Youtube”.

Não deu link para o 50 Anos de Filmes, não citou sequer o nome do autor do texto – o sujeito que usou a fresta da testa para juntar aquele monte de palavras. Fontes: 50 Anos de Filmes e Youtube.

Como se os editores do Blog Informa tivessem consultado o 50 Anos de Filmes e o Youtube e, com base naquilo que viram, tivessem eles mesmos escrito aquele texto.

Quando vi a coisa, dias atrás, escrevi um e-mail e enviei para o “Fale conosco” deles. Eis aí:

Caros editores,

Vi, até com um ponta de orgulho, que vocês reproduziram um texto meu sobre o filme “Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres”.

Muito legal que vocês tenham gostado do texto e tenham decidido republicá-lo.

No entanto, é estranha a forma com que vocês fazem a edição. Está lá o meu texto, na íntegra, as fotos que usei no meu site, e, no fim, está dito: “Fonte: 50 Anos de Filmes e Youtube”.

Vocês acham que isso basta?

Não seria mais honesto vocês dizerem algo do tipo “Este texto foi publicado originalmente em 50 Anos de Filmes – com o devido link para o meu site?

O que vocês acham?

Um abraço.

Sérgio Vaz

***

zzgain1Não houve resposta.

Devem ser jovens, os editores do Blog Informa. Cresceram já convivendo com o território livre da internet, em que muita gente simplesmente copia o que o outro escreveu e republica e tudo bem.

Os editores do Blog Informa não devem fazer o que fazem de sacanagem. Devem, muito provavelmente, achar que é assim mesmo. Afinal, todo mundo faz assim. Bota lá fonte, dois pontos, e tudo bem.      Nem chega a ser próximo do que pensam os verdadeiros socialistas, comunistas, os que acreditam de fato na ideologia: ora, não deve haver propriedade privada. Tudo pertence ao povo. Então, se, por exemplo, roubo um banco, não estou roubando: estou praticando justiça social, tirando dos ricos para dar aos pobres.

Acho que nem chega perto disso. Nem é tanto uma questão de lassidão moral, como é o caso de partidos que de fato não são socialistas coisa alguma, são apenas populistas, oportunistas, espertalhões, como o PT e seus aliados mais siameses tipo PCdoB, mas usam como desculpa um tom ideológico – obviamente falso.

É uma coisa inocente, que nasceu com este maravilhoso mundo novo da internet: tá na rede é peixe, pode pegar e aproveitar do jeito que você quiser. Informação é commodity, pegue e use à vontade.

Modernosos sonsos à lá Gilberto Gil, espertalhões esquerdóides à la Juca Ferreira, e aproveitadores de todos os quadrantes, eles adoram flertar com essa coisa de Creative Commons.

Ficam arrepiados quando alguém – como fazia, bravamente, por exemplo, o grande Fernando Brant – esperneia em defesa dos direitos da propriedade intelectual.

Creio que os meninos do Blog Informa (considerando que são meninos, é claro) não são ideologicamente defensores do fim da propriedade intelectual.

Acho que eles simplesmente são jovens, e acham que tudo bem fazer copy & paste do meu texto, ou do texto de qualquer pessoa, e publicar lá no blog deles. Pô, eles são tão honestos que até escrevem lá: Fonte: 50 Anos de Textos e Youtube.

***

Provavelmente eles não pararam para pensar entre a diferença de uma sinopse de 5 linhas e um texto pessoal de 200 linhas a respeito de um filme.

zzgain2Há sinopses de filmes que aparecem repetidas em uns 300 sites sobre filmes. (Há mais sites sobre filmes na rede do que jamais poderia sonhar a nossa vã filosofia, Horácio.) É a pura commodity. Tá na rede é peixe. Você faz uma busca por qualquer filme, e, se se der ao trabalho de passar por uns 15 sites ou blogs, verá as mesmas 5 linhas. Não interessa quem escreveu aquilo. Deve ter sido a distribuidora do filme, ou a produtora. Vira viral, espalha-se feito peste.

Mas os textos que as pessoas fazem não são commodities. São resultado de um trabalho pessoal, único, exclusivo.

Há quem escreva maravilhosamente procurando o estilo mais objetivo, mais distanciado do pessoal possível. Houve épocas em que a revista Time (e também a revista Veja, que sempre gostou de copiar modelos alheios) era inteiramente escrita, da primeira à última página, em um estilo único, de tal forma que parecia que apenas um redator havia sido responsável por todo o conteúdo da publicação.

É uma opção. É um estilo.

Meus textos, no entanto, são extremamente pessoais. Faço questão que eles sejam pessoais, intransferíveis, como dor de dente ou de amor.

Então, lá no meio do longo texto sobre o filme Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres, surgem frases assim:

“O que eu mesmo sabia antes de ver o filme era que Gainsbourg foi um compositor absolutamente fora dos padrões, insolente, desafiador, subversivo.”

“Na minha memória, era isso: Jane Birkin dançava meio peladinha no estúdio de Thomas (no filme Blow Up); casada com Serge Gainsbourg, gemia como se estivesse gozando em ‘Je t’aime, mois non plus’”.

“Bem, isso é o que eu sabia sobre Serge Gainsbourg. Com o filme – que, pelo estilo malucão adotado, informa pouco –, sei agora pouco mais que antes.”

 

Eu, eu, eu. O eventual leitor que cair no texto do Blog Informa poderá perfeitamente perguntar: mas eu quem? Quem está escrevendo isso? Qual é o nome do cara?

Pois é: o Blog Informa não informa.

***

Fiquei pensando, depois que me deparei com esse roubo do meu texto pelos meninos do Blog Informa que não informa os autores dos textos que publica, se eu não estaria sentado num imenso rabão falando mal do rabinho dos outros.

Não queria apenas denunciar (eta palavra gasta!) que um site de uns garotos havia publicado meu texto sem me consultar e sem me dar crédito. Queria pensar um pouco sobre esses temas maiores, lassidão moral, relaxamento dos códigos de conduta com relação à propriedade intelectual nos tempos de internet.

Pois eu mesmo, neste meu site aqui, sou useiro e vezeiro em publicar textos dos outros. Textos que originalmente foram publicados em outros lugares.

São dois tipos de textos dos outros que publico aqui.

Muitos são de amigos meus, amigos pessoais mesmo, que concordaram comigo quando pedi para publicar seus textos. Há até casos de amigos tão amigos que pediram para publicar seus textos aqui… Uma dessas pessoas até dorme na mesma cama que eu, faz um quarto de século.

São autores deste site assim como eu. Está  assinado lá no alto: “Por Sérgio Vaz e amigos”.

E, no olho, a linha fina abaixo do título, vai lá o nome do autor, o sujeito que juntou aquelas palavras formando aquele texto, único, intransferível.

Alguns deles publicam no Blog do Noblat, o blog político mais importante do país. Mas são meus amigos muito antes de começaram a publicar no Blog do Noblat. Então eu espero que os textos deles saiam primeiro no Blog do Noblat, e depois publico no 50 Anos de Textos – com link para o blog. Tipo o barquinho aponta para o transatlântico.

***

zzgain3O outro tipo são textos jornalísticos que transcrevo, em geral na íntegra. Ao longo dos quatro anos do primeiro mandato de Dilma Rousseff na presidência, publiquei 160 compilações de editoriais, artigos e reportagens que comprovavam a incompetência do governo. Ao longo deste ano, republiquei novos textos jornalísticos sobre o desgoverno Dilma – e pretendo continuar fazendo isso até o dia em que essa senhora de triste figura fizer ao país o imenso favor de sair de cena.

Sou, então, igualinho que nem os meninos (imaginando que eles sejam meninos…) do Blog Explica?

Acho que não.

Como os meninos do Blog Explica, não peço autorização para republicar os textos – mas, bem ao contrário do que eles fazem, dou o nome do autor de cada um dos textos, e o nome da publicação, e o dia da publicação. Em geral, ressalto o nome do autor em negrito.

Dou o devido crédito. Em negrito.

Ao dar o nome do autor, ao creditar ao autor o seu texto, não estou roubando o trabalho dele. Estou divulgando, reproduzindo, repercutindo.

Entendo que são duas formas absolutamente distintas de tratar a autoria na rede.

Estarei errado?

Pode ser.

Gostaria de ouvir opiniões diferentes da minha.

Gostaria de ouvir o que os meninos do Blog Explica têm a dizer.

O que a gente não deve, não pode, é permitir, sem sequer esbravejar um pouco, a vitória dessa mentalidade de que texto caiu na internet é peixe pra qualquer um republicar do jeito que quiser, sem o devido crédito.

Cada texto tem autor.

Agora que estamos todos enredados globalmente, podemos até reproduzir, nos nossos domínios, textos de outros, mesmo sem o aval prévio deles.

(Será que podemos mesmo? Não sei. Estou aberto ao diálogo.)

Mas uma coisa deveria ser clara para todos, jovens, extremamente jovens, velhos, meninos, espertos, modernosos, sonsos, espertalhões: cada texto tem seu dono.

Cada texto foi criado por uma testa.

Reproduzir sem dar o nome é roubo.

Vamos lá:

Assalto. Extorsão. Ladroeira. Furto. Desvio. Empalmação. Escamoteação. Escamotagem. Escamoteadela. Escamoteio. Espolição. Gatunagem. Gatunice. Ladroagem. Pilha. Piratagem. Pirataria. Rapina. Usurpação. Surrupio.

Dou o nome da obra de onde tirei esses sinônimos todos de roubo. É o Dicionário Sinônimos e Antônimos Houaiss, da PubliFolha.

Outubro de 2015

5 Comentários para “O Blog Informa não informa: rouba”

  1. Sérgio sua indignação autoral é procedente, mas amigo devo entender que textos são uma junção de palavras que exprimem idéias, crenças e pensamentos. Os textos, ensaios e escritos tem objetivos diversos e um deles e principal é a necessidade da comunicação, outras, como divulgação da arte em forma de literatura, como poesia, como prosa, como crítica e como indignação também. A diversificação da finalidade tem em comum a necessidade de reconhecimento e a notoriedade, sem deixar a vaidade se passar pela vida sem ser reconhecido ou citado pela história. O reconhecimento é ambição do homem, ver sua idéia ser reproduzida sem o devido crédito é dolorido.
    Dói na alma vaidosa.
    Vaidade à parte, ver nosso texto reproduzido, mesmo sem o devido crédito, já seria um grande reconhecimento, saber que estamos sendo lidos e copiados seria de suprema glória. Sabermos escutados e lidos é bom demais. O monólogo é horrível, frustrante, falar aos outros e atingi-los é o objetivo daquele que se expressa por textos. Discordo quando você Sérgio se acha dono dos textos que laboriosamente cria, seus textos pertencem ao mundo. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena diz um poeta desconhecido a quem não dou o crédito porque o seu talento dispensa.
    O talento do seu texto não está na técnica universal de juntar letrinhas e editar palavras e sim naquilo que o seu texto expressa, a indignação é a marca dos seus textos, indignação anticomunista, anti petista, anti socialista, indignação contra o rolezinho, contra os ladrões de ocasião ricos ou pobres, indignação por não ser melhor texto na própria cama, aqui peço desculpas pela indébita apropriação.
    Os garotos não se apropriaram do seu texto, ao contrário reverenciaram-no, motivo para seu orgulho e satisfação da sua vaidade desmesurada.

  2. O Blog Horaciocb.blogspot também publica os textos do Sérgio Vaz, juntamente com os de outros cobrões da imprensa. Mas, pelo menos, cita o nome do autor, apesar de também não dar maiores detalhes.

  3. Sérgio;
    Comungo em gênero, número e grau com vc;
    Julgo que qdo admiramos e queremos reverenciar uma pessoa, devemos citar seu nome, sim! Pra mim, isto é de suma importância, diferentemente do que pensa seu amigo Miltinho, o qual, tem todo o direito de expressar suas idéias assim como tenho as minhas.
    De mais a mais, e daí se vc sente orgulho do que escreve e satisfaz sua vaidade? Fez e faz por merecer!
    Um abraço

  4. Outro fenômeno da internet são os falsos textos atribuidos a autores famosos, como Arnaldo Jabor e Fernando Veríssimo. Muitos deles são apócrifos. Outros têm autores identificados, que são surpreendidos ao verem seus artigos bombando na internet, enfeitados com as prestigiosas assinaturas de Jabor e Veríssimo. Essas estrelas da crônica são obrigadas a ouvir elogios ou severas críticas a posições que nunca expressaram e das quais, às vezes, discordam inteiramente. O mais irônico de todos é um texto com pesadas críticas ao governo, atribuído ao petista Veríssimo. Fica parecendo que o gaúcho bateu com a cabeça em algum lugar e começou, surpreendentemente, a encontrar pontos negativos no governo Dilma. Detalhe cruel: o artigo é mesmo de Veríssimo. Os responsáveis pela sua viralizacão na internet, maldosamente, “esqueceram” de informar que o texto o foi escrito cerca de quinze anos atrás, tendo como alvo o governo FHC. As unicas críticas pesadas feitas por Veríssimo ultimamente se dirigem àqueles que ousam denunciar corrupção ou deixar de perceber as maravilhosas realizações do atual governo. O brilhante escritor gaúcho usa, de forma permanente, aqueles óculos cor de rosa fartamente distribuídos pelo marqueteiro de Dilma na campanha eleitoral. E a Internet não perdoa. Ao suprimir a data da crônica, nem mesmo lhe deixam a possibilidade de negar a autoria das críticas, que soam absolutamente pertinentes no momento atual.

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