Nunca houve governo tão incompetente (18)

O governo de Dilma, perdão, o desgoverno de Dilma, como diz o principal editorial do Estadão deste domingo, 23 de agosto, é tão absolutamente incompetente que consegue a proeza de cometer o gesto político suicida de pagar a primeira parcela do 13º salário à própria presidente e a seus ministros – e anunciar ao país que não tem como pagar a primeira parcela do mesmo 13º para os aposentados e pensionistas.

Vamos e venhamos: é preciso um talento incrível, um dom raríssimo, para bolar um tiro tão certeiro no pé.

Nem Eremildo, o idiota, seria capaz de planejar tal esquema. Nem mesmo a Velhinha de Taubaté, se ainda estivesse viva, acreditaria que o governo fosse capaz desse gol contra, desse frango inominável.

Aí então eles perceberam que pegou mal, e já começaram a falar que vão dividir a antecipação – antes paga no início de agosto – em duas parcelas, uma em setembro e outra em outubro.

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Só um governo absolutamente incompetente seria capaz de, para a viagem de Dilma e comitiva aos Estados Unidos, em julho – enquanto teoricamente está lutando para fazer um ajuste fiscal – encomendar o aluguel de 19 limousines, 3 vans, 1 caminhão e 2 ônibus, colocando à sua disposição 25 motoristas.

Dezenove limousines! De-ze-no-ve!

Estamos em plena temporada de ajuste fiscal! O governo está exigindo que o Congresso aprove medidas duras para diminuir os gastos, e aí esse mesmo governo aluga 19 limousines, 3 vans, 1 caminhão e 2 ônibus, com 25 motoristas!

O Gabinete de Segurança Institucional deveria apurar direitinho quem foi que deu essas ordens, tomou essas decisões sobre o 13º, sobre a frota alugada nos Estados Unidos. Deve ser coisa de inimigo infiltrado no governo. É coisa de  tucano, não é possível que seja do próprio PT e seus asseclas!

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O governo fala em ajuste fiscal – corte de gastos, portanto. O corte de gastos inclui tentar colocar alguma ordem na farra que havia no pagamento de seguro-desemprego – e, aí o governo Dilma 2 faz exatamente o que a candidata negava que faria, e dizia que os opositores fariam. Nem que a vaca tussa, ela dizia – e agora faz exatamente o que negava que faria.

Poderia fazer algum gesto que indicasse que o governo está disposto a cortar, se não na carne, ao menos um pouquinho das imensas gorduras acumuladas ao longo de 12 e meio de tomada do Estado brasileiro pela cumpanherada. Poderia – por que não? – anunciar por exemplo o corte de 1 mil dos 22 mil cargos de livre nomeação do governo federal.

Mas nada. Como escreveu José Casado no Globo: “Foram 130 mil contratações entre a posse de Lula, no 1º de janeiro de 2003, e os primeiros 90 dias deste segundo governo Dilma. Significa que o governo federal contratou 40 novos servidores a cada dia útil, na média dos últimos 13 anos — segundo o banco de dados do Ministério do Planejamento. Entre Lula e Dilma, a folha de pagamentos da administração federal (excluídas as estatais) inchou na proporção de cinco contratações por hora — uma a cada 12 minutos — em cada jornada de trabalho, durante 3.117 dias úteis.”

NOTA: Este texto foi postado no domingo, 23/8, à noite. Na manhã da segunda-feira, 24, o governo começou a anunciar cortes. Promete desmentir o que afirmei aí logo acima. Alvíssaras! Maravilha! Que seja para valer! Antes tarde do que nunca! Insistir no erro é diabólico e, se Dilma resolve, após 12 anos e sete meses de erros diabólicos de governo lulo-petista, reconhecer nem que seja parte dos erros, beleza! Sensacional!

Ah, sim, e na noite da segunda-feira, 24, o governo voltou mais atrás na questão do 13º dos aposentados, e anunciou que vai pagar a primeira parcela de uma vez só, em setembro. É um governo que vai e vem, ao sabor dos ventos. Bem, mas a decisão é boa. Antes isso. 

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É um governo tão incompetente, mas tão incompetente, que, além de dar seguidos tiros no próprio pé, além de não ser capaz de um gesto sequer que demonstre alguma vontade política de realmente fazer ajuste fiscal, consegue a proeza de anunciar, em pleno mês de agosto, mais uma manteguice, em plena era do que se esperava fosse o reinado da sensatez de Levy Mãos de Tesoura. Como diz o editorial do Estadão: “Dilma mandou ressuscitar o que deveria estar enterrado a sete palmos: a desastrosa política econômica ‘anticíclica’ do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Ao conceder novamente crédito a setores selecionados da economia, Dilma sinaliza que nem mesmo ela acredita no ajuste que precisa fazer.”

Eu diria, nos meus termos mais chulos, ou mais virulentos, que quem esperava – como eu mesmo – de Joaquim Levy as atitudes de um samurai tem agora que se contentar em ver um economista de passado honrado agindo como uma gueixa.

Aí vão três ótimos textos que comprovam mais uma vez essa triste, angustiante verdade: nunca houve governo tão incompetente.

Salve-se quem puder

Editorial do Estadão de 23/8/2015

No desgoverno de Dilma Rousseff, nada pára em pé. Se hoje já se fala abertamente no período pós-Dilma, como se ela já não estivesse mais na cadeira presidencial, é porque ela deixou de existir como ser político, transformando-se apenas num nome que vaga nos corredores do Planalto. Ademais, como está evidente, é todo o esquema lulo-petista de poder que faz água, pois nem mesmo o mago Lula, o criador de Dilma e de outras tantas imposturas, é capaz de dar um rumo, coerência e substância à sua desastrosa utopia.

Tome-se como exemplo a manifestação do último dia 20, que, pela convocação feita pelo PT, deveria servir para defender o governo Dilma contra os “golpistas”. O que se viu nas ruas – além de uma afluência muito menor do que a verificada nos protestos contra a presidente – foi uma evidente insatisfação dos supostos simpatizantes da petista com os rumos de seu mandato. A militância profissional, com seus carregadores de cartazes e bandeiras arregimentados à base de lanche de mortadela e tubaína, tratou de criticar principalmente a condução da política econômica. Para essa turma, Dilma deveria manter e até ampliar a gastança desenfreada que, em nome de uma certa “justiça social”, em vez de promover o crescimento sustentado, desorganizou as contas nacionais, aumentou o desemprego, acelerou a inflação e dizimou a confiança do setor produtivo.

Assim, os movimentos sindicais e sociais que foram às ruas na quinta-feira não queriam, de fato, demonstrar apoio a Dilma. Sua única intenção era fazer a defesa da estatocracia prometida pelo lulopetismo – além, é claro, das sinecuras e prebendas a que julgam fazer jus, tão habituados estão ao farto financiamento estatal.

Se esses são os “a favor”, não há nem necessidade dos “do contra”. O esquema lulopetista está esfrangalhado justamente porque os que deveriam apoiar a presidente são aqueles que trabalham com afinco pela debilitação do governo. No Congresso, aquilo a que outrora se dava o nome de “base aliada” se converteu no grande pesadelo de Dilma – a começar pelo PT, partido habituado a boicotar as medidas da presidente formalmente a ele filiada. Assim, não surpreende que o PMDB, principal sócio do PT no condomínio do poder, já esteja preparando seu desembarque de um governo que nem mesmo os petistas, lá com seus botões, ousam defender.

Assim é que chegamos ao arremedo de ajuste fiscal aprovado nesse Congresso onde prevalece o salve-se quem puder. Depois de uma penosa tramitação de oito meses, o pacote do ministro Joaquim Levy foi desfigurado por parte das próprias forças governistas, que não estão nem um pouco interessadas no saneamento da economia. Desse modo, a única medida do governo Dilma que poderia conferir um pouco de racionalidade ao segundo mandato, tentando consertar as bobagens cometidas no primeiro, foi sabotada e transformou-se praticamente em epitáfio de uma administração que nunca se pautou pelo bom senso.

Isso ficou ainda mais claro quando, a despeito da necessidade urgente de mudança de rumos, Dilma mandou ressuscitar o que deveria estar enterrado a sete palmos: a desastrosa política econômica “anticíclica” do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Ao conceder novamente crédito a setores selecionados da economia, Dilma sinaliza que nem mesmo ela acredita no ajuste que precisa fazer.

Essa falta de sintonia com a realidade se revela tanto nas grandes questões como nos assuntos aparentemente menores. A escassez de dinheiro fez a Fazenda mandar segurar a primeira parcela do 13.º salário dos aposentados do INSS, que desde 2006, graças ao populismo do então presidente Lula, vinha sendo paga de forma antecipada em agosto. Enquanto isso, soube-se que Dilma e seus ministros já estavam usufruindo da primeira parcela de seu 13.º salário, depositada em julho. Diante dos protestos da plebe ignara, a presidente voltou atrás e mandou pagar já o benefício aos aposentados, desautorizando mais uma vez sua equipe econômica.

Diante de exemplos como esses, não é preciso procurar muito para encontrar os verdadeiros sabotadores do governo – uns estão de camisa vermelha nas ruas, outros estão na bancada governista no Congresso, mas o principal mesmo é a própria Dilma.

A incrível inversão

Artigo de Eliane Cantanhêde. Publicado no Estadão em 23/8/2015.

Nesta encrenca política tão grande e tão desafiadora, inverteu-se o jogo. Diante da crise política e econômica, com a Lava Jato chegando ao Congresso, é a elite quem toma a dianteira para apoiar o claudicante governo Dilma Rousseff, enquanto as grandes massas que vão às ruas rejeitam o PT e se aproximam da oposição, inclusive, ou principalmente, do PSDB.

Se o PT borrou ainda mais as já embaçadas noções de direita e esquerda, consegue agora também fazer uma baita confusão entre o que é “elite” e o que é “massa”. Não custa lembrar que Lula, Dilma, José Dirceu e as sucessivas cúpulas petistas já são elite há bastante tempo, não é mesmo? E, aparentemente, a elite institucional uniu-se para salvar o mandato de Dilma e parte da elite empresarial dá sinais nesse mesmo sentido.

Até a novidade do “protesto a favor”, na quinta-feira, não deixa de ser um movimento de cúpulas, patrocinado pela elite dos velhos (CUT, MST e UNE) e novos (como o MTST) braços do PT. A turma foi transportada em ônibus, vestindo camisetas e carregando bandeiras vermelhas novinhas em folha. Alguém pagou por isso, talvez até por mais do que isso.

De outro lado, os “protestos-protestos” mobilizaram dez vezes mais pessoas, na grande maioria de classe média, vestindo suas próprias camisetas verdes e amarelas e carregando bandeiras do Brasil que, provavelmente, elas próprias pagaram. Será que esses manifestantes que injetaram novidade e viço à cena política e às ruas de todo o País são “da elite”? Pareciam cidadãos e cidadãs comuns, dessa gente que trabalha, estuda, é aposentada ou rala em micro e pequenas empresas – e paga impostos e conta de luz nas alturas.

A olho nu, não se identificaram ali banqueiros, grandes empresários, altos burocratas, diretores de estatais, nem grandes coisa nenhuma, até porque os bancos lucraram mais de 50% em meio à crise, dirigentes partidários aliados estão numa boa e a elite incrustada nas estatais já encheu as burras, digamos, heterodoxamente. Essa é a verdadeira elite, e ela está com o PT e com Dilma, que parece estar se recuperando.

Depois de se capitalizar no Supremo, no TCU, no TSE e no Senado, a presidente investiu fortemente no setor privado, recebeu apoio da turma da CUT e ainda ganhou a sorte grande com a denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra seu arqui-inimigo Eduardo Cunha, presidente da Câmara. Cada dia, sua agonia. No caso de Dilma: cada semana, sua agonia…

Na semana passada, foi a vez do pacote de bondades para o empresariado: a reoneração camarada da folha de pagamento, o fim da votação do ajuste fiscal e o financiamento farto e barato do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para alguns setores, sob o pretexto de salvar empregos. O primeirão da fila foi, ora, ora, o setor automobilístico. E os bancos públicos também assumiram o crédito consignado dos funcionários, depois que os bancos privados tiraram o corpo fora ao saberem que a empresa de software está, até ela!, enrolada na Lava Jato.

Dilma, assim, se fortalece “por cima”, recolhendo as boas notícias que vêm do Senado, de tribunais, da Procuradoria-Geral da República, do empresariado e dos movimentos petistas, enquanto a oposição articula “por baixo”, com os partidos e líderes irados com o governo, os novos movimentos que levam muitos milhares às ruas em todo o País e os 71% que rejeitam Dilma nas pesquisas.

A guerra continua, mas com sinais invertidos e com o PMDB, o deputado Eduardo Cunha, o ministro Gilmar Mendes (STF/TSE) e os velhos e novos delatores da Lava Jato bem no meio dela. Uma guerra que pode ser tudo, menos da “elite branca” contra “a massa oprimida”. Isso é coisa do passado, quando o PT ainda podia apresentar-se como partido dos trabalhadores.

Um novo loteamento

Artigo de José Casado. Publicado em O Globo em 18/8/2015.

Dilma Rousseff trabalha em silêncio com o vice Michel Temer, à margem do ronco das ruas.

Combinaram começar a primavera com quase todos os grupos parlamentares governistas instalados em cargos-chave na administração direta federal, autarquias, fundações e empresas estatais.

O mapa do novo loteamento está com o ministro Eliseu Padilha (Aviação), assessor do vice-presidente nas negociações conduzidas dentro do Palácio do Planalto. Fundador do PMDB, ele se dedica a estudar a geografia do poder no Legislativo desde a era Fernando Henrique, duas décadas atrás.

Se realizada, talvez venha a ser uma das maiores obras do clientelismo nos últimos tempos. O objetivo é cooptar mais de duas centenas de deputados, assegurando votos suficientes no plenário da Câmara para, no mínimo, dificultar eventuais pedidos de impeachment.

Dilma, Temer e Padilha, com a bênção de Lula, acreditam que a redivisão em lotes dos núcleos de poder deve aplainar a “travessia” da presidente na crise política até meados do ano eleitoral de 2016, quando, imaginam, acabaria o inverno da desesperança na economia.

Nesse jardim primaveril, prepara-se um desbaste do PT em algumas áreas para dar espaço ao florescimento do PMDB como “fiador da governabilidade”. Aglutinado em torno de Temer, porque o futuro dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, agora depende do imponderável: o rumo dos inquéritos sobre corrupção na Petrobras conduzidos pelo Supremo Tribunal Federal.

Os negócios avançam na rotina de quietude do Planalto, com episódicas intervenções da Casa Civil, para informar líderes sobre vetos, por “falta de consenso partidário” ou simplesmente por causa da “folha corrida” do indicado.

O resultado desse novo loteamento governamental tende a ser praticamente invisível para os contribuintes. Vai ficar encoberto pelos cargos e funções multiplicadas na última década.

Foram 130 mil contratações entre a posse de Lula, no 1º de janeiro de 2003, e os primeiros 90 dias deste segundo governo Dilma.

Significa que o governo federal contratou 40 novos servidores a cada dia útil, na média dos últimos 13 anos — segundo o banco de dados do Ministério do Planejamento.

Entre Lula e Dilma, a folha de pagamentos da administração federal (excluídas as estatais) inchou na proporção de cinco contratações por hora — uma a cada 12 minutos — em cada jornada de trabalho, durante 3.117 dias úteis.

Ao mesmo tempo, proliferaram as remunerações por “confiança” e “gratificação”, sem contar adicionais por “incorporação”, “periculosidade” etc. São cerca de cem mil as funções comissionadas na estrutura governamental.

Em março contavam-se 615,6 mil funcionários civis ativos. Dilma dispõe de uma força de trabalho 26% maior que Lula em 2003. No entanto, os serviços públicos estão em colapso, especialmente na saúde e educação. O peso e a intensidade do “ajuste” necessário para financiar o setor público demonstram quanto o Estado ficou maior que a economia — e não apenas por causa do funcionalismo.

Visto do palácio, está tudo dominado. Só falta combinar com a rua, renitente em protestos ressonantes e cada vez mais ásperos, como os do último domingo.

23/8/2015

Para ler o texto anterior desta série: 

Em editorial, Estadão comenta sobre os 205 erros de tradução em acordo comercial

2 Comentários para “Nunca houve governo tão incompetente (18)”

  1. Os grandes veículos jornalísticos ainda falam, mas cada vez mais ouvem!
    Estejamos certos, no entanto, de que estão sempre bem propensos a adaptar o que escutam para os seus próprios interesses.
    É cada vez maior a insatisfação de segmentos sociais que questionam o conteúdo da agenda informativa e a confiabilidade das noticias publicadas pela imprensa. Mais grave, é a tendência à formação de “guetos” informativos, compostos por veículos jornalísticos e segmentos do público que compartilham a mesma percepção do mundo.
    A falta de diversidade de pensamento nos principais veículos gera um discurso único que não prioriza a contraditório.
    A impossibilidade de dar uma visão divergente da vida na sociedade impôs aos leitores limitações na forma de ver o mundo gerando problemas que hoje começam a se tornar críticos.

    Daí o texto precioso: “E como se rico não pudesse acreditar no sonho de uma sociedade mais justa – mesmo que esse exato tipo de sonho já tenha se provado uma canoa furada, que afundou faz já algum tempo”. (Sérgio Vaz jornalista).

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