A palavra empenhada

Não creio que haja algo mais tenebroso para uma pessoa do que estar aprisionada e ser torturada. A tortura é hedionda e deveria levar o torturador à prisão perpétua.

Dona Dilma foi presa quando jovem. Militava na luta armada contra a ditadura. Gostaria que ela um dia dissesse em entrevista o que sofreu, em detalhes, dando os nomes dos seus algozes e que não deixasse tudo meio no ar. Mas, segundo li, ela pensa que esse não é um assunto que deva ser muito ventilado. É sua opinião e como tal deve ser respeitada.
Mas é minha opinião que sua prisão e sofrimento não são justificativas para desculpar as palavras que dirige aos presos da Operação Lava-Jato que escolhem ter seu tempo de detenção reduzido ao confessar em detalhes os crimes que cometeram contra o Estado.

Na curiosa entrevista que deu à Folha de S. Paulo, publicada em 7 de julho de 2015, em determinado momento dona Dilma diz: “Eu não sei qual é a reação de uma pessoa que fica presa, longe dos seus, e o que ela fala. E como fala. Todos nós temos limites. Nenhum de nós é super-homem ou super-mulher. Mas acho ruim a instituição, entendeu? Transformar alguém em delator é fogo”.

Dona Dilma mistura alhos com bugalhos. Será que ela não percebeu que ninguém mais acredita nisso, que os réus confessos da Operação Lava-Jato são meros delatores, no sentido mesquinho da palavra?

Em outro trecho, ela diz: “Vivemos numa democracia. Não dá para achar que isso aqui seja uma tortura. Não é. É uma luta para construir um país”.

No entanto, quando perguntada sobre qual o tipo de medidas estruturantes que poderão contribuir para o ajuste das contas que ela desestruturou, no médio e no longo prazo, dona Dilma se saiu com esta pérola:

“Tipo tipo”.

Diante da observação dos jornalistas que a entrevistavam: “Essa eu não conheço”, ela acrescentou:

“Vou te dizer como fazíamos em interrogatório. Você faz um quadrado (desenha), ai de ti se sair desse quadrado, você está lascado. Então, se eu não quiser falar de que tipo (de medida) eu não falo, tenho técnica para isto”.

Vocês não acham curioso a presidente da República declarar que se não quiser falar sobre um assunto da maior relevância para nós, ela não fala? Ou seja, não sai do tal quadrado?

Pois eu fico indignada ao pensar que ela bem poderia ter desenhado esse quadrado durante sua campanha, respeitado seus limites e não sair prometendo mundos e fundos ao pobre eleitor que nela acreditou…

Aconteceu exatamente o contrário. Não havia limites para o que ela queria dizer e disse. Para depois de eleita fazer tudo completamente diferente e que se dane a palavra empenhada.

Diz ela que está tentando construir um país. Pena que tenha escolhido um caminho muito acidentado. E feio.

Além disso, tenho uma queixa pessoal contra dona Dilma. O fato de ela debochar de uma das mais belas palavras de nossa língua: querido (a). Imperdoável.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 10/7/2015. 

 

 

Um comentário para “A palavra empenhada”

  1. O país dos golpes — incruentos ou justificados – desapareceu, não existe mais. Todos os golpes se parecem — são cruéis, injustificados. Mesmo como figura de retórica. Se o sistema político não consegue contornar impasses com a esperada agilidade, em algum momento aparecerão as condições e, sobretudo as lideranças, capazes de superá-los.

    Golpe é uma hipótese maldita – para não ser aventada nem mencionada.

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