Uma noite na ópera

Groucho Marx, num acesso hiperbólico de auto-ironia, dizia que não frequentava clubes que o aceitavam como sócio.

Groucho Marx era um comediante e a sua profissão não apenas lhe permitia como o obrigava a ser engraçado.

Quando o Financial Times, o jornal cor salmão que representa o espírito da outrora poderosa City londrina, coração do capitalismo financeiro que metade do mundo ama odiar, disse que o governo de Dilma Rousseff se parece mais aos irmãos Marx embora pretenda ter a eficiência de uma Angela Merkel, estava exercitando o cruel sarcasmo inglês.

Ao contrário de Groucho, os integrantes do governo Dilma não só frequentam os clubes que os aceitam como sócios, como têm a inequívoca tentação de controlar todas as diretorias do clube, apossar-se da sede social, estabelecer uma hegemonia irremovível sobre todas as suas atividades, e ameaçar quem se opuser ao som monocórdico da orquestra que comanda o baile com a danação do fogo eterno.

Apesar da aparente crueldade do jornal inglês, qualquer semelhança dos últimos acontecimentos no país com as gags da troupe de irmãos no clássico Uma Noite na Ópera não é mera coincidência.

Groucho, Harpo, Chico e Zeppo (que não trabalhou em Uma Noite na Ópera) tinham um tipo de humor surrealista — porém voluntário — que pode ser comparado, por exemplo, ao surrealismo involuntário do ministro dos Esportes Aldo Rebelo aplacando os receios ingleses sobre a organização da Copa afirmando que “o Iraque é muito mais perigoso”.

Os quatro irmãos, com exceção de Harpo, que não se dava ao trabalho de falar, conseguiriam montar uma cena melhor do que os ministros Mercadante e Mantega, falando, no mesmo dia, um à imprensa e outro à Câmara, que o governo controla sim alguns preços para segurar a inflação e que o governo não controla nenhum preço, e cada um comprovando a sua tese com fatos escolhidos ao seu bel prazer?

Nem em Uma Noite em Pasadena os irmãos Marx seriam capazes de repetir Lula, Dilma, Gabrieli e Graça Foster dizendo que a controvertida compra da refinaria por um preço muito acima do mercado foi ao mesmo tempo um bom negócio, um mau negócio, um negócio mais ou menos, um negócio que podia ter sido bom, um negócio que se tornou mau — enfim, um teste de múltipla escolha cujas respostas serão preenchidas por uma CPI de senadores chapa branca, que será capaz de concluir que qualquer negócio pode ser bom desde que acabe bem nas urnas.

Quando Lula escreveu um artigo para El País dizendo que tem gente torcendo para a Copa dar errado “com objetivos eleitorais” fingiu esquecer que quando se atirou com tanta volúpia e alegria aos braços da Fifa no dia do “sorteio” da escolha da sede da Copa de 2014 — o ano eleitoral já estava gravado nas estrelas. E que se a Copa der errado não será culpa nem do país nem da oposição, mas de quem transformou as obras de infra-estrutura e os estádios numa noite na ópera.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 16/5/2014.

Um comentário para “Uma noite na ópera”

  1. Os 21 anos de governos democráticos foram da tragédia a comédia, este é o nosso drama.

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