Recém-eleita – e já pato manco

É uma regra universal: não há ninguém mais poderoso, numa democracia, do que um presidente recém-eleito.

Um presidente recém-eleito tem tudo à sua frente. Terá a caneta na mão ao longo do mandato inteiro que está para começar. Acabou de ser ungido pelo povo, tem o apoio da maioria de seus conterrâneos. Merece respeito – e os políticos todos o respeitam.

Exatamente por isso, a melhor fase de um governo é o começo. É quando o presidente recém-eleito tem a obrigação de enviar para o Congresso as suas propostas de mudanças, de reformas – as propostas que havia, durante a campanha eleitoral, apresentado ao país, e que, ao ser eleito, obteve para elas o aval popular.

Propostas apresentadas pelo presidente recém-eleito têm imensas chances de serem aprovadas. Como dizer não a quem acabou de ser escolhido pelo povo? Como dizer não às propostas que o povo avalizou nas urnas?

***

O exato oposto do presidente reeleito é o presidente em fim de mandato, prestes a entregar o cargo ao opositor que acaba de vencer a eleição. É comum se dizer que o presidente em fim de mandato não consegue nem mesmo uma xícara de cafezinho quente: nem os funcionários do palácio dão bola para ele.

Os americanos, que, assim como os cariocas, adoram inventar nomes para as coisas, bolar modismos, criaram o termo lame duck para designar o presidente em fim de mandato que não conseguiu se reeleger ou não conseguiu eleger seu sucessor. Pato manco.

Danada de expressão adequada. Pato é um bicho que não prima assim propriamente pela elegância. Manco, então, tadinho, é um horror.

***

Na noite de domingo, poucos instantes após ter sido reeleita presidente da República, Dilma Rousseff tirou do bolso a proposta de se fazer um plebiscito para a reforma política. Não era uma novidade: ela já havia apresentado a mesma proposta depois das manifestações populares de julho de 2013, como panacéia para todos os males do país.

Os políticos, de uma maneira geral, e os do PMDB, o maior aliado da presidente recém-reeleita, torceram o nariz para a proposta – que, afinal, retira do Congresso Nacional o seu natural poder de negociar e legislar.

Na terça-feira, nem bem passadas 48 horas depois da vitória de Dilma Rousseff nas urnas, a Câmara dos Deputados – que não votava nada fazia várias semanas – votou e derrubou o decreto enviado por Dilma que criava os conselhos populares, algo como os sovietes que Lênin implantou em 1917 na Rússia. Só votaram com o governo o PT, o PSOL e o PCdoB. Todos os demais 25 partidos votaram contra.

Eu, quieto aqui no meu cantinho, fiquei duplamente feliz. Em primeiro lugar, é claro, pela derrota do plano sórdido. Mas, em segundo lugar, porque não se passaram nem 72 horas da reeleição de Dilma e o país já demonstra que era verdade o que eu escrevi antes das 10 da noite de domingo, ainda zonzo, atordoado com a derrota de Aécio Neves:

Não dá para venezuelar, argentinizar, bolivarizar. Eles tiveram 54,0 milhões de votos. Nós tivemos 51 milhões. A diferença é pequena demais para eles quererem cantar de galo.

***

Nunca antes na História deste país houve um pato manco recém-eleito.

A rigor, a rigor, nunca no universo inteiro houve um presidente que é ao mesmo tempo recém-eleito e pato manco.

Mais a rigor ainda, a expressão exata seria anta manca – mas não vou usar isso porque é deselegante, feio. Deselegante e feio como uma anta manca, perdão, um pato manco.

29 de outubro de 2014

4 Comentários para “Recém-eleita – e já pato manco”

  1. Ao menos um comentário próprio e autêntico, pena que manco. Vamos caminhar vovÔ.

  2. O termo pato-manco é ótimo, e a frase “Nunca antes na História deste país houve um pato manco recém-eleito” é melhor ainda!
    Só acho que seria deselegante comparar a dona Dentuça à anta, ofenderia o animal.

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.