Por que xingam?

Grosseiros, violentos, desrespeitosos com a pessoa e com o cargo, os xingamentos à presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo, no Itaquerão, provocaram perplexidade até naqueles que apostavam em vaias. Mas, além de condenar o ato, cabe pelo menos tentar desvendar como tal agressividade ganhou eco entre os mesmos torcedores que arrepiaram o País com o canto a capela do Hino Nacional. E que esbanjaram cordialidade ao aplaudir o time adversário.

Seria possível atribuir a condenável elevação do tom à insatisfação – real e palpável – com o governo, com serviços públicos de péssima qualidade, preços altos, corrupção. Talvez. Mas isso já está expresso nas manifestações de rua, em vaias e mais vaias. Por que ultrapassar os limites?

O ex Lula diz – e com alguma dose de razão – que a falta de educação, não na escola, mas em casa, explicaria os insultos. “Não é dinheiro, nem escola, nem título de doutor que dá educação para a pessoa. Educação se aprende em casa”, reagiu Lula, aproveitando-se, mais uma vez, para apontar a elite endinheirada como responsável pela expressão de baixo calão.

Registre-se que Lula não é propriamente alguém que pode dar exemplos nessa seara, ele próprio boquirroto e, não raro,deseducado. Lembram-se do jovem que reivindicou espaço para praticar tênis quando Lula fazia campanha ao lado do governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ)? “Tênis é esporte da burguesia, porra!”. Depois, sugeriu que o adolescente praticasse natação. Ao saber que a piscina estava fechada, cobrou de Cabral: “Se a imprensa vem aí no fim de semana e vê essa porra fechada, o prejuízo político vai ser infinitamente maior que colocar dois guardas aí”.

Um comportamento modelar para estimular a cultura ao desrespeito.

Cultura que se cristaliza quando não se cumpre o que a Lei manda, quando há conivência com a corrupção, quando a mentira ganha cores de verdade por excesso de repetição, quando a eleição fala mais alto do que o atendimento às demandas do cidadão.

Em um post no Facebook, Márcia Velloso foi certeira: “Quando os que comandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito”. A frase do filósofo alemão Georg Lichtenberg (1742-1799) cabe como luva para o que se vê hoje.

Dilma saiu-se bem nas declarações que fez no dia seguinte aos xingamentos. Mas dificilmente conseguirá estancar vaias e até ofensas por onde passar.

Parte da reação ensandecida contra ela advém de algo que a beneficiou até pouco tempo: a cultura ao ódio, cultivada pelo “nós x eles”, tradução petista do bem versus o mal. Sem meio termo, incentivou-se o radicalismo. De ambos os lados. E leite derramado não volta ao vasilhame.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 15/6/2014. 

2 Comentários para “Por que xingam?”

  1. Os que xingaram estão cheios de ódio, são os whiteblocs, coxinhas, mauricinhos, privilegedios em assistir em estádios padrão Fifa a Copa do Pelego. A Dilma pagou o pato.
    Espera-se mais, a campanha depois da Copa será cruel e baixa. Se o Brasil perder o hexa a oposição vai arrefecer, mas se o Brasil ganhar a Dilma vai ser muito hostilizada. O PIG tem conseguido seu objetiivo, grande parte dos pretensos meritocratas estão se manifestando na internet e agora nos campos de futebol.
    Consideram-se gente mas agem como bestas.
    Dilma, eles não sabem o que fazem nem porque o fazem!

  2. Qualquer homem pode ser vaiado e ofendido com um sonoro “vá tomar no c***”, mas não há registro, até onde se saiba, de outras chefes de Estado do mundo que foram agredidas da mesma forma.

    As ofensas que a presidenta recebeu também são resultado de uma nação com história mal resolvida, cheia de tentativas de golpe, em que as mulheres representam 8% do congresso nacional, ainda recebem os menores salários comparados aos homens e não gozam da cidadania plena em diversos espaços. .

    Pela primeira vez uma mulher foi eleita Presidenta da República em um governo de centro-esquerda, advinda de uma base de esquerda.

    Dilma é, sobretudo, a maior liderança feminina do Brasil na contemporaneidade, sobretudo, Dilma vai entrar para a história como uma mulher.
    É duro para essa elite vira-lata engolir isso.

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