No Itaquerão

Não se assustem, não vou analisar o jogo de ontem. Vibro com nossos gols, acho incrível a fibra do jogador que enfrenta a barra de bater um pênalti, mas daí não passo.

Porém acho justo agradecer ao árbitro japonês. Repetem tanto as cenas que até eu percebi que o croata não derrubou o Fred. O nosso atleta fez o que o Pelé mais de uma vez admitiu que fez: malandrou

Falo no Itaquerão, o único estádio que admito chamar de Arena, já que foi presente do Lula para seu time. Também não tenho nada contra o Corínthians que era o time-paixão do Adoniran. Mas que é o cúmulo gastarmos o que se gastou para o Lula presentear seu time, é.

Enfim, este é um país riquíssimo, podemos dar portos a Cuba, perdoar dívidas de países cheios de petróleo e ditadores com muito dinheiro, comprar refinarias deficitárias, aceitar como sócios bolivarianos que nunca nos pagarão, somos aqueles novos ricos que, não sabendo o que fazer com tanta grana, compram brilhos e se exibem para os vizinhos.

Além de perdulários, somos ridículos. Até para o show de abertura importamos coreógrafos belgas, quando somos conhecidos por fazer espetáculos que o mundo inteiro aplaude.

A Arena não estava jam-packed, como a Fifa gostaria. No entanto, a torcida foi sensacional, cumpriu seu dever: torceu!

Interpretou seu papel de 12º jogador e apoiou os rapazes que, por mais que joguem bem e sejam experientes, Copa é Copa, ainda mais em seu país e defendendo a canarinho.

Porém que papelão em relação à Dona Dilma! Que horror! Foi uma vergonha! Não gostam dela, como eu? Vaiem. Discordam dos gastos absurdos com essa Copa fora de hora num Brasil muito carente? Vaiem. É uma manifestação tão eficiente e diz tanto quanto o aplauso, só é seu contrário.

Ou aguardem outubro.

Por que escrevo então sobre o Itaquerão? É simples.

Aquela Tribuna de Honra tinha uma ausência gritante. Confesso que nem sei se ele foi convidado e recusou o convite, ou se não foi convidado. Mas o jogo jogado era futebol e nós temos, é nosso, tem nosso sangue em suas veias, o único jogador que jamais ganhou três Copas do Mundo. Em 1999, o Comitê Olímpico Internacional lhe atribuiu o título de Atleta do Século.

Copio aqui algumas palavras sobre o grande ausente:

Como se soletra Pelé? D-E-U-S”, manchete do The Sunday Times, jornal londrino.

Após o quinto gol, eu queria aplaudi-lo”, Sigge Parling, zagueiro sueco encarregado de marcar Pelé na final da Copa de 58.

Eu pensei: ‘ele é feito de carne e osso, como eu’. Eu me enganei”, Tarciso Burnigch, zagueiro italiano encarregado de marcar Pelé durante a final da Copa de 70.

Cara, como você é popular!”, Robert Redford após presenciar Pelé dar dezenas de autógrafos em Nova York.

Mas a frase que eu mais gosto é dele mesmo. Chorando copiosamente nos ombros de seus companheiros após vencer a Copa de 58, Pelé, 17 anos, só perguntava uma coisa: “Será que o meu pai e a minha mãe já sabem?”

Fontes: Pelé, Olé!

Pelé

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 13/6/2014.

2 Comentários para “No Itaquerão”

  1. Nosso 12º jogador deixou a desejar, extravasou seu vira latismo e má educação corromido pelas notícias do PIG.
    Faltou Pelé, faltou civilidade no Iaquerão, faltou a torcida do Corinthians… mas se conformemos Deus dá o frio comforme o cobertor.

  2. COPA DO MUNDO
    Cronistas, poetas e filósofos rendem-se ao futebol
    Por Hubert Alquéres em 10/06/2014

    O futebol ensinou, em certa medida, um pouco de democracia ao Brasil. José Miguel Wisnik lembra que o jogo sempre começa em zero a zero e submete as duas equipes às mesmas regras, colocando seus praticantes em condições de igualdade no momento da disputa. Há, claro, resultados alterados por erros de arbitragem e nem sempre vence o melhor. Mas qual seria a graça se não houvesse a zebra e a mãe do juiz para ser xingada particularmente quando ele pisa na bola?

    As vaias, o xingatório, os gritos de guerra, a paixão pelo time que se torce são democráticos e legítimos, desde que não descambem para a violência. O futebol veio à luz do dia para promover a saudável competição, divertir o povo e encantá-lo com a sua magia. A barbárie de torcidas organizadas é uma excrescência, uma negação da essência democrática do futebol.

    O esporte também valoriza o mérito e não faz discriminação alguma, todos podem praticar, seja rico ou pobre, branco ou negro, feio ou bonito, gay, hétero ou trans. Teoricamente é assim. Mas a homofobia e o racismo existentes na sociedade permeiam também o futebol e outros esportes. Discriminações como as sofridas por Tinga, Aranha, Daniel Alves e outros, por causa da cor de sua pele, são o oposto da democracia esportiva, cheira mais a fascismo.

    Pés de lã

    Não foram poucos os nossos intelectuais que voltaram sua atenção e pesquisas a um tema que fascina o Brasil e o mundo, o futebol. Esporte que determina comportamentos culturais em todo o planeta, entre nós o futebol ultrapassou as referências ditas populares. Além de discutido nas mesas redondas e programas esportivos da maioria dos canais de televisão, passou a ser também tema de discussões e debates universitários.

    O futebol, que foi objeto de utilização política no governo militar, e considerado alienante nos bancos de nossas academias, durante muito tempo recebeu de nossos grandes poetas e cronistas outro tratamento. Eles foram mais sábios. Reverenciaram o dom e a mestria de nossos jogadores. Lembro aqui, para citar apenas alguns cronistas, Sergio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Ruy Castro, além dos poetas Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto, que jogou futebol. Mesmo Oswald de Andrade, a propósito de uma excursão europeia triunfal do Clube Atlético Paulistano, inventou um poema quase que estritamente numérico comentando a derrota do time diante do Futebol Clube de Cette (hoje Sète, no sul da França).

    Esse jogo e o poema de Oswald foram um dos motes para o filósofo Bento Prado Jr. escrever sobre “literatura e o mistério da bola”. Nele, relembra toda a sorte de metáforas e expressões criadas para designar lances de futebol: entrar com o pé direito, fazer finca-pé, saber onde por o pé, usar pés de lã, entre outros. Chico Buarque, que não apenas se interessa por futebol, mas o pratica pelo menos três vezes por semana, apropria-se da expressão pés de lã em sua canção “Leve”, em parceria com Carlinhos Vergueiro. Seu lado de torcedor também está exposto na música “Bom Tempo”: “Vou satisfeito/ a alegria batendo no peito./ O radinho contando direito/ a vitória do meu tricolor./ Vou que vou”.

    Quatro cantos

    A arte, a glória, o apogeu, a vida amarga e a decadência de um craque que fez o mundo sorrir estão brilhantemente descritas na memorável biografia de autoria de Ruy Castro, Estrela Solitária. Um brasileiro chamado Garrincha. Nelson Rodrigues, por sua vez, reverenciou a genialidade de um garoto de 17 anos, depois de assistir a partida do Santos contra o América do Rio, na qual Pelé marcou quatro gols, um deles de placa. O “Ameriquinha” de 1958 era gente grande, mas Pelé era imbatível. Talvez Nelson Rodrigues tenha sido o primeiro a chamá-lo de rei: “O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: a de se sentir rei, da cabeça aos pés”.

    Espelho da paixão brasileira, nossos craques eternizaram o futebol como legítimo e inigualável produto nacional, impregnado na memória de todos os amantes desse esporte espalhados pelos quatro cantos do planeta. Nossos poetas, cantores, escritores e intelectuais são de carne e osso. Renderam-se à magia do mundo da bola e a partir de quinta-feira, 12 de junho, estarão com os olhos fixos na telinha, fazendo figa para que o Brasil ganhe mais uma Copa e seja hexacampeão mundial.

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