Erros grotescos, assustadores, da grande imprensa

Torquato Neto criou uma imensidão de coisas antes de seu suicídio, aos 28 anos.

A frase está em matéria na primeira página do Segundo Caderno de O Globo desta semana.

A matéria é boa, interessante, cheia de informações. A frase é apavorante. Pô, e a gente que pensava que parte da produção do grande Torquato tivesse sido feita depois de sua morte…

Não estou inventando, criando, exagerando. Está lá, preto no branco:   “Isso tudo antes do suicídio, aos 28 anos”.

Tudo bem: já não há mais revisores nos jornais, quanto mais preparadores de texto. Fazer jornal é caro demais, e então cortam-se os custos.

Mas… As pessoas não relêem os seus textos?

Escrever bem é uma arte.

Não se pode exigir que jornalistas – agora em geral mal pagos – sejam artistas.

Mas seria exigir demais que os jornalistas, no mínimo, no mínimo, soubessem escrever corretamente? Que não cometessem erros estapafúrdios?

Ou que, no mínimo, relessem seus textos, antes de entregá-los para o editor que agora não tem mais tempo de ler o que os repórteres escrevem – mesmo não havendo mais revisores, quanto mais preparadores de texto?

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A revista Veja fez pior ainda, nesta mesma semana, na sua Carta ao Leitor.

Se a repórter de O Globo cometeu uma frase absurda, demonstrando que não compreende, mais do que o Português, a própria lógica, Veja deixou claro que desconhece as bases do funcionamento dos Poderes.

Se os responsáveis pela redação da maior revista semanal do país, a que se orgulha de ser uma das maiores do mundo, que encara não apenas o Brasil, mas todo o planeta, do alto de uma pilha de um milhão de exemplares, que se julga em condições de ensinar ao presidente Obama e à chanceler Merkel como eles deveriam se comportar, não conhece as coisas mais simples da Constituição brasileira, então é porque estamos realmente ferrados.

E não foi em um texto qualquer – foi na Carta ao Leitor, o editorial, a palavra da revista. Ao falar sobre o Decreto  8243 – aquele monstrengo que cria a Política Nacional de Participação Social, a Carta ao Leitor de Veja diz que “a peça foi enviada ao Congresso”. E, mais adiante, afirma: “Se o decreto passar…”

Um decreto presidencial não é enviado ao Congresso. Um decreto presidencial passa a valer na data de sua publicação.

E o diretor de redação e mais os quatro redatores-chefes da revista Veja, olhando o mundo do alto da pilha de um milhão de exemplares, demonstram que não sabem disso!

O que a oposição está tentando fazer é aprovar um decreto legislativo que derrube o decreto presidencial. Mas a revista Veja não entendeu isso!

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Não sei a idade da moça do Globo que afirmou que tudo o que Torquato Neto produziu foi antes de se matar. É possível que ela seja jovem, e a juventude, felizmente, é uma doença que o tempo pode curar – se o doente for possuidor de alguma dose de humildade.

O diretor e os chefes de redação de Veja seguramente são experientes – mas estão desesperadamente necessitados, não digo de alguma dose de humildade, porque disso não seriam capazes mesmo, mas de no mínimo ler um pouco da Constituição. Deve haver alguns exemplares na redação, e está na internet.

Lá está bem explicada a diferença entre um decreto – que não é submetido ao Congresso – e uma medida provisória, que, esta sim, tem que passar pelo Legislativo.

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Na quarta-feira, dia 11, houve mais um bate-boca envolvendo o batedor de boca Joaquim Barbosa e, do outro lado, um defensor dos mensaleiros.

No meio da sessão da mais alta corte de Justiça do país, o advogado de um dos criminosos condenados foi até a tribuna e começou a arengar.

O presidente do STF reagiu, e, depois de algum tempo, mandou a segurança retirar do recinto o advogado do criminoso condenado.

Pois bem. A grande imprensa, os grandes jornais, os PIG, como dizem os governistas, noticiaram o fato – mas ninguém se lembrou de explicitar que o advogado do criminoso condenado fez algo que não poderia jamais ter feito, que foi interromper uma sessão do STF para, inopidadamente, absurdamente, anticonstitucionalissamamente, trazer à  baila uma questão que não estava em pauta.

Ficou parecendo que o presidente do STF foi mercurial, didadorial, um inimigo possesso dos presos condenados do mensalão.

Ora, Joaquim Barbosa é mercurial, sem dúvida. Mas, naquele momento, no momento em que expulsou o advogado do criminoso condenado que ousava interromper a pauta da mais alta Corte, ele estava com carradas de razão.

Não importa se o advogado do criminoso condenado estava (ou não) intoxicado, fora de si, bêbado. Importa é que ele estava errado. Não é permitido fazer o que ele fez.

E as reportagens não realçaram isso. Deram a entender que Joaquim Barbosa exarcebou. O que, de forma alguma, é o caso.

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Dá para entender perfeitamente por que o PT quer a censura à imprensa.

O que não dá para entender, de jeito algum, é como a imprensa possa se mostrar tão despreparada para exercer o seu papel.

Junho de 2014

 

7 Comentários para “Erros grotescos, assustadores, da grande imprensa”

  1. UMA QUESTÃO DE ORDEM

    Enfim um texto original e não compilativo.Expressivo. Crítica aos pobres jornalistas que tentam a vida nas redações do quarto poder golpista de Veja e O Globo. Jornalistas mal pagos e editores sem revisores para a redução dos custos e aumento do lucro de Civitas e Marinhos.

    Invertida a pauta, enfim o principal.

    Joaquim o negro preferido do LULA virou mercurial.Confesso minha ignorância e tive que recorrer ao Michaelis e Aurélio para verificar o significado, que inocentemente relacionei a ditatorial (didadorial).

    Fui remetido a mercúrio, elemento químico, metal pesado, de cor branco-prateado,VENENOSO.Planeta mais próximo do Sol.Na mitologia corresponde a Hermes deus da eloquência e mensageiro dos deuses.
    Compreendi a relação do termo, o ministro negro escolhido a dedo pelo Lula tem a pele verdadeira branco prateada, é perigoso com as palavras eloquentes e venenosas, é o mais próximo da luz (saber), se não é Deus é seu porta-voz.

    As questões de ordem pública, refletem a supremacia do interesse público sobre o interesse particular.Envolve a dúvida de determinado ente político sobre a interpretação de seu regimento interno com relação ao procedimento a ser seguido.

    O advogado no exercício de seu ofício requereu a questão de ordem.Foi barrado e expulso do plenário.

    Didadorial enfim!

  2. Refaço as perguntas que fiz no Facebook: quantos condenados estão à espera de apreciação de suas petições? Genoino está no topo dessa lista?

  3. Umas pérolas: “o termômetro caiu um grau” (BandNewsFm); “estamos com fulano ELE QUE É…”; (CBN, ESTADÃO, BandNewsFm); “preco dos MATERIAIS de construcão”); “chuvaS de ontem” etc.

  4. Uai, o comentário que fiz anteriormente não saiu. Vamos ver se agora sai. O que fazer com jornalistas (note que não uso o artigo “os”?, dizia eu, à moda do Lênin, que o próprio, o Stalin, o Hitler e o Guevara, entre outros, responderam assim: “Que sejam fuzilados”.

  5. Dá pra entender que o PT queria a censura da imprensa –eu nunca vi isso sendo dito, mas é o que a imprensa diz…

    O que não dá pra entender é como alguém que critica os erros da imprensa pode reproduzir um equívoco enorme como este [que é repetido à exaustão pelos terroristas psicológicos e os defensores de privilégios de plantão], de se confundir regulação com censura…

    Temos, todos, muito a aprender mesmo.

  6. Regulamentação é o termo utilizado por todos aqueles que se sentem envergonhados de assumir que defendem a censura.

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