Memória Viva

Na segunda-feira 31/3 eu estava ocupada e perdi o início do programa Roda Viva, na TV Cultura.

Quando vim para a salinha e liguei ao mesmo tempo o computador e a TV, ouvi uma voz que reconheci de imediato: Almino Affonso. Timbre de voz característico, com o vocabulário rico que se usava até poucos anos atrás, não foi surpreendente que eu reconhecesse sua voz. O que me impressionou foi a sensação de volta no tempo que tive de imediato, cheguei a “ver” a sala da casa de meus pais onde ficava a TV, a “sentir” a sensação “estou em casa”.

Sempre achei estranho que não tivesse guardado exatamente onde estava quando do golpe de 64. À pergunta onde você estava quando soube do suicídio do Getúlio, ou o que fazia quando soube da morte do Kennedy, ou, mais recentemente, no 11 de setembro, eu respondia com minúcias. Mas, no 31 de março de 64, eu não sabia responder.

Agora compreendi. Não houve um 31 de março. Foram vários. Foi o dia dos boatos, foi o dia dos telefonemas, foi o dia seguinte, foi a enxurrada de notícias, foi não largar o rádio, foram as intermináveis discussões, foi a voz candente do Brizola, que não se conformava com a falta de reação do cunhado. (*)

Os 50 anos desse episódio que mexeria tão profundamente com o Brasil nos tem proporcionado enxurradas de artigos brilhantes, cadernos especiais, matérias excelentes de repórteres dedicados e, ao que tudo indica, livros e mais livros.

Mas, para mim, a grande bênção têm sido as entrevistas, as novas e as em arquivo.

Começo com o Dossiê do Geneton Moares Neto. Algumas eu já conhecia, outras, como a com o general Leônidas Pires Gonçalves, vi agora pela primeira vez.

Não é que esse senhor teve a singeleza – é a palavra mais delicada que posso usar – de dizer que Miguel Arraes não foi um exilado, mas um fugitivo? Arraes e outros são fugitivos pois podiam continuar a viver aqui desde que não se metessem com política! Nada lhes aconteceria!…

As entrevistas deste outro jornalista recifense são parte de nossa Memória Viva. Adoro ler e continuarei a ser uma ávida leitora. Mas ver e ouvir uma figura como os generais de 64 ou ver e ouvir o relato do senador Pedro Simon, ou do jornalista Flávio Tavares e seu testemunho de uma discussão tragicômica entre Brizola e o deputado Neiva Moreira, são aulas vivas, de um valor fantástico.

Outro programa imperdível é o já mencionado Roda Viva. O arquivo do programa que, muito a propósito, se chama Memória Roda Viva, dá acesso às entrevistas de Dilma Rousseff, Dom Paulo Evaristo Arns, Fernando Henrique Cardoso, Fidel Castro, Jacob Gorender, Leonel Brizola, Lincoln Gordon, Prestes, Millôr Fernandes, Noam Chomsky, Paulo Francis, Thomas Skidmore, e muitas e muitas outras.

À Internet devemos muito. Ela é o repositório de nossa Memória Viva e isso tem que ser cultivado. E aplaudido.

*Agradeço ao leitor Strix Flamea pela correção do erro.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 4/4/2014. 

Um comentário para “Memória Viva”

  1. MEMÓRIA REAL.

    O texto da Leninha me fez dar tratos a bola. Onde eu estava e como pensava nos dias que marcaram as tragédias que dos anos de 1954, 1963, 1964, 1968 e 2001 ?

    Acionados os mecanismos da memória real descobri que em 24 agosto de 1954 a morte por suicídio do Presidente Vargas, eu na época tinha apenas 6 anos de díade, e presenciei e guardei para sempre a cena de emoção da minha mãe, pai e vizinhos pela morte do apelidado “pai dos pobres”. Marcou para sempre a devoção daqueles moradores de um conjunto habitacional popular de Acari/RJ.

    Quase dez anos depois, 22 de novembro de 1963, o assassinato de JFK marcaria minha vida para sempre. Colado ao rádio, meu avô lamentava o ocorrido, pois admirava o jovem líder norte americano. Meu velho avô me repassou o porquê da sua admiração, isto me fez admirar meu primeiro grande herói: meu avô, um velho de 80 anos que admirava as ideias de um jovem de pouco mais de 40 anos.
    Mais tarde em 31 de março de 1964, estava eu trabalhando como “office boy” da Cia. de Cigarros Souza Cruz, minha maior e inesquecível escola, quando meu reacionário “chefe” anunciou que os militares marchavam para o Rio de Janeiro para depor e prender o presidente João Goulart, segundo ele, meu chefe, chefe mesmo, o presidente seria um comunista. Na época eu era assíduo e diário leitor do JB (Jornal do Brasil) um dos membros da imprensa conservadora, reacionária e golpista. Lembro-me bem da minha alienação, não sabia o que estava realmente acontecendo, enganado pelos jornalões.

    Só vim a despertar na noite de 18 de setembro de 1968, ano que marcou demais, ano do AI5, ano do despertar no mundo todo, naquela noite, nas arquibancadas do Maracanãzinho me dei conta que a revolução de 31 de marco de 1964 na verdade fora um golpe, transformada em mentira de 1º de abril.
    Despertei nas arquibancadas vaiando Sabiá e aplaudindo e gritando Vandré, descobri a farsa de 31 de março e mais passei a ter mais cuidado com o que lia e com quem escrevia.

    A data mais recente 11 de setembro de 2001, recordo estar na faculdade, em sala de aula, escutei um meu colega judeu execrar os muçulmanos, condenando-os a todos indiscriminadamente pelo atentado.

    A minha memória continua viva, ela me conduz a sentimentos inesquecíveis, me tornam humano, demasiadamente humano. A memória virtual da internet jamais poderá gravar ou reproduzir minha memória e meus sentimentos.

    A memória virtual é de grande valia concordo, mas sem o testemunho de uma memória real, pode se tornar uma grande mentira. Li e ouvi com grande tristeza opiniões e versões críticas comparando a situação política e econômica de março de 1964 a atual situação vivida pelo país em março de 2014, nosso medo é justificável 50 anos depois. Ainda marcham com Deus, pela família e pela propriedade.

    Comentários a Memória real, pauta excelente da Leninha.

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