Eu caminhava no meio da maré do Natal

zzzzzzpaulistacorte

Faz muitos dezembros que boto aqui reclamações contra dezembro, contra o clima de Natal, a correria, a necessidade premente, forte, urgente, violenta, de estarmos todos absolutamente felizes.

Alguns anos atrás, fiz até alguns textos bons reclamando contra dezembro, Noel, Natal, correria, consumismo, horror dos horrores.

Usei uma canção triste de Joni Mitchell como escudo para falar mal do clima natalino.

Nada mais fácil que fazer texto bom contra o Natal.

Hoje, a sexta-feira antes do Natal, meu irmão mais velho me convocou para encontro, bem no centro do olho do furacão do movimento de Natal, o Conjunto Nacional, esquina de Paulista com Augusta.

Paul Simon falava de uma Christmas tide – uma maré natalina, uma maré compacta de gente andando nas calçadas das avenidas de Manhattan à cata de compra, compra, compra, compra, presente, presente, presente. Meu irmão me convocou para o epicentro da maré compacta de gente às vésperas do Natal na Manhattan paulistana. Eu poderia ter me recusado; tinha motivos plenos – uma hora apenas antes do encontro combinado, eu havia pego no laboratório 209 fotos de Marina, para organizar num álbum a ser dado de presente para a mãe dela, minha filha.

Mas como dizer não ao apelo de irmão mais velho? E então lá fui eu rumo à maré compacta de gente do Natal na Paulista, embora toda minha vontade fosse ser voltar pra casinha e mexer com as fotos de Marina.

Meu irmão – uma figurinha carimbada – recusou o lugar mais óbvio, por estar, segundo ele, muito cheio e barulhento.

Ora bolas, todos os lugares estão cheios e barulhentos em dezembro, pensava eu. Não me lembro quem foi que primeiro falou a frase – acho que foi o Ari Schneider –, mas de qualquer forma ela é brilhante: “Em dezembro, os bares se enchem de amadores”.

Caminhamos então de novo no meio da maré do Natal na Avenida Paulista.

Regina dizia não ter gostado de Hearts and Bones, o disco de Paul Simon de 1983 em que ele fala de estar andando no meio da Christmas Tide em Manhattan quando um desconhecido chegou pra ele e perguntou se ele já sabia que John Lennon tinha sido morto – e então os dois tinham entrado num bar e ficado lá até a hora de fechar.

Regina fazia questão de não gostar de alguma coisa de que eu gostasse muito, e em 1983 eu estava absolutamente apaixonado pelo disco de Paul Simon, e em especial pela canção em que ele criava a expressão Christimas Tide. Meu, que idéia fantástica, dar o nome de maré de Natal para aquela absurda quantidade de gente que sai pelas calçadas das principais ruas e/ou avenidas à procura de presentes de Natal.

***

Pois é: faz muitos Natais que coloco aqui reclamações contra dezembro, queixumes contra o clima de Natal.

Hoje, olhando para a Christmas Tide na Paulista à minha frente, nas costas do meu irmão, e ouvindo o barulho cada vez mais ensurdecedor dos amadores às minhas costas, por algum motivo do qual não estou nada certo, relaxei e gozei. Penseui: meu, se eu vim pra Paulista a poucos dias do Natal, não posso reclamar de nada. Se não quisesse reclamar, não tivesse vindo.

E aí, depois da terceira cervejinha (não muito gelada, porque afinal estávamos no América), comecei a achar o mundo não absolutamente cruel, e a Christmas Tide, afinal de contas, não tão horrorosa assim.

Até creio ter visto algumas pessoas sorrindo.

Então tá: give me love, give me peace on Earth.

Acho que essa é talvez um tipo de tradução do que minha filha sente em relação ao Natal. Após a morte da mãe, Natal era uma coisa horrorosa na cabeça dela. Tivemos três ou quatro Natais assim, de horror, pela falta de Suely. Aí Marina nasceu – e a vida mudou, tudo mudou.

Give us love, Lord, give us peace on Earth.

19 de dezembro de 2014

Para o eventual leitor que detesta o Natal:

Uma suave vingança contra a insanidade natalina

Ainda por cima inventamos o Natal 

A foto é de Igor Schultz/Flickr.

5 Comentários para “Eu caminhava no meio da maré do Natal”

  1. É isso aí Servaz. tudo muda com a nascimento de uma criança. Hospitalizado, cercado de doentes, horrorese e dor, houvi o choro de uma criança que nascia, que maravilha, todos nós esquecems nosso sofrimento e sorrimos por alguns momentos.
    Fellz Natal!

  2. Do que eu mais me queixo nesta altura é do frio. Aqui é quase Inverno, começa amanhã com o solstício mas tem estado um tempo muito seco e frio. Esta noite o termómetro marcou 3 graus. Quanto à Christmas Tide já aprendi a fugir dela há uns anos.
    Feliz Natal!

  3. Sou um ateu que gosta muito do Natal. Mas, ao contrário do verdadeiro safári do Sérgio  Vaz pela selva do comércio, as minhas aventuras natalinas costumam ter  muito mahis suor do que cerveja.   Ontem,  depois de uma semana de trabalho, incluindo longos e preguiçosos intervalos,   terminamos de enfeitar a nossa árvore de Natal.  Hoje,  fiquei das duas da tarde às onze da noite instalando  as tais luzinhas pisca-pisca no alto da fachada da minha casa, como faço todo ano. Muitas lâmpadas ficam defeituosas ao serem  guardadas de um ano para outro e teimam em não acender no Natal seguinte.    Por isso,  a maior parte do tempo sempre é gasto  tentando  descobrir quais lampadinhas defeituosas  são responsáveis  pelo desligamento de várias outras vizinhas. É como procurar uma agulha num palheiro. O resto do tempo normalmente é gasto em cima de uma escada,  próximo  ao telhado, sob o olhar curioso de vizinhos e passantes. Minha mulher, anualmente escalada como ajudante, costuma ficar lá embaixo me fazendo prometer que no próximo  Natal  vou deixar de ser pão-duro e contratar um eletricista. É que uma vez fui consertar a caixa d'água e caí  do telhado.  Quebrei uma costela e fraturei o cóccix.  Porém,  ao ver tudo finalmente aceso às onze da noite, ela adorou.  Mas me pareceu pouco sensível à notícia de que meu corpo inteiro estava dolorido: perguntou  se eu não  gostaria  de amanhã  consertar as outras  redinhas de lâmpadas que estão defeituosas  e instalá-las na parte lateral da casa. Eu gostaria.

  4. Miltinho, José Luiz, Luiz Carlos, não se apiedem do Sérgio Vaz por ter enfrentado o centro do furacão na Manhattan paulistana, ao sabor de cervejinhas geladas. O irmão poderia tê-lo, ainda que inadvertidamente,convidado para a afamada rua 25 de Março, por onde, nesta época, desaba um tsunami de 1 milhão de pessoas por dia.
    Pensando bem, não seria justo. Vamos colocar Sérgio e seu irmão em um grande shopping center. Digamos o Center Norte, na zona norte da cidade, com toda comodidade, segurança, restaurantes e 100 mil pessoas esperadas para hoje.
    Seguramente haverá lugar para uma bebidinha, mesmo para quem não for comprar smarthphone ou tevê de tela plana.
    Temos que respeitar o gosto de cada um. No meu caso, preferia a 25 de Março a colocar lampadinhas no telhado. É verdade que, na 25, o risco de acidente (pisoteamento pela massa), é bem maior. Mas sabe que não é tão ruim, tem uns precinhos bem em conta.

  5. Dei uma retocada na iluminação da árvore de Natal e coloquei as lâmpadas na lateral da casa. Ao contrário do Sérgio,  até  agora não tomei nenhuma cerveja, para evitar aquela vontade de fumar. Amanhã, vou comprar o pernil, a farofa e outras comilanças. Onde? No Açougue Cultural, é claro. Lá eles também vendem carnes.

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