Quadrilha

Ouço pela primeira vez o Uakti tocando Beatles, e penso nos seis graus de separação.

Vi o filme outro dia mesmo – Seis Graus de Separação, tradução literal do título original, de Fred Schipisi, feito em 1993, com Stockard Channing, Will Smith, Donald Sutherland, Ian McKellen, Mary Beth Hurt.

Segundo o verbete da Wikipedia em português, que Mary (um grau de separação, já que vive comigo há 22 anos) localizou num átimo, e átimo é ótimo:

“A teoria dos seis graus de separação originou-se a partir de um estudo científico, que criou a teoria de que, no mundo, são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas. (…) A popularidade da crença no fato de que o número máximo de passos entre duas pessoas é 6 (seis) gerou, em 1990, uma peça de nome Six Degrees of Separation, de John Guare.”

Entre eu e o filme de Fred Schipisi, então, que vi sem saber da existência da peça, existem quantos graus de separação? Não sei fazer essas contas.

Quem me passou o disco do Uakti tocando Beatles foi o Carlos Bêla. O Carlos eu conheço há uns 18 anos, mas eu o conheço porque ele uns 18 anos atrás começou a namorar Fernanda, minha filha. Minha filha tem comigo um grau de separação – é isso? Não consigo muito bem entender essa teoria. Então eu tenho com o Carlos dois graus de separação?

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Fiz este texto antes que a Vejinha publicasse no seu site a matéria “Conheça designers que fortalecem a cultura de shows em São Paulo”, em que um deles é Carlos Bêla. Coincidências são quantos graus de separação?

O Carlos fez todo o design, todo o grafismo, toda o visual da abertura da Pedra do Reino, a minissérie da Globo baseada em Ariano Suassuna. Quando eu tinha uns 14 anos vi no Teatro Francisco Alves de Belo Horizonte O Auto da Compadecida de Ariano Suassuna. Isso me põe em quarto grau de separação com o mestre pernambucano?

Quando a Globo lançou A Pedra do Reino, com o design do Carlos, achei o maior barato, porque a série juntava o Carlos e o Marco Antônio Guimarães. Tornava-os próximos por dois graus de separação.

No Colégio de Aplicação – e até depois –, fui colega e ouso dizer amigo de Marco Antônio Guimarães. O que me deixaria na condição de estar a dois graus de separação dele. Como fui colega e até amigo dele e conheço o Carlos, meu genro, há uns 18 anos, o Carlos e o Marco Antônio passam a ser o quê? Separados-unidos por quatro graus de separação?

Mas os dois conhecem o Luiz Fernando Carvalho, o genial diretor da série – então eles na verdade têm apenas dois graus de separação. Ou seriam três?

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Marco Antônio e eu éramos amigos do Cuca, e o Cuca e eu amávamos a mesma mulher, Beth. Beth era irmã da Regina, que era colega de classe do Cuca, do Marco Antônio e minha, o que a faz estar a apenas dois graus de separação de nós todos – mas eu jamais voltei a ver a Regina.

Voltei a ver Beth, mas só por uma breve ocasião, e depois nunca mais.

Também não voltei a ver o Cuca. Vi Marco Antônio, numa vez em que ele veio a São Paulo tocar com Milton Nascimento no show dele no Ibirapuera para lançar o disco Sentinela, o primeiro do grande músico na então nova e gigantesca empresa fonográfica Ariola, que chegava ao Brasil comprando os passes de todos os grandes. Depois do show, fui encontrar com Marco Antônio e com os amigos dele do Uakti. Eles brincavam entre eles: vamos ouvir o Sentinela?

Estavam de saco cheio de tanto ensaiar para as faixas em que tocaram no Sentinela – inclusive a faixa em que Milton botou música no poema brincalhão sério lindo de Leila Diniz sobre brigam Espanha e Holanda pelos direitos do mar.

Será que isso me poria em 167º degrau de separação de Leila, a atriz brasileira que foi e é meu ídolo?

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Quando passamos uns dias no Rio de Janeiro, Mary e eu fomos ver uma peça de Ibsen na Gávea, não porque fosse de Ibsen, mas porque era dirigida por Domingos Oliveira, um dos artistas que mais admiro na vida, e com quem não chego a ter nem sequer 200 graus de separação.

Uma das pessoas que mais admiro na vida é Vivina, que deu aula para o Cuca, o Marco Antônio, a Regina e eu, entre muitos outros afortunados. Vivina, pouco mais velha que seus alunos, sempre gostou muito de nós – e escreveu um livro, Suando Frio, cujos personagens foram inspirados em nós. Estamos lá, escarrados, o Cuca, o Marco Antônio, eu. Algumas vezes Vivina disse, não nos seus belos livros, mas de verdade, na vida mesmo, que aquela nossa turma tinha um monte de meninos muito inteligentes, muito especiais – e tinha um gênio: Marco Antônio.

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E aqui faço um parênteses. Corria entre nós, os meninos do Colégio de Aplicação do início dos anos 60, a lenda de que a primeira mulher do Gláuber Rocha, ao ver Deus e o Diabo na Terra do Sol, saiu do cinema berrando: ‘Eu era casada com um gênio e não sabia!’ Não sei dizer se isso aconteceu de fato. Era uma lenda entre nós, que aplaudíamos de pé Deus e o Diabo na Terra do Sol nas exibições do CEC, o Centro de Estudos Cinematográficos, na Imprensa Oficial da Avenida Augusto de Lima. Naquela época, exercíamos a nossa oposição ao golpe militar com aplausos: aplaudíamos Gláuber Rocha, Os Companheiros de Mario Monicelli no Cine Art Palácio, o Auto da Compadecida no Francisco Nunes.

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Um, dois, três graus de separação. Todos nós, os alunos do Aplicação que ficamos próximos de Vivina, conhecemos Gilberto Mansur, o namorado dela desde São João del-Rey.

Foi ele o responsável por eu virar jornalista na vida.

O que faz o quê? Que eu e o jornalismo estamos em segundo grau de separação? Sei lá. Não entendo direito esse conceito.

Quando soube que eu estaria de mudança para São Paulo, após dois anos de exílio em Curitiba, Marco Antônio me escreveu insistindo em que eu conhecesse uma moça interessantíssima, Bibi. Conselho de amigo a gente segue, e conheci a moça – e me apaixonei por ela, que estava apaixonada por ele. Fui pela primeira vez na vida a Salvador levado por ela, que ia se reencontrar com ele. Ficamos todos juntos na belíssima república baiana da Ladeira dos Aflitos. Aprendi a conhecer Salvador pelas lições de Marco Antônio, então estudante de música na UFBA. Hoje me sinto um tanto doutor em Salvador; outro dia escrevi 40 linhas de dicas para meu irmão Geraldo que, loucamente, ainda não havia conhecido a cidade mais apaixonante que há neste país – o Rio de Janeiro, e a cidade que escolhi para viver, que me perdoem.

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Outro dia fui com Mary ver o apartamento que minha filha e o Carlos acabaram de comprar, e no qual eles vão criar minha neta. Fernanda estava levando a avó Diva, o irmão Lucas e o primo-irmão André para conhecer, e então fomos de carona.

Como se dá essa coisa de primeiro, quinto, centésimo grau de separação, quando eu vejo que minha neta vai brincar dentro da exata mesma quadra em que a mãe dela brincou quando tinha de três a, sei lá, treze anos?

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Continuo ouvindo as músicas dos Beatles com o Uakti.

E penso numa canção muito mais antiga – aquela que diz que “It’s a Wonderful World”.

Neste momento, neste país, vivemos no pior dos mundos.

E no entanto me sinto feliz. “Soy feliz, soy un hombre feliz, y quiero que me perdonem por este dia los muertos de mi felicidad”.

Quando Antônio, o marido de Regina morreu, Heitor, o pai de Inês já havia morrido, e então, quando fui ver Regina, ela me abraçou e disse: “Agora só ficou você. Não morra.”

Eu sobrevivi, Regina morreu antes de Suely. Quando Regina morreu, já fazia muitos anos do trauma da minha separação de Suely pela paixão por Regina. Não consigo me lembrar se Suely foi ao velório de Regina, mas me lembrarei sempre de que Fernanda, comigo e com Mary, recebeu Inês chegada com o Karsten da Alemanha para o velório da mãe, e as duas meninas choraram juntas a perda da mãe da mais velha.

No livro que Regina publicou, dedicou a mim três míseros parágrafos – um deles dizendo que nossas filhas agora se davam bem. Carlos já existia, e se encontrou com Inês em Trancoso numa vez em que Fernanda conseguiu arrastá-lo para a Bahia, ele que, mais ou menos como eu, não tem especial predileção por sol.

Qual teria sido o grau de aproximação/separação entre Carlos e Regina, quando se viram em Trancoso?

Bibi, a mulher de Marco Antônio, se reencontraria comigo depois de se separar dele, quando Regina já não era mais minha mulher. Voltamos a nos encontrar diversas vezes, naquele tempo em que Regina era ex e Marco Antônio era ex.

Uma vez fui com Dona Lúcia, mãe da Mary, comprar uma jóia criada por Bibi para presentear Mary. A amizade é muito maior que o amor, ou eventuais histórias de amor.

Nos Irmãos Karamázovi de Dostoiévsky (obrigado pela correção, Jorge!), Grushenka fala uma das frases que mais me impressionaram na vida:

“Se eu fosse Deus, eu perdoaria todo mundo.”

Eu, se fosse Grushenka, seria ainda mais ousado:

“Se eu fosse Deus, eu faria todo mundo feliz.”

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Não que eu tenha muito do que reclamar.

Ao contrário.

Tenho imenso, desmedido orgulho por ter conhecido as mulheres que conheci.

E o que isso tem a ver com os seis graus de separação?

Ah, sei lá. Provavelmente nada.

Foi só porque o Carlos, o pai da minha neta, me mandou o disco do Uakti tocando Beatles. Outro dia mesmo fui me encontrar com Fernanda e Carlos para o exame de ultrassom dos oito meses. Foi a primeira vez que vi minha neta se mexendo em tempo real.

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O Estadão publicou uma matéria sobre o show do Uakti em São Paulo. O autor da matéria conheço pessoalmente, é, na minha opinião, um dos melhores críticos de música que assinam matérias na grande imprensa hoje. Aconteceu quando ele escreveu o texto uma pequena tragédia: ele se enganou de Marco, disse que o músico do Uakti é Marco Antônio Araújo. A música de Minas tem três Marcos, e ele trocou o sobrenome do Marco do Uakti. O Araújo é grande, mas o Guimarães é maior.

O Marco Antônio Guimarães era o gênio da minha turma de ginásio, como Vivina já sabia fazia tempo.

Quando, depois de se casar com Bibi no papel em Salvador, ele veio para São Paulo, tendo passado no concurso para violoncelista da Orquestra Sinfônica do Estado, naquela época pré Sala São Paulo que Mario Covas criaria muito mais tarde, falei para ele uma coisa idiota, mais ou menos assim: “Não deixe de fazer música popular”.

Marco Antônio Guimarães fez muito mais do que música erudita e música popular. Juntou tudo. Smetakeou – criou instrumentos musicais que jamais existiram antes dele. Gravou com Paul Simon, com Philip Glass, além de Milton. Depois de velho – somos agora todos velhinhos –, fez os arranjos para o Uakti tocar Beatles.

Se Marco Antônio faz arranjos de Beatles, além de Vivaldi e Bach, isso me faz ter quantos graus de separação de Vivaldi, Bach, Lennon-McCartney?

Sei lá.

Penso apenas que sou um sujeito de imensa sorte por ter conhecido todas as pessoas citadas aí acima.

Fevereiro de 2013

5 Comentários para “Quadrilha”

  1. Fui a uma convençao do PT em Sao Bernardo, de lá dei uma esticada em SP na casa do Sérgio. Foi uma terde feliz na companhia dele, Regina e Inez. Naquela época Sérgio era meio petista. Regina e Inez me pareceram simpatizantes. Dei para Inez um boné do partido. Quantos graus de separaÇào?

  2. Oi, Sérgio.
    Que texto emocionante! Alguns nomes são de pessoas que eu conheço e a gente se sente tocado por um dedo mágico. Viver é assim.
    Também não sei quantos graus de separação tenho com Dostoiévsqui. Sei que todo ano eu releio um de seus grandes livros e repito agora, fazendo uma adaptação, uma frase que ouvi algumas vezes na vida, de alguns idiotas, quando falam do sexo que fazem com determinada pessoa: é sempre como se fosse a primeira vez! Aiai! Pois é. Releio Dostoiévsqui e é sempre como se fosse uma primeira vez.
    Dostoiévsqui entra aqui porque pela segunda vez, no seu saite, você fala da Grushenka do Crime e Castigo e a Grushenka é dos Irmãos Karamazovi. Fica a dúvida: a frase citada é da Grushenka ou da Sônia Marmeládova?, essas duas criaturas especiais, saídas de um cérebro especial.
    No mais, tudo bem, a gente tentando ter zero grau de separação com o universo…

  3. Jorge, muitíssimo obrigado pela mensagem – e pela correção. Já acertei lá.
    Miltinho, nós não temos nem um grau de separação. Somos amigos na vida e fraternalmente rivais na política!
    Abração aos dois!
    Sérgio

  4. Sérgio,
    Afortunado somos nós de conhecer você. E de ter o imenso prazer de ler um texto como este! Belíssimo, belíssimo.
    Muito obrigado. É uma honra e uma alegria ter um grau de separação de vocês!

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