O tempo não passa

Gostei muito de um texto que li nos jornais, de autoria de Carlos Heitor Cony. Para ele, os ministros novos do Supremo, que não participaram  do julgamento do mensalão e agora querem influir em suas consequências, estariam emendando um soneto que não escreveram.

Esse e outros escritos frequentam meu olhar enquanto curto um período de repouso forçado em casa. Ao contrário do que cantava o Cazuza, “ o tempo não para”, o meu escorre devagar, manso, gota a gota. Não me sinto um observador de ampulheta exatamente porque busco preencher meus dias com leituras, noticiários repetidos de tevê e jogos de futebol. Vejo todas as séries, de todos os lugares, todos os esportes.

Mesmo assim minha jornada é lenta e eu me socorro da capacidade de pensar a vida e o mundo. Qualquer estímulo exterior me atiça. E a mente surpreende com idéias, algumas sensatas e outras malucas. É comum do ser humano. Desço para o quintal e me vejo me inebriando com o canto de uma sabiá, que me comove, mas incomoda uma paulistana que reclama que a fêmea do passarinho ensina seus filhotes a cantar na madrugada da metrópole. Ela o faz naquela hora para não atrair os predadores, mas a mulher urbana se desespera com a aula de cantar. Reclama que não dorme.

Agora me vejo a contemplar pequenos insetos que caminham pelo chão do terreiro. De onde vieram, para onde vão?  Quanto tempo de vida têm, se não forem pisados por algum sapato distraído? O sol está quente, a piscina azulzinha e eu não posso mergulhar meu corpo nela, pelo menos por uns dois meses, penso, quando o calor da primavera estiver habitando o nosso cotidiano.

Uma pequena folha de papel chama a minha atenção. É uma anotação que fiz para algum escrito: abaixo qualquer ditadura. Temos de reconhecer que para muita gente ditadura só é ruim se é comandada por forças de uma ideologia diferente da sua. Quando os seus companheiros é que oprimem o povo, não há problema. Os fins justificam os meios e o que se quer é o bem futuro de todos. A História está cansada de dizer que não é bem assim: tudo de bom para os comandantes e seus aliados e masmorra para quem não concordar com eles. Tenho nojo de ditaduras e ditadores.

Outro lembrete solto no papel: quem precisa ser controlado é o Governo. Os governos não têm o direito de controlar nossa liberdade. Os cidadãos é que devem controlar os governantes.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em setembro de 2013. 

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